dois senhores

Jornalismo e Literatura, pois todo jornalista fere no peito o escritor

Cíntia Silva

Jornalista (com diploma), bisneta de revolucionário, apaixonada por: Jornalismo, Literatura, História e Coxinha (não exatamente nessa ordem)

A rua, a calçada e a praça: da agorafobia urbana ao espaço de integração multicultural

E quando a ditadura do medo é instaurada e as ruas esvaziam? Como fazer para tirar a sociedade dos espaços monitorados e ditos como seguros para levá-los novamente para as ruas?
Alguns "novos sujeitos", como classifica a Drª em Comunicação Célia Ramos, criam iniciativas de ocupação e revitalização para espaços abandonados, dando a eles um novo sentido e mudando seu perfil ocupacional, renovando assim cidades e seus espaços.
É sobre esse tipo de iniciativa que o texto trata, iniciativas que tem a missão de fazer a rua voltar a ser um espaço de agregação multicultural.


Virou clichê, é cena de filme, de desenho animado, de comercial... uma senhora de cabelos ralos e brancos, com aquele ser angelical e indefeso, que passa tranquilamente pela rua ao som do canto dos pássaros. O som é interrompido por um grito, uma música obscura, é um maldito trombadinha sem coração que passa correndo e rouba a bolsa da nossa protagonista.

É isso que a rua nos reserva? O medo?!

Não pode e nem deve ser assim, rua cheia é sinônimo de segurança. É simples, quanto mais ocuparmos esse espaço, mais ele será ocupado. Já diria a Drª em comunicação e semiótica, Célia Ramos: “A cidade contemporânea é o espaço da agregação multicultural”. A rua, a calçada, ou a praça, só tem sentido a partir do uso que fazemos delas, depende da população fazer desses espaços os lugares por onde circulam, além de pessoas, ideias e conhecimento.

O ponto de convergência

Os espaços públicos devem ser ponto de convergência de culturas, um espaço “contínuo e compartilhado por arquiteturas, ruas, e principalmente, multidões de pessoas que desenham no espaço urbano suas políticas e poéticas de moradia, trabalho e comunicação”. (Ramos)

Se em um primeiro momento a cultura do medo pregou que eventos nos espaços públicos, com aglomeração de pessoas, eram perigosos e, que o melhor era o lazer em espaços fechados com um público seleto de pessoas, hoje, uma rua com grande circulação de pessoas é sinônimo de segurança. As cidades abrigam uma diversidade complexa de pessoas e expressões e sua representação deve ser pensada de forma compartilhada. É nesse espaço que nascem diversas formas de expressão, e novos sujeitos, que veem a rua como uma extensão de sua casa, da mesma forma como alguns de nós víamos quando éramos crianças e usávamos esse espaço para brincar.

“Esses novos sujeitos rompem com a ordem dominante e estabelecem novos modos de habitar a cidade, de usar o corpo e de pensar o coletivo. [...] Novos sujeitos e novas mídias estabelecem outras formas de representação, de comunicação e de interação.” (Ramos).

Como é mais fácil falar sobre atitudes que vemos, vou usar alguns exemplos de ocupação e revitalização que ocorrem na cidade onde vivo atualmente, Curitiba-PR. Curitiba tem a fama de cidade fria com pessoas frias. Mas algumas iniciativas que visam juntar pessoas estão provando o contrário. O Centro Histórico de Curitiba fica no bairro São Francisco, local conhecido por abrigar o Largo da Ordem e os bares mais frequentados da cidade. Mas junto com a vida noturna intensa, vem a frequente reclamação pela falta de segurança do local.

