dois senhores

Jornalismo e Literatura, pois todo jornalista fere no peito o escritor

Cíntia Silva

Jornalista (com diploma), bisneta de revolucionário, apaixonada por: Jornalismo, Literatura, História e Coxinha (não exatamente nessa ordem)

Best-Sellers e Acadêmicos: uma rivalidade sem propósito

O que você condena menos?
Alguém que não lê ou alguém que lê os best-sellers?
Reza a lenda que essa sub-literatura veio com o embalo da indústria cultural apenas com o intuito de alienar ainda mais a população, que tem como anseio apenas o consumo desenfreado de um produto cultural que não tem a menor bagagem intelectual.
O presente texto busca discutir qual motivo, razão ou circunstância, fez os chamados best-sellers acabarem despertando o repúdio de uns tantos.


DA REVOLUÇÃO INDUSTRIAL AO FOLHETIM, O PAI DO BEST-SELLER

Todos já estudaram no colégio as mudanças econômicas e sociais que a revolução industrial acabou causando no nossa realidade, mas esse artigo irá focar em uma mudança muito mais cultural, que acabou resvalando também na economia. As mudanças tecnológicas no ambiente de trabalho acabaram exigindo muito mais dos trabalhadores, que até o momento, eram em sua maioria, analfabetos. Essa necessidade de especialização da mão de obra e alfabetização acabou criando um novo nicho de consumidores de literatura, que até o momento, era reservada apenas as classes mais altas do estrato social.

Segundo Lyons e Leahy (1999) esse processo de migração para as cidades na busca de um novo tipo de trabalho, mais qualificado, e a exigência de conhecimentos científicos antes ignorados, acabou ajudando na consolidação do livro como um símbolo de erudição. Em meio à revolução industrial, nasce a “classe trabalhadora letrada”, e também a necessidade de uma literatura que pudesse atender essa classe.

A partir daquele momento os textos precisariam ter uma linguagem mais cotidiana, períodos curtos, arranjos gramaticais mais simplificados e histórias que correspondessem ao estilo de vida desses novos consumidores. Nesse clima em 1836, o jornal francês La Presse, passou a publicar adaptações de romances nos rodapés literários, e a cada nova edição, mais uma parte da história era revelada. Esses textos ficaram conhecidos como folhetins, e aumentaram significativamente a venda dos jornais.

De acordo com Tinhorão, “os romances-folhetim ou folhetim, como passariam a ser chamados a partir da década de 1840, vinham representar no Brasil – repetindo o que acontecera na França- uma abertura dos jornais no sentido da conquista de novas camadas de público” (1994). No Brasil, entre 1839 e 1842 a publicação dos folhetins é quase diária, mas tinham uma diferença do modelos francês: não conseguiam atingir parcela da população devido ao alto índice de analfabetismo, mas, de qualquer forma, “foi uma tentativa de popularizar os romances e uma possibilidade de divulgação de novos autores, que ao publicarem seus romances no folhetim, propiciavam a muitas pessoas a leitura de muitas histórias”. (LANZA, 2008).

Com o passar do tempo, alguns desses folhetins foram compilados e transformados em livros e “paralelamente a essa nova demanda, os avanços tecnológicos, permitiram cada vez mais, a difusão da produção de materiais impressos pelo barateamento dos custos” (Aranha e Batista). Dessa forma, um número maior de pessoas começou a consumir livros, o que anteriormente, era considerado artigo de luxo. Esse pai do best-seller, o folhetim, acabou penetrando a marcando toda a produção literária direcionada para o consumo em massa, se revelando um dos maiores impulsionadores da indústria editorial contemporânea.

O QUE É BOM PRA VOCÊ?

O conceito de bom é muito subjetivo, o que é muito bom pra mim, pode ser um lixo pra você, e essa ideia do livro “bom” também pode ser muito individual. Os livros existentes até aquele momento, no qual surgem os folhetins, eram tidos como muito mais “eruditos”, contendo uma linguagem que apenas os iniciados poderiam entender.

