dois senhores

Jornalismo e Literatura, pois todo jornalista fere no peito o escritor

Cíntia Silva

Jornalista (com diploma), bisneta de revolucionário, apaixonada por: Jornalismo, Literatura, História e Coxinha (não exatamente nessa ordem)

E a cultura? A influência da educação jesuítica na cultura indígena

O plano principal dos jesuítas no Brasil foi fazer a conversão dos indígenas de pagãos para cristãos católicos, mas qual foi o resultado desse ato na educação e na cultura desse povo? E qual a herança que isso deixou para a nossa sociedade? Esse é o tema central desse artigo, que busca discutir um pouco de como foi esse processo e quais frutos ele deixou.


Se coloque por um momento nesse panorama: Você esta acostumado a viver de acordo com aquilo que natureza rege, adormece ao escurecer, desperta assim que os primeiros raios de sol tocam o chão, para colher ou caçar o seu café da manhã. Você trabalha o necessário para sua sobrevivência e dos seus filhos. Você não precisa acumular riquezas, você acredita que os deuses vão te fornecer tudo o que você precisa se você for conivente com o que eles te pedem, então você canta e dança para eles. Você aprende o que precisa saber com os mais velhos e passa isso para os seus filhos. Você tem suas próprias regras de convivência com a sua comunidade. Então um belo dia homens cobertos de panos dos pés a cabeça chegam na sua casa te dizendo que você esta fazendo tudo errado e tudo no que você acredita é falho. Como você se sentiria?

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Este artigo tem como finalidade discutir como os costumes, crenças e ideais dos jesuítas agiram sobre a sociedade e a cultura indígena no período da colonização. Para isso, será analisado o modo como se deu o processo de educação nas aldeias dirigidas pelos padres jesuítas. Primeiramente será tratada a origem da ordem jesuíta na igreja católica, o processo de colonização no Brasil e o papel do indígena nesse cenário. Um tópico importante a ser levado em consideração neste artigo é o uso da palavra educação. A educação é o processo pelo qual o conhecimento é transmitido de indivíduo para indivíduo, para que este tenha condições de se integrar melhor a sociedade. Outro tópico a ser levado em consideração é o uso do termo cultura, para isso, será usada a visão de Werneck Sodré:

Cultura – Conjunto dos valores materiais e espirituais criados pela humanidade, no curso de sua história. A cultura é um fenômeno social que representa o nível alcançado pela sociedade em determina etapa histórica: progresso, técnica, experiência de produção e de trabalho, instrução, educação, ciência, literatura, arte e instituições que lhes correspondem. (1970, p.4)

Antes de tratar da questão jesuíta e indígena é importante retratar qual o cenário da colonização brasileira. Segundo Sodré (1970, p.4-10) o processo de colonização se desenvolve a partir da ocupação de faixas de condições geográficas e ecológicas favoráveis, com intuito de se instalar a crescer rapidamente. Mas a colonização do Brasil apresenta algumas peculiaridades, a primeira delas é a “distância entre o Brasil, a metrópole, e os mercados a que sua produção se destina”. A primeira vista não existia nada no país que fosse de interesse mercantil e o pouco comércio feito era à base de troca entre portugueses e índios. O extrativismo do pau-brasil foi a primeira prática economicamente válida para os portugueses e o comércio dessa mercadoria foi um empreendimento lucrativo, que deu início a atividade econômica dos europeus no Brasil.

A primeira ordem religiosa a desembarcar em terras brasileiras foi a franciscana, muito importante em Portugal, porém, o papel mais importante foi o dos jesuítas. A ordem jesuíta surge em um momento de conflito na igreja católica, visto o avanço da religião protestante que acabou acarretando na queda da supremacia católica na Europa. Assistindo esse avanço, a igreja católica decide reagir ao crescimento do protestantismo, para isso, são criadas várias ordens religiosas. Destaca-se a Companhia de Jesus, que foi importante na reação católica. Criada pelo espanhol Ignácio Loyola em 1534 e reconhecida pelo Papa Paulo III seis anos depois. Os jesuítas seguiam uma disciplina quase militar e devido a sua sólida formação cultural e devoção, depositaram parcela de sua forças na educação. Segundo Teixeira e Cordeiro, os jesuítas acabaram “monopolizando as instituições de ensino de diversas regiões com o objetivo principal de difundir a ideologia católica romana e tornam-se o braço mais forte da Igreja no movimento de expansão marítima das nações modernas”. (2008, p.2)