Se o centro das cidades perdeu o prestigio nas últimas décadas, sendo classificados como locais inseguros e sujos, ultimamente há o interesse de revitalizar os locais, como afirma a mestre em Ciências Sociais Corina Moreira: “No decorrer das duas últimas décadas as áreas centrais das grandes cidades têm sido objeto de uma série de intervenções urbanísticas, geralmente pautadas em diagnósticos que indicam a perda da vitalidade e da referência – material e simbólica – que caracterizavam estas regiões no contexto urbano.” Com o centro histórico de Curitiba não é diferente. Algumas iniciativas tem dado novas funções a antigos lugares, mudando a paisagem urbana da cidade e o perfil ocupacional das áreas.

Novas funções para velhos espaços:

A São Francisco e a Praça de Bolso

Um espaço público só faz sentido a partir do uso que os cidadãos dão para ele, e alguns espaços que estavam “meio sem sentido” vão aos poucos ganhando vida nova em Curitiba. A Rua São Francisco, uma das mais antigas da cidade, passou muito tempo marginalizada, sendo tratada como área exclusiva para usuários de crack e assaltantes. A violência afastava os pedestres, que procuravam sempre um desvio para evitar a rua escura e pouco frequentada. Em 2012 a rua ganhou nova iluminação e reforma da calçada, a estética melhorou, mas mesmo assim as pessoas evitavam passar pelo local durante a noite.

E foi em 2014 que um sopro de vida mudou os ares da São Francisco. Imaginem a cena, tem o esqueleto de um prédio que nunca será terminado, ao lado, um espaço cheio de entulhos, e esse espaço fica ao lado de uma rua na qual ninguém se atreve a passar por medo. Foi alí naquele espaço sem sentido, que o pessoal da ONG Cicloiguaçu enxergou a oportunidade de erguer a Praça de Bolso do Ciclista.

Em parceria com a prefeitura, a ONG organizou mutirões durante todos os fins de semana, faça chuva faça sol, para retirar os entulhos, pintar paredes e colocar a mão na massa. Todos os interessados em ajudar estavam convocados, e assim, tijolo por tijolo, azulejo por azulejo, aquele espaço foi se transformando, ganhando um novo sentido. Segundo Lamas, “a praça é um local intencional do encontro, da permanência, dos acontecimentos e das práticas sociais, de manifestações da vida urbana e comunitária e de prestígio, e, consequentemente, de funções estruturantes e arquiteturas significativas”. A cada fim de semana a praça tinha um detalhe novo, o local feito pela população, para a população, tem a cara de todos que circulam por ali.

Praça de Bolso_Doug.jpg Mutirão para construção da Praça de Bolso do Ciclista. Foto: Doug Oliveira

Segundo Fernando Nicha, “ os usuários passam a ocupar os lugares da cidade impondo-lhe suas características culturais por meio da inserção de elementos móveis ou semifixos”, e na Praça de Bolso é possível encontrar caraterísticas de todos que a frequentam. Nas paredes pode-se ver pinturas de artistas locais e, cada bloquinho, planta, ou banco, foi colocado ali pelas pessoas que participaram da construção da praça. E no dia 22 de setembro, Dia Mundial sem Carro (nada mais oportuno), foi inaugurada e 1ª Praça de Bolso do Ciclista em Curitiba, projeto que tem planos de ser expandido para outras regiões da cidade. A praça é um dos locais mais democráticos da esfera urbana, pois segundo Tereza Caldeira, nela encontramos todo o “ideal de heterogeneidade, acessibilidade e igualdade que ajudaram a organizar tanto o espaço público moderno, quanto as modernas democracias”.

música para sair de bolha_fotorafo não identificado.jpg Música para sair da bolha: um dos vários eventos realizados na Praça de Bolso.

O case da Praça de Bolso veio como uma iniciativa para ocupar um “espaço residual” da cidade, ou seja, uma sobra de urbanização, um local que ficou vago no centro de um espaço pensado urbanisticamente. A população identificou que aquele espaço acabaria ficando vazio, era uma lacuna na paisagem, e tendo essa visão, acabou dando um novo significado para o local, transformando-o num espaço de interação entre diversos tipos de pessoa e promovendo feiras livres, shows e eventos que acabam reunindo a população.