Ler, e entender, um livro naquele momento tinha muito mais ligação com o contexto e o repertório intelectual que o leitor possuía, ou seja, apenas aqueles que já tinham uma bagagem cultural naquele assunto conseguiriam entender os termos usados e o contexto do que era escrito.

Os novos livros que estavam sendo impressos já não precisavam de tanto conhecimento, eram fáceis de ler, fáceis de entender e não requeria um grande conhecimento, apenas a capacidade de leitura e interpretação dos fatos. Isso acabou despertando a velha dorzinha de cotovelo nas camadas mais altas da sociedade, que pela primeira vez, viram trabalhadores braçais carregando livros consigo. Para transportar essa situação para a sociedade atual, foi (em uma escala bem menor) o que alguns detentores do I-phone, sentiram quando o instagram foi liberado para todos os modelos de celular, ou o que as madames sentiram quando viram suas diaristas chegando para trabalhar de carro e perguntando se poderiam estacionar dentro do prédio.Foi a sensação de perda de uma exclusividade.

Desqualificar o novo tipo de literatura foi o primeiro passo para tentar reaver o status. Ler deveria ser sinônimo de reflexão e introspecção, deveria ser mais do que sentar e devorar aquelas palavras sem propósito, sem um ideal. Mas sendo sincera, um trabalhador que passava até 16 horas por dia trabalhando, realmente não estava interessado em chegar em casa e refletir sobre qual o significado oculto da frase que o autor escreveu. Essa pessoa procurava abstração, esquecer um pouco da sua realidade para entrar no mundo de outra pessoa, e era isso que o folhetim dava a ele, uma experiência simples, de fácil acesso, que o proporcionava lazer, e não questionamentos filosóficos e sociais. E é a isso que os best-sellers se propõe na atualidade.

NÃO COMPARE O QUE NÃO TEM COMPARAÇÃO

Após anos de uma batalha que insiste em perdurar até os dias atuais, Umberto Eco decidiu criar dois conceitos dentro da literatura, a fim de separar e tentar acabar com as comparações daquilo que não tem comparação. Eco nomeou duas categorias, a literatura de proposta e a literatura de entretenimento.

Na literatura de proposta temos aqueles livros que eu li na faculdade, aqueles livros que me trouxerem uma reflexão e uma noção de mundo que eu não tinha antes, que me fizeram entender melhor a realidade em que eu vivo. Na literatura de entretenimento temos aqueles livros que eu li por prazer, quando o intervalo entre uma literatura de proposta e outra me deixou um pequeno lapso de tempo no qual eu consegui ler um livro apenas porque queria e não para aumentar o meu repertório em determinado assunto.

Segundo Eco, essas categorias seriam regidas por dois critérios diferenciais, a originalidade e o esforço, vamos ver como isso funciona: No quesito originalidade, a literatura de entretenimento não se preocupa em tomar caminhos muito originais em suas narrativas e enredos, as histórias e seus desfechos se aproximam a um gosto médio, assim conseguem agradar a “um ponto intermediário entre o inovador e o senso comum”. Já a literatura de proposta procura uma experiência diferenciada que traga sentimentos singulares ao leitor, dando uma expressividade maior a leitura.

No quesito esforço, a literatura de entretenimento exige um esforço menor do leitor, valendo-se de uma linguagem cotidiana, o que não significa que seja uma linguagem “desleixada ou com descaso para com o leitor”, mas que apresenta uma economia na questão de vocabulário ou recursos gramaticais que possam dificultar o entendimento das frases. Essa preocupação com a acessibilidade do texto não esta presente na literatura de proposta, que investe em textos mais difíceis de serem digeridos com o objetivo de desafiar o leitor.

Os best-sellers acabam sempre investindo naquela fórmula clássica de “tensão, clímax, desfecho e catarse” apresentando capítulos curtos com a presença de um gancho entre eles, propondo uma leitura bem linear de “começo-meio-fim”.

A LITERATURA DE MERCADO

Se a literatura de proposta esta consagrada em periódicos acadêmicos e críticas especializadas, a literatura de entretenimento cresce nas críticas estéticas e na lista dos mais vendidos, que representa, além de uma agregação de valor, “a qualidade de uma obra de massa, legitimada pela própria massa por meio do consumo”. (Aranha e Batista).

