dois senhores

Jornalismo e Literatura, pois todo jornalista fere no peito o escritor

Cíntia Silva

Jornalista (com diploma), bisneta de revolucionário, apaixonada por: Jornalismo, Literatura, História e Coxinha (não exatamente nessa ordem)

A história da eterna espera

Dias, meses, anos se passavam dentro das celas escuras, o tempo se arrastava. Algumas mulheres puderam sentir o sol na pele novamente, puderam contar as historias, tiveram a oportunidade de conscientizar a sociedade sobre o que realmente aconteceu dentro das casas em bairros tranquilos, que aparentemente só eram mais uma casa de família, mas que abrigavam as presas e seus torturadores.
Em tempos no qual deputado faz homenagem para torturador dentro do congresso, nada mais digno do que homenagear aquelas que perderam seus nomes e identidades, aquelas que se tornaram apenas saudades no seio de uma família que nunca mais viu a menina que saiu de casa e não voltou.


Não dava pra saber se era dia ou noite, não dava pra saber se era pesadelo ou realidade, não dava para acreditar que aquilo fosse verdade. Nuas de salto alto, enfileiradas em uma parede, sobre os olhares atentos de vários homens, com vários semblantes. Mutiladas, estupradas, humilhadas, humilhadas e humilhadas. Após sessões de tortura que pareciam durar uma vida, eram colocadas diante de seus filhos, seus pais, seus irmãos, que mesmo em liberdade, eram torturados pela visão de suas mães, filhas, esposas, MULHERES, que apesar de tudo, sobreviviam por mais um dia, sem saber do amanhã.

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Este artigo é baseado na visão de centenas de mulheres que por algum tempo se viram presas em um universo paralelo, mulheres que tiveram a sua realidade, a sua vida roubada, pelo simples fato de não concordarem, de não baixarem a cabeça, de lutarem.

Em 2014 um senhor asqueroso e prepotente que anda de uniforme militar para cima e para baixo faz 50 anos. O golpe militar de 1964 faz aniversário, e o período mais sombrio da história brasileira volta aos lábios da sociedade, volta às rodas de discussão. Para resumir, essa história trata de um suposto presidente comunista que queria um suposto Brasil comunista, mas supostos militares gente boa não queriam que essa desgraça de comunismo estragasse com o belo país, então tomaram o poder para já já (supostamente) devolverem a democracia a sua pátria amada.

Todos sabemos o resultado desta operação, ela consiste em 21 anos de ditadura militar. Período no qual pessoas foram assassinadas, torturadas e até suicidadas. É difícil encontrar os números exatos da ditadura. Há quem diga que é uma “ditabranda” com apenas centenas de mortos, outros afirmam que são milhares. Centenas ou milhares, talvez os militares que queimaram vários registros desse período saibam, mas não vão contar.

A certeza, é que muitos sofreram, muitos viram aos que amavam saindo de casa para não voltar, e esperaram, esperaram com as roupas no armário, com o quarto arrumado, com o prato na mesa. Mães, filhas, amigas, esposas, saíram de casa para mais uma vez lutar contra uma realidade que não aceitavam e um futuro que não queriam.

Enquanto o país vivia o “milagre econômico”, uma delas era levada para um porão sujo para ser interrogada, para se sentar na “cadeira do dragão”, uma cadeira revestida de zinco e ligada a terminais elétricos onde as torturadas eram sentadas nuas. Quando o aparelho era ligado o zinco transmitia o choque a todo corpo. Enquanto o país gritava GOOOOOOOL!, o grito de uma mulher que era estuprada ficava abafado. Muitas das vitimas do regime afirmam que se pudessem haveriam cometido suicídio, era melhor do que ter que responder ao filho o motivo de estar machucada, era mais fácil do que expor essa realidade á criança.

As presas tinham direito a receber visita duas vezes por semana. Geralmente aqueles que iam aos aposentos da ditadura ver suas queridas acabavam sendo seguidos, motivo pelo qual muitas acabavam dispensando a oportunidade ver a família, os amigos, pelo medo de ver aos que amavam sofrendo o mesmo que elas sofriam todos os dias.

Agressores não escolhiam raça, credo, ou classe. De acordo com dados da comissão da verdade até mesmo freiras haviam sofrido violência sexual durante o período em que ficaram confinadas. Mulheres grávidas também não eram poupadas, e algumas, saíram do cativeiro sem sua criança nos braços.

Dias, meses, anos se passavam dentro das celas escuras, o tempo se arrastava. Algumas mulheres puderam sentir o sol na pele novamente, puderam contar as historias, tiveram a oportunidade de conscientizar a sociedade sobre o que realmente aconteceu dentro das casas em bairros tranquilos, que aparentemente só eram mais uma casa de família, mas que abrigavam as presas e seus torturadores. Algumas acabaram sendo vencidas pelas péssimas condições, pela alimentação precária, pelos ferimentos mal cicatrizados e pela tristeza. Acabaram enterradas como indigentes, acabaram no fundo dos rios com seus dedos, dentes e entranhas retiradas para que não boiassem nas águas, para caso fossem encontradas, não serem reconhecidas.

O que ficou, foi uma sociedade órfã da coragem, órfã das mulheres, das mães e das amigas. Uma sociedade que elegeu uma mulher que viveu a realidade da tortura militar, uma sociedade que aos poucos tenta relembrar as memórias das tantas amadas mulheres que um dia foram retiradas de suas casas para se tornarem a eterna espera de alguém que as quis de volta.


Cíntia Silva

Jornalista (com diploma), bisneta de revolucionário, apaixonada por: Jornalismo, Literatura, História e Coxinha (não exatamente nessa ordem).
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