dois senhores

Jornalismo e Literatura, pois todo jornalista fere no peito o escritor

Cíntia Silva

Jornalista (com diploma), bisneta de revolucionário, apaixonada por: Jornalismo, Literatura, História e Coxinha (não exatamente nessa ordem)

Dos deliciosos amores que não vivi

De quando você vê aquele cara passando de bicicleta ao lado do ônibus pela manhã e ele faz o seu dia ficar mais bonito, já que você vai passar as próximas 24 horas perdidamente apaixonada por ele.


Lá estava eu, com um desejo enorme de comer massa, mas sem tomates em casa. Apesar da chuva que se aproximava, peguei minha sacola sustentável, coloquei a sombrinha dentro e fui.

O mercado fica a 3 quadras de distância de casa, e na quadra do meio tenho que parar e esperar para atravessar, do meu lado, para um carro com o mesmo objetivo. Ouço vozes masculinas que falavam alto e se xingavam entre si, olho para o lado antes de atravessar, e lá esta ele, com enormes olhos azuis, e barba, como eu amo barbas. Entre todos os caras ele era o único em silêncio, nos olhamos, eu atravessei.

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Chegando no mercado, encontro novamente aqueles olhos, ele era alto e usava uma camiseta do Palmeiras, provavelmente não é de Curitiba, assim como eu. Estávamos indo ao encontro um do outros, nos olhamos novamente, eu entro por uma porta e ele pela outra.

No mercado vou direto ao meu objetivo: tomates. Entre os corredores nos olhamos novamente, ele não tinha nada das mãos. Pego meus tomates e aproveito para pegar algumas frutas. No caminho do caixa ele esboça um leve sorriso. Eu correspondo. Pago a minha conta.

Nunca mais o verei, eu acho. Mas vou pra casa pensando em como teria sido.

Antes dele, foi o cara do ônibus. Eu pegava sempre o mesmo ônibus no mesmo horário, e quando se segue essa rotina, acaba-se percebendo quem são as pessoas que também, tem os mesmos horários que você. Entre tantos desconhecidos, um rosto ou outro vão se tornando familiares.

Um desses rostos era o dele, olhos muito pretos, também tinha barba, geralmente quando eu entrava no ônibus ele estava lá, quase sempre nos mesmos bancos, com algumas variações, ele sempre sentava perto da janela. Ele era uma dessas pessoas que conseguia dormir no ônibus e acordar perto de onde tinha que descer.

Eu já tinha decorado o local onde ele descia, e ficava esperando a hora na qual ele abria os olhos, olhava para a janela, identificava onde estava e levantava para descer. Foi em um desses dias em que ele sentou em um daqueles bancos nos quais você fica de frente com alguém, e eu sentei de frente pra ele.

Enquanto ele dormia, eu percebi que ele tinha pequenas sardas nas bochechas e cílios bem longos. Estava chegando no momento em que ele geralmente acordava, mas por algum motivo, ele não estava acordando. O ônibus parou, mas ele não abriu os olhos, então eu dei um chute de leve no tênis dele. Ele acordou meio assustado, olhou pra mim, olhou pro lado, e saiu com pressa. Tinha sido e primeira vez que ele olhava pra mim.

Nos dias que se seguiram, não tive oportunidade de sentar perto dele novamente, mas todos os dias ele acordava, olhava para o lado, levantava um pouco a cabeça e me procurava. Olhava pra mim, sorria e ia embora.

Talvez ele tenha percebido o meu chute, talvez tenha ficado pensando como eu sabia que ele descia alí, e se perguntado porque eu fiz aquilo (...) Mas dias depois eu descobri que se eu pegasse um ônibus amarelo, chegaria mais rápido no trabalho e ganharia mais 10 minutos de sono todas as manhãs. Então eu o troquei pela minha cama, e nunca mais o vi.

O último, mas não menos importante, foi na faculdade. Era um cara alto com cara de sério que eu via quando tinha aula no 7º andar. Foi amor a primeira vista, ele tinha barba, e olhos que eu não lembro direito a cor, pois morria de vergonha de olhar diretamente pra ele.

Com o tempo, e algumas perguntas para professores mais chegados, descobri que ele dava aula na faculdade, descobri seu nome, descobri que ele me daria aula no último semestre, e torci para que ele continuasse dando aulas.

Quando o último semestre chegou, lá estava ele, sério, mas com um dos sorrisos mais bonitos que eu já vi. Com o tempo fui vendo que além de lindo ele era inteligente, e em 6 meses, só faltei em uma aula dele. No fim, as aulas acabaram.

De vez em quando eu paro e penso como teria sido se eu tivesse falado Oi, perguntado o nome, ou demostrado algum interesse antes que eles desaparecessem. E no momento seguinte eu me dou conta que a parte mais bonita desses amores foi o fato de eu não tê-los vivido. Então eles ficam lá, imaculados no meu coração, como uma idealização perfeita de uma tarde juntos tomando uma cerveja no bar da esquina, um café da manhã, ou uma ida ao cinema. Eles nunca vão me machucar, ou me decepcionar, eles só vão estar lá, com seus olhos e suas barbas e suas sardas nas bochechas.

E nada contra os meus amores realizados, mas as pequenas paixões que passam de bicicleta pela janela do ônibus, ou entram no restaurante no qual eu almoço, são fundamentais.


Cíntia Silva

Jornalista (com diploma), bisneta de revolucionário, apaixonada por: Jornalismo, Literatura, História e Coxinha (não exatamente nessa ordem).
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