E é fato, que não podemos dissociar essas obras do fenômeno da indústria cultural, termo cunhado por Adorno e Horkheimer em 1940, que a partir do sucesso firmado da obra, na lista dos mais vendidos, já começa a expandir nas sequencias e nos produtos derivados. A lista de best-sellers que migraram para o cinema nos últimos anos não é pequena: Trilogia Crepúsculo (que virou quatro filmes), A Culpa é das Estrelas, Cidades de papel, Divergente, Harry Potter (que virou game também), GOT... entre outros.

Mas isso é ruim? É um desqualificador da obra? Levando em consideração todas as questões levantadas anteriormente, isso só consolida ainda mais a obra, que é feita para as massas, pensando em suas necessidades e seus interesses. Transformar uma obra em filme, apesar de geralmente não agradar todos os leitores do livro, acaba levando essa obra a um público muito maior. Um exemplo atual é a famigerada trilogia “50 tons de cinza” que num piscar de olhos estava em todos os lugares, mulheres de todas as idades andavam com o livro por todos os lugares, seja no ônibus ou no aeroporto. A série de livros agitou debates sobre inúmeras questões, desde uma possível revolução sexual feminina afirmando que toda mulher se interessa sim por sexo e quer ler sobre ele, até a questão da submissão feminina e da agressão sexual. E isso foi ruim? Foi prejudicial em algum caso? Acredito que qualquer iniciativa que discuta o papel feminino é válida e todo debate é bem vindo.

LER OU NÃO LER? EIS A QUESTÃO

Deixando as rivalidades de lado, já ficou claro que literatura de proposta e de entretenimento tem públicos diferentes, com necessidades diferentes e portanto são dois tipos de literatura que não deveriam ser comparados. “A literatura de massa vem democratizar essa cultura literária anteriormente restrita a certos segmentos da sociedade, adaptando-se a uma nova realidade. Para tanto, utiliza-se de aspectos estruturais e estéticos específicos.” (Aranha a Batista)

Uma coisa não podemos negar, a massa ressignificou e representação do livro durante a revolução industrial e essa herança continua pungente até hoje, gostem os acadêmicos, ou não. E agora? Quem você condena menos? Quem não lê ou quem lê best-sellers? Eu, que escrevi esse texto, que tenho um diploma me dando a qualidade de jornalista formada, que produzi um trabalho de conclusão de curso que trata do jornalismo literário, que convivi com acadêmicos que odeiam best-sellers “até o talo”, e que tenho um eterno orientador, que é escritor, e que não pode ouvir falar em “A culpa é das estrelas”, acredito sim, que ler best-sellers, é melhor que não ler. Acredito que ler sempre é edificante e que ler sempre é bom, e que se te da prazer, é melhor ainda. Sou adepta da filosofia do José Paulo Paes, um poeta, crítico literário e ensaísta brasileiro, que em seu ensaio “Por uma literatura brasileira de entretenimento (ou: O mordomo não é o único culpado”, afirma que: “nenhuma cultura realmente integrada pode se dispensar de ter, ao lado de uma vigorosa literatura de proposta, uma não menos vigorosa literatura de entretenimento”. (PAES, 2001, p.37)

ESSE TEXTO JÁ ACABOU

Mas eu não poderia deixar de dar a minha humilde indicação de best-sellers que eu terminei de ler em dois dias (mas que poderia ter terminado de ler em um se não precisasse comer ou ir ao banheiro), de tão viciantes, fáceis e gostosos de ler, que são. Portanto, fique a vontade para fechar essa página, para ir até a sua estante e pegar um bom livro para ler, seja ele de proposta ou de entretenimento.

