Carlos Batalha

Arquitetura e urbanismo por formação, estratégia digital por profissão, leituras por diversão.

Mel, girassóis e o acaso da felicidade

Sempre fazemos muitos planos, tentamos nos antecipar ao que pode acontecer, consideramos as possibilidades para minimizar riscos e maximizar benefícios, sempre em busca de um bem estar maior, de uma felicidade. Mas será que sempre conseguimos planejar nossa felicidade?


carlos-batalha-texto-acaso-felicidade.jpg

Sempre fazemos muitos planos, tentamos nos antecipar ao que pode acontecer, consideramos as possibilidades para minimizar riscos e maximizar benefícios, sempre em busca de um bem estar maior, de uma felicidade. Mas será que sempre conseguimos planejar nossa felicidade?

Fiquei pensando, então, na felicidade que habita o acaso e como o imprevisível guarda em si uma sinceridade tão bela, porque descompromissada. Não foi analisada, escolhida, destrinchada... apenas foi. E lembrei de um conto de Caio Fernando Abreu, Mel & Girassóis, que fala de um cara e uma mulher tão diferentes, mas tão iguais, num encontro tão casual, e que não poderia ter sido melhor se planejado.

No texto de Caio, eles, "como naquele conto de Cortázar, encontraram-se no sétimo ou oitavo dia de bronzeado. Sétimo ou oitavo porque era mágico e justo encontrarem-se". Tudo tão ao acaso que não fazia sentido deliberarem o próximo encontro. Bastou um "- Desculpe. - Não foi nada". E seguiram como se nada tivesse acontecido.

Mas, num outro encontro, eles não mais anônimos, um "- Tudo bem? - Jóia". Depois mais outro encontro. E os diálogos crescendo. "Conversaram, no oitavo ou nono dia." Naquela fase de busca de interesses iguais, após muitas citações, "empatados, encontraram-se em João Gilberto, que ouviam sozinhos em seus pequenos mas bem decorados apartamentos urbanos [...] Meio idiotas, mas tão felizes, ficaram cantando O Pato..."

E seguiram como se quisessem muito, e ao mesmo tempo tão despretensiosos como quem espera nada. E tudo mais intenso, mesmo aparentemente sem sentido pelo envolvimento com alguém tão recente, e tão acaso. "Ela achava um pouco forte estar-se exibindo assim com um homem afinal desconhecido [...], mas encostava mais e mais a bacia na bacia dele ― a pelve, a pelve".

Tempo passando, como se aquilo fosse morrer tão de repente quanto nasceu. "Último dia, não havia mais tempo. Manhã seguinte, acabou: the end - sem happy? - Eu não vou me esquecer de você. Ela disse: - Nem eu [...]. Ele afastou-a um pouco, para vê-la melhor. Ela sacudiu os cabelos, olhou bem nos olhos dele [...] Estenderam as mãos um para o outro. No gesto exato de quem vai colher um fruto completamente maduro".

E assim fizeram o que parecia efêmero, eterno, pedindo desculpas ao "acaso por chamá-lo necessidade", como naquela poeta húngara do Nobel.

E ficaram, então, com essa felicidade que nos alcança de surpresa.


Carlos Batalha

Arquitetura e urbanismo por formação, estratégia digital por profissão, leituras por diversão..
Saiba como escrever na obvious.

deixe o seu comentário

Os comentários a este artigo são da exclusiva responsabilidade dos seus autores e não veiculam a opinião do autor do artigo sobre as matérias em questão.

comments powered by Disqus
version 4/s/literatura// @destaque, @obvious //Carlos Batalha