dois senhores

Jornalismo e Literatura, pois todo jornalista fere no peito o escritor

Cíntia Silva

Jornalista (com diploma), bisneta de revolucionário, apaixonada por: Jornalismo, Literatura, História e Coxinha (não exatamente nessa ordem)

Novo Jornalismo: O que a literatura tem a aprender com o jornalismo e vice-versa

Era a década de 60, Woodstock acontecia, a contracultura aflorava e o choque de gerações aumentava. Enquanto soldados batalhavam no Vietnã, jornalistas e escritores batalhavam no campo das letras. "Esses jornalistas mentirosos estavam inventando matérias". "Esses escritores conservadores não querem olhar para o grande momento histórico pelo qual a sociedade passava". E assim nasce o Novo Jornalismo, com textos que utilizavam das técnicas literárias para contar o que romancistas e veículos de comunicação conservadores ignoravam.


É fato que existem fronteiras entre o jornalismo e a literatura, mas não é tão difícil conseguir um visto para transitar entre um e outro. A partir do momento em que essa fronteira é ultrapassada, tanto o jornalista quanto o leitor saem mais ricos do processo. O jornalista que pode escrever fora dos padrões estabelecidos pelo lead e ainda assim continuar a serviço da realidade. E o leitor, que pode ser informado de forma mais agradável e instigante sobre os fatos noticiados. O jornalismo sempre vestiu a armadura de algo objetivo e imparcial, mas o jornalismo literário veio para furar essa armadura. Uma das formas mais revolucionárias de escrita jornalística ocorreu nos anos 60. O New Journalism chegou causando estranheza e revolta tanto no time dos jornalistas, quanto dos literatos. Era um período conturbado nos Estados Unidos. Muitas mudanças estavam ocorrendo na sociedade, havia um abismo entre as gerações, a contracultura aflorava, Woodstock acontecia, a corrida espacial estava em alta e a permissividade sexual crescia. Esse tempo de mudanças foi a causa para o nascimento do Novo Jornalismo, segundo Wolfe:

“Todo esse lado da vida americana que aflorou com a ascensão do pós guerra, enfim destampou tudo – os romancistas simplesmente viraram as costas para tudo isso, desistiram disso por descuido. E restou uma enorme falha nas letras americanas, uma falha grande o suficiente para permitir o surgimento de um desengonçado caminhão reboque, como o Novo Jornalismo”

Poster Woodstock

Pode-se dizer que se o New Journalism passou a existir e a incomodar tantos escritores, quanto jornalistas mais conservadores, uma parcela de culpa também pertence a eles, que não deram olhos e nem espaço para esses acontecimentos. Mas a história por trás da criação do termo nem Tom Wolfe, escritor do livro Radical Chique e o Novo Jornalismo, e jornalista muito atuante no estilo, sabe contar como aconteceu:

“Não faço ideia de quem cunhou a expressão “Novo Jornalismo”, e nem quando foi cunhada. Seymour Krim me conta que ouviu essa expressão ser usada pela primeira vez em 1965, quando era editor do Nugget, e Pete Hamill o chamou para dizer que queria um artigo chamado “O Novo Jornalismo” sobre pessoas como Jimmy Breslin e Gay Talese.”

De acordo com Wolfe, o New Journalism não pode ser classificado como um “movimento” propriamente dito, pois não haviam grupos, nem panelinhas com jornalistas que se reuniam em bares ou clubes para discutir o tema. O que ocorreu é que em meados dos anos 60 as pessoas começaram a se dar conta de uma espécie de “excitação artística no jornalismo”. Jornalistas como Thomas B. Morgan, Terry Southern, Gay Talese e até escritores, como Norman Mailer, estavam escrevendo “não-ficção” para a Esquire e, Wolfe no suplemento dominical do New York. Era uma boa turma em ação. Nenhum deles imaginava que essa história poderia causar algum tipo de impacto fora do mundinho das reportagens especiais, mas em 1966 o Novo Jornalismo já começou a causar “amargura, ressentimento e inveja.” Críticas negativas sobre essa nova forma de se fazer jornalismo vieram das publicações ligadas a literatura e, de jornais conservadores, como o The New York Review of Books e o Columbia Journalism. Não foi por menos, pois o New Journalism chegou abusando da utilização de recursos literários, subjetividade autoral como forma de apreensão da realidade e, principalmente, admitindo o relato da realidade na forma de interpretação, além de questionar o método tradicional de reportagem. Segundo Tom Wolfe, o New Journalism, se tornou “tão absorvente e fascinante quanto o romance e o conto”. Em seu livro, o autor lembra da primeira experiência que teve com o New Journalism, foi em uma reportagem lida na revista Esquire, chamada Joe Louis: o Rei na meia-idade. Segundo ele, “o texto começava com o tom e o clima de um conto, com uma cena bastante íntima; íntima demais para o padrão do jornalismo de 1962, pelo menos.”. O texto citado por Wolfe já começa com um diálogo entre Joe, personagem central da reportagem, e sua esposa em um aeroporto. O texto era constituído por várias cenas assim, com diálogos e construção de cenas que mostravam a vida íntima do personagem. A narrativa tinha tantos detalhes e se amarrava tão bem que com algumas poucas mudanças poderia se tornar um conto de não-ficção, como afirma Wolfe. De inicio o texto causou estranheza no leitor:

“Minha reação instintiva, defensiva, foi achar que o sujeito tinha viajado, como se diz... improvisado, inventando o diálogo... Nossa, ele talvez tenha criado cenas inteiras, o nojento inescrupuloso... O engraçado é que essa foi a reação que intocáveis jornalistas e intelectuais da literatura teriam ao longo dos nove anos seguintes, à medida que o Novo Jornalismo ganhava força. Os filhos da mãe estão inventando!”

