dois senhores

Jornalismo e Literatura, pois todo jornalista fere no peito o escritor

Cíntia Silva

Jornalista (com diploma), bisneta de revolucionário, apaixonada por: Jornalismo, Literatura, História e Coxinha (não exatamente nessa ordem)

QUEM SE BENEFICIA COM O MACHISMO?

Seja homem, não chore, não seja bicha, se apanhar bata de volta, não reclame, não seja mulherzinha.
Sobre como estamos ensinando nossos meninos a odiarem tudo que é feminino e amar um ser inexistente.


Não chore, levante e revide. Não fique reclamando pelos cantos, isso é coisa de mulherzinha, resolva seus problemas. Não fique demonstrando quando as coisas te chateiam, isso só vai fazer as pessoas acharem seu ponto fraco, parece uma bicha. Quantas você comeu ontem? Vai trocar de carro ou vai continuar andando nessa carroça? Como assim ir mais cedo pra casa pra cuidar do seu filho? Sua esposa não esta em casa pra isso?

Esses são só alguns conselhos e questionamentos que meninos e mais tarde homens escutam desde sempre. Desde a primeira violência sofrida na escola até a ida no bar com os amigos depois do trabalho.

O documentário “The mask you live in” mostra bem esse processo. O longa lançado em janeiro de 2015 chegou ao Netflix e é uma ótima pedida para quem deseja entender melhor coisas como bullyng nas escolas, hipermasculinização, homofobia, violência familiar e até cultura do estupro.

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Seja HOMEM

“Você usa a máscara e seu rosto se molda a ela” George Orwell

Esse é o ponto de partida do documentário. Desde o nascimento os meninos são moldados para ser algo, ao redor dele são criadas milhares de expectativas , ele será um provedor, ele cuidará dos outros, ele protegerá sua família, nele estão depositados todos os sonhos não realizados pelo pai. Ele vai ser um herói. E enquanto ele cresce, ele vai percebendo isso, e em algum momento ele irá colocar essa mascara, moldada com tudo que esperam dele e tudo que ele deve aparentar ser, mesmo que ele não consiga ou não queira ser.

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O menino vai brincar de lutinha com o pai, os amigos e constantemente será orientado a não chorar, a não se emocionar, afinal de contas, ele tem de ser homem, e terá de dominar o mundo. Não se domina o mundo com lágrimas, e sim sendo forte, sendo homem. Apenas meninas choram e ele não quer ser comparado a uma menina. Ser o filhinho da mamãe é uma vergonha, é depreciativo, ele deverá ser o filhão do papai. Esse menino vai crescer acreditando que a qualquer momento sua masculinidade será tirada dele, ao primeiro sinal de tristeza, fraqueza ou cansaço, quando ele se descuidar, alguém vai descobrir que ele “não é aquilo tudo”.

Entre os entrevistados temos o sociólogo e educador Michel Kimmel, e em sua fala, ele afirma que um homem começa a sofrer a pressão para ser o mais masculino possível já no jardim de infância e vai levar essa carga por toda a sua vida. Meninos são criados para terem de afirmar sua sexualidade o tempo todo, mesmo que para isso, ela tenha de cometer atos violentos. E todos nós somos culpados por isso. Aposto que todos tem na família aquele tio ou tia que vê as crianças brincando juntas e se apressa em falar “olha que bonitinho, o fulaninho já tem namoradinha, ele não perde tempo”, “esse vai fazer um sucesso na escolinha com as menininhas”.

Em um dos momentos do documentário os pesquisadores vão até uma prisão, e lá assistem uma discussão entre os detentos sobre o que é ser homem e como eles aprenderam isso. As respostas mais frequentes eram sobre não chorar e não demostrar sentimentos, mas esperavam deles que fossem mulherengos, dominadores e ganhassem muito dinheiro.

