dois senhores

Jornalismo e Literatura, pois todo jornalista fere no peito o escritor

Cíntia Silva

Jornalista (com diploma), bisneta de revolucionário, apaixonada por: Jornalismo, Literatura, História e Coxinha (não exatamente nessa ordem)

A normalidade segundo María de las Montañas

Segundo María de las Montañas os requisitos para ser uma pessoa normal são sete: “Ter casa, emprego, um parceiro, vida social, vida familiar, hobbies e ser feliz“. Se você atingir esses sete requisitos, você não precisa de mais nada meu amigo! Nossa sociedade tende a usar o binarismo para classificar as coisas, temos masculino e feminino, rico e pobre, branco e preto. Esse tipo de classificação favorece o preconceito, e tudo o que sai dele é marginalizado. Esse texto tem como objetivo lançar um breve olhar sobre o processo de organização da normalidade com base no filme “Requisitos para ser uma pessoa normal”


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Requisitos para ser uma pessoa normal é um filme dirigido e roterizado por Leticia Dolera, que também interpreta Maria de las Montañas, protagonista da trama. Lançado em 2015, a produção espanhola conta a história de uma jovem adulta de 30 anos que se vê perdida, sem casa, sem emprego, sem namorado, sem vida social, sem uma boa relação familiar, sem hobbies e triste - (você se identifica?).

Enquanto procura emprego na Ikea, Maria conhece Borja, um cara incomodado com seu peso que não consegue fazer dieta. Borja preenche alguns requisitos da normalidade na visão de María, e María é magra, então os dois decidem fazer um acordo. Enquanto Maria ajudaria Borja a emagrecer, Borja ensinaria María como chegar a tão sonhada normalidade. Quid pro quo

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Confesso que olhei a thumb do Netflix e achei bonitinha, as cores eram lindas, o filme parecia muito legalzinho, mas não me interessei muito. Em uma noite de sexta feira, decidi dar uma chance para ele, e não consegui desviar o olhar. A protagonista, e muitos dos personagens em volta dela, te fazem se identificar logo de cara. TODOS já passamos pelas mesmas angustias retratadas no longa.

PROCESSO DE ORGANIZAÇÃO DA NORMALIDADE

A família de María não pode ser classificada como a tradicional família brasileira. Ela tem um irmão deficiente, que já aos 8 anos declara que é gay,e em muitos momentos ele se mostra como o pilar daquela família.A mãe de María é revendedora de uma dessas redes tipo “Avon”, ela tem um emprego, tem vida social, mas não tem mais um parceiro. O marido, com o qual ela tinha um relacionamento abusivo, havia morrido anos antes, e ela se culpa por nunca ter conseguido deixa-lo e, por isso, acha que é uma má mãe.

Borja, tem emprego, tem uma casa (se é que podemos afirmar isso), mas não tem uma vida social muito animada, por isso vê em María uma fonte de diversão infinita. Eles passam muito tempo juntos, tempo esse gasto com muita pizza, longas conversas e desenvolvimento de hobbies.

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Sobre as pessoas que se encaixam no padrão de normalidade definido por María, não tenho muito a acrescentar, pois todas parecem desinteressantes demais. Eles atingiram sucesso na vida, tem segurança, belos filhos, belas casas, ótimos empregos, são tudo o que é esperado, sem surpresas, sem inseguranças, só a mais perfeita normalidade.

O processo de organização da normalidade não é fixo, a cada tempo uma definição diferente é colocada em voga na sociedade, e não podemos esquecer que ele muda de cultura para cultura. Os dispositivos de normalização funcionam como práticas descontínuas que podem tanto se cruzar como eventualmente se ignorar ou se excluir.

Nossa sociedade tende a usar o binarismo para classificar as coisas, temos masculino e feminino, rico e pobre, branco e preto, bom ou ruim. Esse tipo de classificação favorece o preconceito, e tudo o que sai desse binarismo é marginalizado. O binarismo do padrão de normalidade repousa na anormalidade. Elas são vistas como coisas opostas, mas será que não seria mais interessante tratar normalidade e anormalidade como duas facetas que constroem o individuo?

[...] basta que um indivíduo questione as necessidades e as normas dessa sociedade e as conteste - sinal de que essas necessidades e essas normas não são as de toda a sociedade – para que se perceba até que ponto a necessidade social não é imanente, até que ponto a norma social não é interna, até que ponto, afinal de contas, a sociedade, sede de dissidência contida ou de antagonismos latentes, está de se colocar como um todo (Canguilhem, 2000, p. 229).

