dois senhores

Jornalismo e Literatura, pois todo jornalista fere no peito o escritor

Cíntia Silva

Jornalista (com diploma), bisneta de revolucionário, apaixonada por: Jornalismo, Literatura, História e Coxinha (não exatamente nessa ordem)

A ocasião faz o vilão (Ou o que aprendi com Laranja Mecânica)

Das pequenas bondades até as grandes maldades, atire a primeira pedra quem nunca foi o vilão da história!
Este texto se resume a minha experiência enquanto li Laranja Mecânica, e o modo como a obra me fez questionar como o conceito de bondade, que nos é imposto desde sempre é subjetivo, e como as pessoas boas de hoje podem ser a vilãs de amanhã.


O bem sempre vence! As pessoas boas são recompensadas no final, e se você for bom você vai ser uma pessoa feliz, coisas boas vão acontecer com você. Isso quem me ensinou foram todos os filmes da Disney, que me acompanharam desde a mais tenra infância. Foi assim que eu cresci, sabendo que por mais que os bons sofram por 85 minutos, naqueles últimos 5 minutos do filme o vilão vai se dar mal e o bonzinho vai ser feliz pra sempre.

Foi assim que eu cresci, até ver que não é bem assim.

O tempo me ensinou que não tem muito essa coisa de bonzinho e malvadinho, mas sim ocasiões propícias para cada um desses personagens aparecerem, e Anthony Burgess me mostrou isso de forma literária no livro Laranja Mecânica. A mais famosa trama de Burgess foi publicada em 1962, na Inglaterra, e com pouco mais de meio século de idade continua sendo muito atual.

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O CONTEXTO

A obra se passa em uma cidade distópica, com traços futuristas e ao mesmo tempo atemporal (um tanto estranha). Essa sensação de estranheza é reforçada pela forma de escrita do autor. Burgess mescla a língua inglesa com o Nadsat, dialeto falado pelos jovens integrantes das gangues que tomam conta das ruas da cidade. Originalmente os leitores de Laranja Mecânica tiveram que contar com seu poder de entender o contexto das frases e das situações para entender o que os personagens diziam, já que o livro não continha uma tradução do dialeto. As próximas edições acompanhariam um dicionário Nadsat, para que os leitores pudessem escolher se preferiam ler a obra da forma como foi pensada por Burgess ou se preferiam entender de cara o que os personagens diziam dando uma eventual olhadinha em seu dicionário Nadsat, (eu confesso que em algumas situações tive que colar).

Na sociedade representada por Laranja Mecânica, a violência se espalha muito rapidamente, o governo é autoritário e os pessoas não saem mais de suas casas, preferem assistir TV, o que deixa as ruas livres, para que as gangues adolescentes pratiquem a ultraviolência, caracterizada por estupros, brigas, assaltos... São nessas ruas que podemos encontrar o personagem principal do enredo.

CONHECENDO ALEX

Em seu livro, Burgess nos apresenta Alex, um jovem de 15 anos que junto com seus druguis (ou amigos se preferir), George, Peter e Tosko, sai pelas noites da cidade praticando a ultraviolência, tudo de forma muito horrorshow. Após praticarem a ultraviolência, Alex e seus amigos costumam se juntar no Lactobar Korova, cenário onde observamos mais uma peculiaridade da sociedade em que a história se passa. No bar que os jovens frequentam é normal misturar o velocet, sintemesc ou o dencrom (drogas) com o moloko, um tipo de bebida muito consumida pelos personagens.

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Alex mora com sua família em um tipo de condomínio onde o vandalismo é comum, o que faz o menino subir 17 andares de escada para chegar em seu apartamento já que os elevadores foram destruídos. Os pais de Alex não dão muita atenção a ele, que dorme tarde todas as noites, falta à aula usando a desculpa de que esta com dor de cabeça e ainda mente aos pais dizendo que sai de casa todas as noites para trabalhar. A rotina do personagem se resume a comer, dormir, sair para comprar discos de música clássica, (estilo musical pelo qual ele é apaixonado e respeita muito) e encontrar os amigos a noite, para que juntos, coloquem suas mascaras e assaltem qualquer lugar que pareça divertido assaltar.