Os jesuítas começam seu trabalho na Europa, mas ao chegar no Brasil encontram uma realidade bem diferente. O processo educacional jesuíta precisou passar por algumas alterações para lidar com as peculiaridades do novo local:

Uma dessas foi o aprendizado de ofícios manuais por parte de seus membros, ocupação à qual não se dedicavam. Depois, merece destaque a criação de um aparato financeiro que, embora contrário às normas gerais da Companhia, fez-se necessário para o prosseguimento dos trabalhos dos padres. (Teixeira e Cordeiro, 2008, p.3).

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O plano principal dos jesuítas no Brasil foi fazer a conversão dos indígenas de pagãos para cristãos católicos. Vindos com Men de Sá, um fidalgo e administrador colonial, os jesuítas desembarcaram no Brasil em 1549. Esse grupo era composto por seis missionários da Companhia de Jesus, entre eles estava Manuel de Nóbrega , responsável pela criação da primeira escola jesuíta, uma das bases da missão. Segundo Priore e Venâncio (2010, p. 29) “um ano mais tarde, chegaram mais padres acompanhados de ‘órfãos de Lisboa, moços perdidos, ladrões e maus’, que teriam papel relevante, embora anônimo, nos projetos da Companhia”. Os órfãos de Lisboa foram incumbidos de aprender a língua tupi-guarani, para ajudar na conversão dos índios. Os padres jesuítas escreviam cartas a seus superiores na Europa para relatar como transcorriam as missões. Nessas cartas, podemos ver como a influência da presença dos jesuítas mudou a rotina da sociedade indígena: ‘Se ouvem tanger missa’, conta um inaciano, ‘já acodem e tudo que nos veem fazer, tudo fazem. Assentam-se de joelhos, batem nos peitos, levantam as mãos para o céu’. A clientela era feita de filhos de índios e mestiços, acrescida, de tempos em tempos, de um principal, ou seja, um chefe. (PRIORE; VENÂNCIO, 2010, p. 30).

Entre as práticas inseridas no cotidiano indígena pode-se destacar aulas de canto e flauta, além de gramática, para que aprendessem a ler e escrever. No quesito atividades religiosas, os indígenas participavam de missas na sexta feira, onde “disciplinavam-se, em cerimônias de autoflagelação e, com o corpo coberto de sangue, saíam em procissão.” (PRIORE; VENÂNCIO, 2010, p. 30). As meninas eram responsáveis por tecer e fiar algodão para vestir os membros da tribo.

A noite era o período onde os índios tinham o tempo livre para relembrar sua cultura. Era o momento de canto e dança típicas, com instrumentos criados pelos próprios índios. O canto e a dança eram valorizados na cultura indígena, tanto que em uma de suas cartas, Nóbrega relatou que a sensibilidade musical dos índios fazia os jesuítas crerem que tocando e cantando entre eles, conseguiriam se aproximar e que “se cá viesse um gaiteiro, não haveria cacique que recusasse seus filhos à escola jesuítica ”

Mas nem tudo eram flores no território das missões. O trabalho dos jesuítas acabou incomodando os agricultores e os bandeirantes, que queriam o direito de escravizar índios , prática que o jesuítas condenavam. Os bandeirantes reivindicavam o direito de escravizar os índios, pois obtinham grandes lucros com a escravização dos negros e alegavam que a proteção aos índios era uma ruína para a colônia. Até 1580 os jesuítas conseguiram manter-se como a ordem oficial da coroa, mas aos poucos a inserção de outras ordens em território brasileiro foi acontecendo. Um exemplo é a dos franciscanos no Rio Grande do Norte, esses, acompanhavam os bandeirantes e, ao contrário dos jesuítas, estava mais ao lado deles do que dos índios.

O conflito entre jesuítas e bandeirantes é retratado no filme A Missão , a trama ocorre no período que se inicia em 1750 quando a coroa de Portugal envia um representante da igreja católica para decidir se o território das missões passaria a ser regido pelas leis espanholas , que permitiam a escravização dos índios.

