dois senhores

Jornalismo e Literatura, pois todo jornalista fere no peito o escritor

Cíntia Silva

Jornalista (com diploma), bisneta de revolucionário, apaixonada por: Jornalismo, Literatura, História e Coxinha (não exatamente nessa ordem)

Ta proibido apagar as manas dos quadrinhos

Mulheres nos quadrinhos? Isso é um fenômeno recente (...) Não. Sabia que em 1886 (muito antes de Stan Lee pisar nesse solo) nascia no Brasil a Rian, ou Nair de Teffé, uma das primeiras cartunistas do Brasil? Talvez você não saiba (eu também não sabia), já que até metade do século XX elas preferiam assinar com nomes masculinos para que pudessem ser publicadas. Esse texto discute um pouco do trabalho que as mulheres estão realizando na antes tão restrita área dos quadrinhos.


Você já ouviu falar de Stan Lee? Alan Moore? Não precisa ser um grande entendedor de cultura pop ou ter carteirinha de Nerd pra reconhecer esses nomes. Mas você conhece Nair de Teffé? Se eu disser Rian... talvez você se lembre (...) Lembrou? Não? Eu também não.

Ela foi uma das primeiras mulheres cartunistas no Brasil, segundo alguns historiadores, pode ser a primeira no mundo. Nair de Teffé nasceu em lar aristocrático no ano de 1886, uma mulher livre, viajou pelo mundo, conheceu muitas culturas, e conseguiu se inserir em um ramo dominante masculino, o das caricaturas de jornais e revistas. Com o ambíguo nome de Rian, (NAIR ao contrário), ela publicou no O Binoculo, Fon-Fon, Fêmina, entre outros veículos.

Mulheres não eram bem vistas no mundo do desenho, e talvez eu não devesse dizer que são, nos dias atuais. Até a primeira metade do século 20, era comum que as mulheres se escondessem atrás de pseudônimos masculinos, uma forma de mostrarem seu trabalho sem receber julgamento, uma situação bem comum. O fato de ser mulher traz uma cobrança a mais de entendimento no assunto tratado. Aposto que se você menino disser ao seu colega que adora games, os dois irão fazer um toque com as mãos e basta. Mas se eu, menina, disser que gosto de games, vou ter que responder quantos eu já zerei, quantas horas de jogo eu já tenho, quais meus games da Ubisoft favoritos e se eu já cheguei pelo menos na metade de Resident Evil 7.

Esse processo de “apagar” mulheres da história dos quadrinhos por muito tempo contribui para que as artistas não tivessem coragem de entrar no mercado. Era como se elas nunca tivessem pisado naquele espaço, e vamos combinar, representatividade importa, um modelo a seguir importa. Ser mulher em uma sociedade machista não é fácil, mas ser mulher em alguns nichos é mais difícil ainda. Quadrinhos são coisa de menino, são violentos, sombrios, pornográficos, menina não tem que se meter nisso. Essa sentença, graças a Deusa, não é verdade.

Se lá no século 20 as mulheres eram apagadas da história dos quadrinhos, na atualidade elas fazem questão de que a indústria saiba seus nomes, e seu gênero. Elas ganham cada vez mais o merecido espaço, seja na internet publicando de forma independente, ou nas grandes editoras publicando em escala mundial.

A internet veio como um espaço muito importante para que o trabalho das quadrinistas fosse democratizado. Se antes elas precisavam de aprovação de um selo para que seu trabalho chegasse a ser publicado, ou desenbolsar uma grana para que seus quadrinhos pudessem ser impressos de forma independente, hoje elas tem uma gama bem maior de ferramentas para atingir seu público. E se você ainda está com dificuldades de encontrar essas minas que desenham, vai umas dicas de onde encontrar:

Território das quadrinistas

Já ouviu falar em Pagu? Ela deu as caras no Brasil em 1910, foi uma escritora, poeta, diretora de teatro, tradutora, desenhista, cartunista, jornalista e militante política. Além inspirar música da Rita Lee, ela inspirou um selo editorial que publica mulheres quadrinistas, o Pagu Comics. A iniciativa foi um selo criado pela Editora Cândido e tem parceria com o Social Comics.

Caso você são saiba, o Social Comics é nada mais, nada menos, que o Netflix dos quadrinhos. O Pagu Comics nasceu em 8 de março de 2016 (data sugestiva) e teve como quadrinho da estreia o “Empoderadas” (nome mais sugestivo ainda). Tá esperando o que pra ir conhecer esse selo empoderado?

Além do Pagu Comics, também vale a pena procurar por Zine XXX, fundado em 2013, o projeto da Betariz Lopes tem como objetivo dar visibilidade e estimular novas quadrinistas mulheres e LGBTS. O Zine XXX tem página no Facebook, na qual você pode acompanhar o trabalho de várias artistas.