É em uma dessas noites comuns que Alex é traído pelos seus druguis, em uma disputa sobre quem merece ser o líder da gangue, Alex acaba sendo derrotado e deixado desacordado próximo a cena de um crime, pelo qual acaba sendo preso. Na delegacia ele apanha e é acusado de assassinato, pois a vitima do assalto daquela noite acaba morrendo no hospital.

Alex é condenado a 14 anos de prisão, e é nesse local que ele começa a ler a Biblía, que ele chama de “grande livro preto”. Lendo o livro, o menino se imagina na pele dos hebreus que praticam o horrorshow, bebem vinho e vão dormir com suas mulheres, ou interpretando o papel do homem que coloca a coroa de espinhos em Cristo. Alex acaba se aproximando do clérigo na penitenciária como uma forma de obter proteção e algumas vantagens, já o padre que o supervisiona acaba usando-o como fonte de informações, perguntando a ele que tipo de planos os presidiários tramam para poder contar ao diretor da prisão.

Após dois anos na prisão Alex fica sabendo de um estudo experimental que promete tirar a maldade dos presidiários, fazendo com que eles saíssem da cadeia rápido e nunca mais voltassem para lá. O jovem é alertado sobre alguns dos riscos, mas desesperado por ter sua liberdade de volta, decide passar pelo tratamento, que consistia em relacionar “violência x dor”. A partir daí ele é obrigado a passar horas vendo vídeos de atrocidades ao som de música clássica, fato que no futuro o fez abandonar o gosto por música clássica.

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PARECE QUE O JOGO VIROU, NÃO É MESMO?

Foi nesse ponto de Laranja Mecânica que parei para pensar na questão da subjetividade que é “ser bom”. Durante o tratamento que devolveria a bondade a Alex, o Estado, que na teoria deveria agir como um protetor de seus direitos e de sua integridade física e moral, acaba o agredindo e o utilizando como exemplo de sua soberania e poder.

Quinze dias após o início do processo de transformação de Alex em um bom menino, ele é libertado da prisão, mas não antes de passar por uma apresentação pública, onde é colocado em um palco e provocado de todas as formas possíveis. Nosso caro amigo Alex é instigado a cometer as mesmas atrocidades que já havia cometido antes de entrar na prisão, como espancar e estuprar, mas ele simplesmente não consegue, pois a cada fagulha de maldade que crescia dentro dele, uma dor terrível se iniciava e o fazia parar, já que ele acabava por associar violência a dor física que ele sofrera durante o tratamento.

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E é assim que Alex é devolvido a sociedade, totalmente sem condições de se defender. Isso se comprova no decorrer do enredo, quando Alex acaba encontrando com todas as pessoas ás quais ele já havia feito mal. Alex sofre nas mãos de membros de outras gangues que agora haviam virado policiais, ou milikinhas como diriam em Nadsat e, para fugir das agressões, ele se refugia na casa de um homem sem se dar conta de que já havia estuprado a esposa dele. A cada novo encontro de Alex com o seu passado, podemos ver que todos aqueles que em um primeiro momento foram vítimas, não pensam suas vezes antes de se tornarem os algozes.

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Em Laranja Mecânica, e na vida, não existe um mocinho e não existe um vilão pois todos, praticam a ultraviolencia quando se encontram com a possibilidade de praticá-la. Burgess escreveu na década de 60 um retrato de uma sociedade sem bem e nem mal, pois como Alex afirma ao ser torturado por policiais “se isso é ser bom, eu prefiro ser mau”. Sobre como Alex lida com toda a ultraviolência utilizada contra ele? Não vou dar mais spoilers do que já dei, mas uma coisa posso adiantar, o livro teve sua adaptação para o cinema dirigida por Kubrick, e o diretor pode ter uma visão bem mais fatalista do que encontrei nas páginas do livro de Burguess, mas vale a pena tanto ver o filme quanto ler o livro. Ambos nos mostram como a vida pode dar voltas e como a ocasião pode fazer o vilão.


Cíntia Silva

Jornalista (com diploma), bisneta de revolucionário, apaixonada por: Jornalismo, Literatura, História e Coxinha (não exatamente nessa ordem).
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