A decisão do representante foi favorável aos bandeirantes, pois o território passou a ser regido pela Espanha. Com essa decisão as missões findaram, e a ordem jesuíta foi retirada do país. No filme, o representante coroa faz uma declaração pertinente a este trabalho quando afirma que seria melhor que o território não houvesse sido descoberto. Ele faz esse comentário após presenciar o resultado de sua decisão, o derramamento do sangue indígena que se recusava a ceder.

O processo de colonização interferiu nos costumes indígenas a partir do momento em que os primeiros ‘homens brancos’ pisaram em território brasileiro. Não se pode generalizar a cultura indígena e sua sociedade visto que cada tribo tinha suas especificações, seu modo de vida, seus costumes e crenças. Mas a partir do momento em que os portugueses se inserem neste contexto á uma ideia de padronização dos costumes e o modelo base não era indígena, e sim o europeu. A cultura indígena passa a ser dizimada junto com seu povo, e a tentativa de cristianização foi uma forma de aculturação indígena, como afirma Chamorro sobre o caso dos índios guaranis:

Nos discursos indígenas apareceram pessoas e comunidades perturbadas em consequência de um cristianismo que se apresentava como uma religião cuja aceitação implicava um completo deslocamento e desestruturação ritual, cúltica e simbólica, (...) A partir da pregação cristã, os indígenas intuíram que o novo modo de ser correspondia a uma religião que lhes desautorizava a experiência religiosa de seus antepassados. As novas referências religiosas que lhes eram impostas não tinham vínculo algum com seus esquemas autóctones. A nova religião advogava para si mesmo o poder exclusivo de distinguir a falsa e a verdadeira manifestação do sagrado. (1998, p.86)

Os resultados do colonização e da reeducação nas tribos indígenas não os transformou os índios em cristãos propriamente ditos, mas em escravos. As almas conquistadas pela educação jesuíta foram perdidas para os bandeirantes, para o trabalho compulsório, para as doenças e a falta de esperança de um povo que de uma hora para a outra viu seus semelhantes serem reduzidos, suas terras serem ocupadas e seus costumes desrespeitados.

As missões foram um fator importante na proteção da integridade física dos índios, que apesar de terem sua cultura subjugada, encontraram nos jesuítas um ponto onde se apoiar por um certo tempo. Apesar de transformar a sociedade indígena, os jesuítas permitiam que algumas práticas culturais desse povo continuassem fazendo parte de sua rotina, como o canto e a dança, e ainda incentivaram que os índios investissem nessa área, ministrando aulas de canto e ensinando-lhes novos instrumentos.

Não se pode dizer que as missões foram ruins para indígenas e nem afirmar que foram boas, a única certeza é que elas alteraram o modo de vida e o olhar que o índio tinha sobre a realidade que o cercava. Todo o processo de colonização do território brasileiro acabou traçando um caminho onde ao final, os índios, verdadeiros donos de toda a terra, sairiam dizimados e sem suas raízes culturais, com curumins que já não saberiam mais quem eram os deuses para quais os seus avós apelavam e quais leis seguiam, com filhos que nem bem saberiam qual o idioma de seus pais.

Hoje o processo inverso acontece no âmbito cultural, os costumes indígenas e sua língua são objetos de estudo e passam por um resgate, mas a quem pertence suas terras ainda é motivo de discussão entre indígenas, agricultores e governo. Talvez os índios consigam alcançar o patamar de igualdade algum dia, mas o de justiça, não parece estar tão perto.

REFERÊNCIAS

CHAMORRO, Graciela. A espiritualidade Guarani: uma teologia ameríndia da palavra. São Paulo: Sinodal, 1998.

PRIORE, Mary del; VENÂNCIO, Renato. Uma breve história do Brasil. São Paulo: Editora Planeta do Brasil, 2010.

SODRÉ, Nelson Werneck. Síntese de História da Cultura Brasileira. Civilização Brasileira, Rio de Janeiro, 1970.

TEIXEIRA, Olga Suely; CORDEIRO, Rubério de Queiroz. Educação jesuítica: objetivo, metodologia e conteúdo nos aldeamentos indígenas do Brasil Colônia. Disponível em: http://cerescaico.ufrn.br/mneme/anais/st_trab_pdf/pdf_st1/olga_teixeira_st1.pdf. Acesso em: 22/03/20014


Cíntia Silva

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