Vamos a minha lista dos três melhores:

3º lugar – Eleanor & Park (Rainbow Rowell)

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É a história de dois adolescentes que vivem em realidades completamente diferentes, mas que tem em comum o caminho até a escola, um banco no ônibus e o interesse por músicas e quadrinhos. Eleanor, uma ruiva de cabelos rebeldes que tem um estilo de se vestir pouco convencional, vem de uma família que sofre com a falta de dinheiro, o alcoolismo e a violência. Park é asiático e vem de uma família “perfeita” com pai e mãe amorosos que podem dar a ele condições de ter uma vida feliz, mas ele não consegue ser plenamente feliz por se sentir obrigado a se encaixar em padrões com os quais, às vezes, ele não concorda. É um livro fofo e envolvente que me ensinou sobre como as diferenças podem ser fatores positivos para aproximar pessoas, e que mesmo que as coisas não forem sempre como desejamos, os meios podem justificar os fins.

2º lugar – Extraordinário (R. J. Palácio)

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O livro conta a história de Auggie, um menino que nasceu com um síndrome genética que deixou seu rosto deformado. Auggie, que foi educado em casa por vários anos, se vê indo para a escola pela primeira vez, tendo que lidar com os olhares curiosos de outras crianças, que como todos sabemos, podem ser bem cruéis. O que me chamou atenção nesse livro, foi o fato da história ser contada do ponto de vista de várias pessoas, entre eles amigos e familiares dos menino, dando assim, uma visão de como Auggie vê o mundo e como o mundo o vê. Com esse história, aprendi o básico, que não devemos julgar um livro pela capa, que devemos nos policiar para entender melhor a realidade do outro sem nos munir com os inúmeros preconceitos que querendo, ou não, mostrando, ou não, todos temos.

1º lugar – As vantagens de ser invisível (Stephen Chbosky)

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É o único na minha lista que tem um filme, por enquanto. Eu vi o filme por insistência da minha irmã, assisti e gostei. Comprei o livro de presente para ela enquanto estava na faculdade, e foi um dos primeiros best-sellers que lí assim que concluí meu curso. A leitura do livro aumentou o meu amor pelo enredo uns 100%. A obra conta a história de Charlie, que acaba de sair de uma clínica psiquiátrica após um tempo de tratamento. Charlie tem um melhor amigo que se suicidou sem deixar nenhum bilhete e uma tia com tendências suicidas que morre em um acidente de carro enquanto estava indo comprar seu presente, no dia de seu aniversário. Essas experiências acabam mudando a percepção que Charlie tem do mundo, fazendo com ele seja um menino um tanto pessimista e introvertido, mas ele vê nas cartas que escreve para alguém, uma válvula de escape para mostrar quem ele é, enquanto ele mesmo se conhece. Ao voltar para a escola, Charlie sofre bullyng e acaba se fechando mais e mais, até conhecer um grupo de amigos que desperta nele sentimentos que ele nunca mais havia sentido, entre eles, é claro, o amor. As vantagens de ser invisível me ensinou que devemos olhar melhor para as pessoas, nos doar mais ao invés de estar sempre olhando para nós mesmos e nossas necessidades, mas sem esquecer do que queremos.

Um detalhe na escrita desse livro me chamou muito a atenção, um detalhe que me fez amar mais o livro do que o filme. O livro é formado pela junção das cartas que Charlie envia, e nas primeiras cartas podemos notar uma escrita confusa, rápida, que passa uma certa insegurança naquilo que esta sendo escrito. No decorrer do livro, quando Charlie vai conhecendo pessoas e aprendendo a lidar melhor com seus sentimentos, o seu modo de escrever se torna mais claro, mais confiante, e em seus momentos de piora, quando os amigos se afastam, a escrita volta a ser confusa, sendo interferida de acordo com o modo como ele se sente. É difícil de explicar, mas ao ler, senti que a escrita estava intimamente ligada ao modo como Charlie estava encarando sua vida. PS: vale a pena ouvir a trilha sonora do filme.

REFERÊNCIAS:

ADORNO, HORKHEIMER. A indústria Cultural: o esclarecimento como mistificação das massas.

ARANHA, BATISTA. Literatura de massa e mercado.

PAES. Por uma literatura brasileira de entretenimento (ou: O mordomo não é o único culpado)

LYONS, LEAHY. A palavra impressa: história da literatura no século XIX

MEYER. Folhetim

ECO. Sobre os espelhos e outros ensaios / Apocalípticos e integrados.


Cíntia Silva

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