Essa urbanização da área onde se encontra a Praça de Bolso também ajudou a revitalizar o movimento na Rua São Francisco, que apesar de estar esteticamente bonita, ainda era evitada pelos frequentadores da região. Mas hoje em dia a falta de gente na São Francisco já não é problema. O local está tão bem frequentado, que nos finais de semana grupos de amigos ocupam a rua para conversar e tomar uma cerveja, vira e mexe acontecem eventos ao ar livre, inclusive, tem bloco de carnaval animando os frequentadores da região.

São Francisco_Bloco de Carnaval.jpg Bloco de carnaval agitando a Rua São Francisco. Foto: Dayana Luiza

O movimento da rua cresceu tanto último ano, que a ideia de fechar uma quadra da rua (ao lado da Praça de Bolso) começou a ser discutida. Um abaixo assinado começou a ganhar popularidade na internet dividindo opiniões. A ideia é proibir o trânsito de carros na quadra, dessa forma as pessoas que frequentam o local não teriam mais que dividir aquele espaço com os veículos. De um lado, temos aqueles que levantam a bandeira de que se o trecho for fechado será um passo importante para mostrar que a cidade prioriza o humano, dando preferencia ao pedestre e ao ciclista naquele espaço. Além disso, poderiam ser realizados mais eventos diurnos, como feiras livres e debates. De outro lado, temos aqueles que dizem se preocupar com o acesso dos moradores aos seus lares, pois a movimentação de pessoas no local durante a noite dificulta o acesso deles. Entre idas e vindas, opiniões pró e contra, o que se celebra aqui é a possibilidade de debater a ideia, e o fato de a rua (fechada ou aberta) ser espaço de interação e trocas culturais, um local de discussão e de agregação que vai totalmente a favor do que uma rua deve ser.

O Belvedere

Construído em 1915, o Belvedere da Praça João Candido (Curitiba-PR) já foi mirante, abrigou estação de rádio, observatório astronômico, sede da União Cívica Feminino, posto da guarda municipal e Centro Estadual de Defesa dos Direitos da População em Situação de Rua. Mas em 2012 e o local passou a ser dor de cabeça. Abandonado, o Belvedere virou dormitório (e banheiro) para moradores de rua e usuários de drogas. Se as autoridades não estavam muito engajados para resolver a situação deplorável na qual a construção de encontrava, os moradores da região não deixaram por menos, tanto reclamaram que o lugar foi fechado e passou por uma intensa reforma. Ganhando uma nova pintura e vigilância no período noturno, o local permaneceu limpo por um certo tempo...

curitiba_abandono_belvedere_sao_francisco_08_dc.jpg Belvedere antes da reforma

Cintia.jpg Belvedere após a reforma. Foto: Natalie Patricio

A Praça João Cândido é evitada durante o período noturno devido a sua fama de dormitório para mendigos e local de compra e venda de drogas, e assim, mais uma vez o local foi alvo de pichação e quebra-quebra, o que nos faz pensar novamente na questão de ocupação. Uma pintura nova não fez muito por um local abandonado, quando este continuará abandonado. A ocupação do Belvedere traria um maior número de frequentadores ao local, dando uma visibilidade maior a região e evitaria que novos atos de vandalismo ocorressem no local. Isso acabaria mudando o perfil ocupacional da praça, que ganharia uma nova cara. Mas algumas pessoas não desistem do local, promovendo peças de teatro, apresentações musicais e aulas de malabarismo, todos eventos abertos ao público geral.

Moises 2.png Moises, conhecido frequentador da praça que ensina malabarismo a todos os interessados. Foto: Natalie Patricio

É triste ver que locais com tanta história acabam sendo esquecidos e sofrem com a ação de vândalos devido à falta de “vontade” do poder público em dar sentidos a esses locais, visto que vivem numa eterna discussão cujo o tema é: “De quem é a responsabilidade por esse espaço?” Além de revolucionar os espaços, é importante preservar o patrimônio arquitetônico e urbanístico das cidades, revitalizando e valorizando sua história, devido sua importância estética, simbólica e cultural.