O tipo de reportagem do New Journalism era algo inédito, e a sociedade ainda não estava habituada a pensar que uma reportagem poderia ter dimensões estéticas. Esse novo jornalismo foi se espalhando para alguns jornais e revistas de forma natural. Logo as narrativas que pareciam ficção, apesar de serem reais, estariam estampando as páginas de jornais famosos como o Herald Tribune e o New York. Geralmente, esses textos poderiam ser encontrados nos suplementos dominicais. Os jornalistas que se aventuraram no New Journalism enfrentaram algumas dificuldades, como já vimos, e a primeira delas era a falta de crença dos outros jornalistas e dos literatos que não acreditavam na veracidade dos textos. Outro problema foi em relação à dedicação que escrever pela visão no Novo Jornalismo necessitava. Se um jornalista normal passaria algumas horas com seu entrevistado para escrever um texto, o novo jornalista teria muito mais trabalho e precisaria de muito mais tempo com sua fonte para escrever um texto. Ele deveria ir muito além, teria que captar expressões faciais, gestos, detalhes do ambiente, detalhes da vida “subjetiva e emocional do personagem”.

Vamos entender então como funcionava a estrutura de uma reportagem no Novo Jornalismo. Segundo Wolfe, todo o poder se originava de quatro recursos: a construção cena a cena, o registro do diálogo completo, o uso do ponto de vista da terceira pessoa e a atenção especial ao status de vida do personagem. A construção cena a cena consiste em “contar a história passando de cena para cena e recorrendo o mínimo possível à mera narrativa histórica”. Desse modo o jornalista testemunha de fato as cenas da vida da outra pessoa no momento em ocorrem, o que possibilita a ele já registrar o diálogo completo, que é um outro recurso do texto no Novo Jornalismo. O registro do diálogo completo, “estabelece e define o personagem mais depressa e com mais eficiência do que qualquer outro recurso”. Dessa forma, o jornalista consegue trabalhar com o diálogo de forma plena e reveladora, algo que não acontece no textos dos romancista que o eliminam, ou seja, o profissional deve usar “o diálogo de maneiras cada vez mais criptas, estranhas, e curiosamente abstratas”. O terceiro recurso é uso do ponto de vista da terceira pessoa, que consiste na “técnica de apresentar cada cena ao leitor por intermédio dos olhos de um personagem em particular, dando ao leitor a sensação de estar dentro da cabeça de um personagem em particular”. Assim o leitor tem a impressão de experimentar a “realidade emocional” que o personagem tem no momento. O último recurso se refere ao status de vida do personagem e este trata-se do “registro dos gestos, hábitos, maneiras, costumes, estilos de mobília, roupas, decoração, maneira de viajar, comer, manter a casa, modo de se comportar com os filhos, os criados [...]”. De acordo com esse recurso o jornalista deve se atentar a todos os detalhes simbólicos que possam existir dentro da cena, pois isso ajuda na construção da realidade no texto.

Segundo Edvaldo Lima, o “new Journalism resgataria, para essa última metade do século XX, a tradição do jornalismo literário e conduzi-lo-ia a uma cirurgia plástica renovadora sem precedentes”. No Brasil ele passaria a influenciar os veículos publicados a partir de 1966. Esse Novo Jornalista busca, principalmente, contar ao leitor tudo o que aconteceu, nos mínimos detalhes, sem obedecer a nenhuma regra que o jornalismo sempre colocou. Neste território a objetividade não reina, e a literatura empresta todos os recursos que fazem um individuo se prender a um livro, para o jornalismo. O jornalista que consegue trabalhar a convivência harmoniosa entre jornalismo e literatura, aproveitando o melhor que cada um tem a oferecer, consegue ser um profissional completo. E se a literatura é uma esperança para a comunicação, é importante que se eduque tanto o jornalista quanto o leitor. Para isso, “a literatura, especialmente, deverá ser o fermento para desobstruir a imaginação jornalística e um meio de evitar que ela se transforme em mero exercício retórico do cotidiano.” (2002, p.99).

REFERÊNCIAS AJZENBERG, Bernardo. Dois Senhores. In: CASTRO, Gustavo de; GALENO, Alex (Org.). Jornalismo e literatura: a sedução da palavra. São Paulo: Escritura Editora, 2002. LIMA, Edvaldo Pereira. Páginas ampliadas: o livro reportagem como extensão do jornalismo e da literatura. Barueri, São Paulo: Manole, 2004. WOLFE, Tom. Radical Chique e o Novo Jornalismo. São Paulo: Companhia das Letras, 2005.


Cíntia Silva

Jornalista (com diploma), bisneta de revolucionário, apaixonada por: Jornalismo, Literatura, História e Coxinha (não exatamente nessa ordem).
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