Pessoas ditas como “anormais” desafiam o que esta posto. E das duas, uma: ou ela vai fazer todo o sistema repensar se suas normas são mesmo representativas, ou ela vai ser excluída dessa sociedade e classificada como “doente, louca, fora de sí”.

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Normal e anormal encontram-se constituídos pelas “mesmas regras”, pelos mesmos dispositivos. As duas formas coexistem em um mesmo tempo de existência e fazem funcionar as normas de uma sociedade.

NASCIMENTO DA NORMA

Várias áreas de conhecimento tem várias definições para a normalidade. Ele começa a ser mais discutido durante a idade média, quando os surtos de lepra começam a se espalhar na sociedade, os portadores da doença começam a ser mandados para lugares distantes, a fim de serem mantidos longe dos olhos dos demais:

A exclusão da lepra era uma prática social que comportava primeiro uma divisão rigorosa, um distanciamento, uma regra de não contato entre um indivíduo (ou um grupo de indivíduos) e outro. Era, de um lado, a rejeição desses indivíduos num mundo exterior, confuso, fora dos muros da cidade, fora dos limites da comunidade. (FOUCAULT, 2002, p. 54).

Quando chegamos a modernidade, a medicina e o poder jurídico colocaram um olhar importante para composição de outras formas poder. Eles eram/são, os agentes que decidem quem será excluído da sociedade, quem será o anormal: Esses novos saberes médicos e judiciários, em que se cruzam a doença e o crime, são tidos como capazes de avaliar e evitar o risco que cada um corre de ser anormal e o risco de conviver com o anormal. (MARQUEZAN, 2009, p.110).

MAS VALE A PENA SEGUIR A NORMA?

Bateson não fala em normalidade, mas propõe que nós possamos fugir do padrão como afunilamento do olhar sobre o costumeiro para que possamos ver a beleza do inusitado. Segundo ele, fomos treinados para pensar a respeito de padrões, com exceção da música, como assuntos estáveis. É mais fácil pensar assim, mas naturalmente absurdo. Na verdade, o caminho certo para começar a pensar sobre o padrão que liga é pensar nele como primordialmente (seja lá o que isso significa) uma dança de partes que interagem e só secundariamente restringida por vários tipos de limites físicos e por aqueles limites que os organismos caracteristicamente impõem. (1993).

No filme requisitos para ser uma pessoa normal, vemos pessoas normais que se agarram a essa normalidade a tendem a ignorar ou satirizar o que é visto como fora desse padrão, são personagens estáticos, que até causam algum encantamento devido a segurança que passam, mas eles não tem para onde crescer na narrativa.

Já os personagens “anormais” encantam pela instabilidade, pelo ato imprevisível, pelo divertimento que é tentar se reinventar e se reencontrar a cada nova situação. Não sabemos como eles vão agir, mas ficamos na torcida para que eles finalmente alcancem aquilo que procuram. Se isso é fácil? Não.

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Vemos a mãe de María chorar copiosamente por não saber como demonstrar amor, seu irmão procurando o que é o amor, Borja se sabotando por não saber como agir, ou por ter medo das consequências de suas ações. Vemos María tentar tão incansavelmente ser outro alguém, alguém normal, que ficamos com medo que ela deixe de ser ela, pois ela é perfeita com sua anormalidade, seus olhos grandes e cabelos bagunçados que parecem ter sido penteados por Tim Burton.

Ao meu ver, a moral da história do filme, é que cada um de nós precisa estabelecer quais são os seus próprios requisitos, não para ser uma pessoa normal, mas uma pessoa Feliz (que esta na lista de María de las Montañas.

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REFERÊNCIAS:

BATESON, Gregory. Mente e Natureza: A Unidade Necessária. 1993.

CANGUILHEM, Georges. O Normal e o Patológico. 2000

FOUCAULT, Michel. Os Anormais. 2002

MARQUEZAN, Reinoldo. O Deficiente no Discurso da Legislação. 2009.


Cíntia Silva

Jornalista (com diploma), bisneta de revolucionário, apaixonada por: Jornalismo, Literatura, História e Coxinha (não exatamente nessa ordem).
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