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Sobre gênero

Meninos e meninas são muito mais “humanos” que meninos e meninas. Somos biologicamente muito semelhantes, o que vai nos distanciar é a forma como seremos socialmente criados, ou para ser menino, ou para ser menina. Psicologicamente, meninos e meninas são 90% iguais. Mas a partir do momento em que a família sabe o sexo de sua criança, a construção social do gênero dela começa a ser construído. A partir daquele momento a decoração do quarto começa a ser pensada, as roupas são escolhidas, os brinquedos mais adequados são comprados e assim, começa a ser construído o menino e a menina.

Meninas são mais empáticas, gentis, e cuidadosas. Meninos são mais explosivos, bagunceiros e divertidos. Mas isso, é porque eles foram criados para serem assim. O cérebro tem muita plasticidade e as qualidades que forem mais trabalhadas serão as mais evidenciadas, nada impede que um menino seja muito cuidadoso e uma menina seja extremamente bagunceira, o que dita isso, é a forma como ela foi criada para ser.

E com o passar do tempo estamos ficando cada vez mais bifurcados quando a questão é gênero. Dr Caroline Heldman, cientista política e educadora, afirma que estamos cada vez mais querendo simplificar os gêneros e podemos ver isso tanto na publicidade infantil quanto na programação da TV, estamos deixando as diferenças entre meninas e meninos cada vez maior. Tudo para meninas é rosa e brilhante e é relacionado a afazeres domésticos e beleza, já para os meninos é tudo muito mais violento ou atlético. Estamos construindo com isso dois papéis muito claros de como eles devem ser quando crescer.

A cultura do estupro e a homofobia

Uma frase marcante sobre essa parte do documentário é dita pelo Dr Michel Kimmel, ele afirma que temos a mania de achar que estupradores saem de um bueiro na escuridão, mas os estupradores estão do nosso lado, sendo criados por nós, culturalmente.

Uma pesquisa realizada nos Estados Unidos afirma que 35% dos homens universitários estuprariam uma colega caso soubessem que não seriam pegos, e 1 entre 5 meninas já sofreram violência ou tentativa de violência sexual na universidade. E o que esperar de homens que são criados para odiar o feminino? Homens que desde cedo tem medo de serem chamados de mulherzinha pois ser mulherzinha é ser frágil, é ser inferior. Um dos entrevistados afirma que homens são criados acreditando verdadeiramente que as mulheres estão no mundo para serem dominadas, é como se mulheres fossem feitas para homens.

Isso também explica muito do motivo pelo qual a homofobia é tão evidente na nossa sociedade. Talvez para um homem que foi doutrinado para ser o “macho-alfa”, ver um homem com características ditas mais femininas aparentes seja uma grande prova de que apesar de toda a pressão, alguns homens se libertaram da pressão social e da máscara que foi colocada nele, e que a talvez a sua própria, um dia possa se soltar.

Dr Caroline Heldman apelidou a forma como criamos os meninos de “A grande armadilha”, pois mostramos para eles que é legal rejeitar tudo que é feminino mas quando esses meninos viram homens, ficamos impressionados com o fato de eles não aceitarem mulheres como “seres humanos completos”, pois elas sempre serão mais fracas e submissas.

Se livrar dos rótulos.

Fica nas nossas mãos saber como agir com nossos meninos, com nossos filhos, namorados, pais, tios, primos e amigos, e na mão deles a escolha de se libertar dos rótulos que foram colocados neles desde sempre.

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A partir do momento em que apagarmos os rótulos do que é ser homem, talvez todo esse machismo, aos poucos, deixe de estar presente, pois como podemos ver, ele não ajuda ninguém. Não ajuda as mulheres, que a cada dia mais tem que lutar para garantir a igualdade e o respeito na sociedade, e que vivem com o medo da violência vinda de todos os cantos, seja na rua escura, seja na faculdade. Não ajuda os homens, que desde cedo precisam esconder seus sentimentos e criar uma máscara de homem forte que pode cair a qualquer momento. Não ajuda a sociedade que a cada ato de violência de gênero, adoece mais e mais.


Cíntia Silva

Jornalista (com diploma), bisneta de revolucionário, apaixonada por: Jornalismo, Literatura, História e Coxinha (não exatamente nessa ordem).
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