Mobiliza Curitiba

Um projeto interessante que ganha visibilidade na questão do uso dos espaços é o Mapeando Curitiba, um projeto da ONG Mobiliza Curitiba, que tem como objetivo, atuar na revisão do Plano Diretor de Curitiba. Toda a temática consiste em:

1.Encontrar um espaço vazio, seja um espaço residual ou uma casa desocupada 2.Enviar uma foto do local dando uma sugestão do que ele poderia ser.

Assim vai sendo construído um mapa dos locais abandonados na cidade, e a ONG pode apresentar um apanhado de todos os locais onde os setores de urbanização podem atuar, ou coletivos interessados podem ocupar para revitalização e uso do espaço. O movimento vem crescendo e ganhando cada vez mais colaboradores! Todos os dias fotos de locais que poderiam ser ocupados pipocam nas redes sociais, fazendo com que os olhos da sociedade se virem para essa lacuna que deve ser preenchida.

Segundo Célia Ramos, “novos sujeitos e novas mídias estabelecem outras formas de representação, de comunicação e de integração”. O Facebook tem se mostrado uma ferramenta importante para integrar sujeitos e discutir as iniciativas de revitalização dos espaços, fazendo com que um número maior de indivíduos tenha acesso a informações sobre o que acontece, ou vai acontecer. No ciberespaço uma diversidade complexa de pessoas e expressões se encontram, e mais ou menos essa ideia que deve ser disseminada nos espaços públicos, pois segundo Ramos, “a cidade e suas formas de representação devem ser pensadas no campo de uma história de formas de informação e de comunicação compartilhada.

As cidades, como organizamos vivos, se modificam com a nossa ação, se tornam o que nós fazemos dela, e já diria Milton Santos, que: “Ao longo de seu processo, a cidade impõe solidariamente valores funcionais mercantis e simbólicos às suas diversas frações. Novos lugares são chamados de novas funções, velhos lugares se renovam inteiramente ou parcialmente, sendo arrastados ou conservando relíquias. A cada momento histórico, cada espaço da cidade evolui diferentemente.” E se está nas nossas mãos o destino de nossas cidades, nada melhor do que conhece-la, respeitá-la e fazer o melhor uso possível de todos os seus espaços.

Se interessaram pelas iniciativas? Segue um apanhado de links para que você possa ver as iniciativas com seus próprios olhos:

Mobiliza Curitiba:

Site: http://www.mobilizacuritiba.org.br/ Facebook: http://goo.gl/Ng61Cu

Praça de Bolso:

Facebook: http://goo.gl/89S69e

Rua São Francisco:

Facebook: http://goo.gl/JW5hLa

Abaixo assinado: goo.gl/5oLXyR

Para saber mais sobre o assunto acesse a parte 1 desse texto em: http://goo.gl/RkK5PN

Agradecimento especial aos administradores das páginas da Rua São Francisco e da Praça de Bolso no Facebook por terem colaborado e aos fotógrafos Natalie Patricio, Doug Oliveira e Dayana Luiza por terem cedido as imagens.

Referências

RAMOS, Célia. Poética do urbano: produção e apropriação cultural no dia a dia das cidades

MOREIRA, Corina. Revitalização urbana e patrimônio cultural em áreas populares.

RIBEIRO, Janaina. A cultura e a (des)diferenciação do espaço público.

CALDEIRA, Tereza. Cidade de muros: crime, segregação e cidadania em São Paulo.

LAMAS, J.M.R.G. Morfologia urbana e desenho das cidades.

NICHA, Fernando. Learning from a urban enclave.


Cíntia Silva

Jornalista (com diploma), bisneta de revolucionário, apaixonada por: Jornalismo, Literatura, História e Coxinha (não exatamente nessa ordem).
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