dois senhores

Jornalismo e Literatura, pois todo jornalista fere no peito o escritor

Cíntia Silva

Jornalista (com diploma), bisneta de revolucionário, apaixonada por: Jornalismo, Literatura, História e Coxinha (não exatamente nessa ordem)

COUTINHO MASTER E SEUS ANÔNIMOS

Nesse mês a morte de Eduardo Coutinho faz 2 anos, esse excepcional cineasta brasileiro que teve o dom de mostrar para o mundo como as pessoas são por dentro. Poucos são aqueles que tem o dom de encontrar em qualquer um, uma história que vale a pena ser contada, mas Coutinho teve isso nato.


Rio de Janeiro, Copacabana, Edifico Master. Esse foi o local escolhido por Eduardo Coutinho para filmar um documentário que tem como objetivo humanizar. Sim, humanizar! Mostrar que ao lado não mora apenas o “vizinho”, mas uma pessoa. Uma pessoa com sonhos, sentimentos, medos e objetivos, não apenas aquela figura esquisita que faz barulho em horários estranhos e que muitas vezes você nem conhece.

O Edifico Master é usado para representar muitos conglomerados de apartamentos espalhados pelo mundo. Prédios grandes, com muitos apartamentos pequenos por andar e muitas pessoas que nunca se cruzam, e se cruzam, não se veem, não se ouvem. Essa é uma das características das obras de Eduardo Coutinho (diretor do documentário), o ato de explorar a história de anônimos, pois como ele mesmo já afirmou, grandes personalidades tem muito a perder, os anônimos não, eles são sinceros.

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O documentário, lançado em 2002, narra a história de diferentes personagens: desde a menina de 13 anos engravidou e não teve apoio da família, motivo pelo qual acabou se tornando prostituta. Passando pela senhorinha viúva que viu todas suas economias serem levadas em um assalto e pensou em pular da janela de seu apartamento - ato do qual desistiu ao lembrar das dívidas que ainda tinha que pagar. Até a antropofóbica que montou um universo paralelo em seu apartamento onde pinta e escreve poemas com a ânsia de exteriorizar tudo aquilo que seu interior esconde. São diferentes perfis, de pessoas com diferentes idades e costumes. Todas unidas pelo fato de habitarem o mesmo espaço.

O cineasta já tem um histórico com enredos que carregam essa mesma fórmula, a manipulação, no bom sentido, de causos da vida de pessoas desconhecidas. São exemplos documentários como Jogo de Cena (2007), onde atrizes interpretam mulheres contando sua história de vida. História reais, de mulheres reais, que vão aparecendo no decorrer da trama e ocupando o lugar das atrizes que as interpretavam. O documentário foi gravado em apenas um plano, dentro de um teatro. Boca do Lixo (1993), também se encaixa nessa temática, onde Coutinho mostra a vida da população pobre do Rio de Janeiro, que vive catando e vendendo lixo, mas que apesar de tudo não perdem a esperança.

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Em Edifico Master, Coutinho usa dessa fórmula com a qual ele já está bem habituado e constrói uma narrativa que prende o espectador pela curiosidade, pela espera da próxima história. É como se você lesse um daqueles livros de crônicas do Bukowsky e, sentisse a ansiedade por não saber se vai conseguir saborear o pequeno texto que está lendo com toda intensidade, pelo fato de não saber se a próxima história será muito melhor que aquela. A ansiedade de saber se algo melhor te espera. Às vezes a próxima história é melhor, às vezes não. E esse é a magia do enredo, não só do Bukowsky, mas do Coutinho, a espera pelo próximo, e as vezes a decepção pela próxima história não ser tão boa quanto a anterior. É assim que o documentário caminha, com uma sequencia de pequenas entrevistas, dadas por pessoas que você pode até ter encontrado na rua, mas para a qual não a mínima. Coutinho tira dessas pessoas o melhor e o pior que elas têm para revelar. É como se o diretor soubesse o ponto certo no qual tocar para que o seu personagem se abra e revele em frente a uma câmera algo que ele não revelaria a qualquer um. E essa é a parte triste.

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Já fazem dois anos que perdemos essa pessoa, com esse dom, de abrir as portas dos corações e mentes de seus entrevistados, seus personagens. Eduardo Coutinho foi assassinado, junto com sua esposa, pelo próprio filho, Daniel Coutinho. O cineasta estava com 80 anos. Triste, mas intrigante. Uma pessoa com tanto talento, com tantas qualidades, com esse dom de transmitir histórias, morre de forma inusitada, inesperada. É quase como se fosse o ato final daquele espetáculo teatral que pega a todos de surpresa. Assim Coutinho se vai, e entre documentários e filmes de ficção, deixa como legado obras que gravaram eternamente o seu nome na história do cinema brasileiro.


Cíntia Silva

Jornalista (com diploma), bisneta de revolucionário, apaixonada por: Jornalismo, Literatura, História e Coxinha (não exatamente nessa ordem).
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