O Mulheres nos Quadrinhos foi um dos primeiros projetos com o qual tive contato, pelo Facebook. O projeto que nasceu para divulgar o trabalho das quadrinistas na rede social acabou conseguindo financiamento coletivo e publicou um livro homônimo com dois volumes contando com a participação de 24 artistas.

Depois dessa até da vontade de ler mais sobre esse universo das quadrinistas néh?! Então que tal acessar o Lady’s Comics? O site que já de cara deixa claro que “"HQ não é só pro seu namorado”. O projeto conta com várias minas que escrevem sobre quadrinhos, e se você gosta de escrever sobre o assunto, pode procurar que elas também aceitam contribuição de outras minas. O Lady’s Comics tem um banco de dados de mulheres quadrinistas, o BAMQ! no qual você pode encontrar os dados de várias profissionais da área.

Já deu pra perceber que as mulheres estão entrando com o pé na porta não é? Alem dos trabalhos independentes, algumas quadrinistas estão ganhando espaço nas prateleiras das grandes livrarias. Já ouviu falar em Nimona? A obra foi escrita e ilustrada pela Noelle Stevenson e esta ganhando até o coração daqueles que não estão acostumados a ler quadrinhos. Se você não conhecer Nimona, talvez conheça Persépolis, da Marjane Satrapi, que conseguiu sair das páginas para as telas em 2007.

Representação feminina nos quadrinhos

Esse tema dá uma tese, ou pelo menos um textinho mais aprofundado em uma próxima oportunidade, mas eu não poderia fechar esse texto sem pelo menos escrever alguns parágrafos sobre isso. Além da importância artística do trabalho das quadrinistas é importante lembrar que essas mulheres preenchem uma lacuna na representação feminina nas páginas dos quadrinhos.

Geralmente quando você compra uma HQ o personagem feminino esta construído por meio de um olhar masculino, e esse homem vive em uma sociedade machista, que tem papeis muito bem definidos sobre o que uma mulher deve ser. Das duas uma, ou a mulher é a super heroína badass que usa a roupa mais justa que tiver, e faz a pose mais sexy que sua estrutura óssea possa ostentar, ou ela é a mocinha em perigo que só serve de escada para mostrar a força do seu Super-Homem.

Só a partir do momento em que a mulher passa a ser o olhar por trás do enredo que a objetificação feminina deixa de ser uma regra nos quadrinhos, e para que esse olhar seja cada vez mais difundido, é preciso dar visibilidade para as manas que estão nessa luta. É importante que não se apague as quadrinistas, as ilustradoras, as designers e as escritoras das listas. Fazendo uma breve pesquisa sobre quadrinhos eu encontrei diversas listas sobre os melhores autores de quadrinhos, e vez ou outra eu pude encontrar uma mulher entre tantos rostos masculinos.

Já dizia o Alan Moore que “todas as histórias em quadrinhos são políticas”, e se queremos a igualdade política e social, temos que apoiar o trabalho dessas mulheres, para que cada vez mais a mulher seja o OLHAR nos quadrinhos, não apenas a IMAGEM.

Vem conhecer o trabalho das Manas

Como eu não perco uma oportunidade, eu me dei o direito de listar 5 artistas que tocaram o meu coração com os seus desenhos, e que eu fiquei com muita vontade de apresentar pra vocês:

Bianca Pinheiro:

A Bianca é uma carioca que foi publicada pela Editora Nemo. Seu trabalho BEAR (http://bear-pt.tumblr.com/) tem um dos traços mais lindos que eu já vi, sem falar que a Raven consegue te conquistar já nos primeiros quadros. Além de BEAR, ela escreveu e desenhou DORA (http://bianca-pinheiro.tumblr.com/dora) de forma independente. DORA tem um traço bem diferente de BEAR.

BEAR.jpg

Carol Rosseti:

Conheci o trabalho dela por causa de algumas páginas feministas que sigo no Facebook e me apaixonei pela série “Mulheres”, que virou livro. Vale a pena conhecer.

carol.jpg

https://www.facebook.com/carolrossettidesign/

Lita Hayata:

Lita é ilustradora, quadrinista e criadora da Bete, personagem principal do quadrinho BETE VIVE, uma mulher livre, fora dos padrões, que é praticamente roomate da morte.

BETE VIVE.png

https://www.facebook.com/betevive/

Laura Athayde:

Acho que a primeira vez que tive contato coma Laura foi pela revista Capitolina, em seu trabalho ela trata de temas muito recorrentes para as mulheres de uma forma que te faz ficar de “coração quentinho” de tanto que você se reconhece.

Laura.jpg

http://ltdathayde.tumblr.com/

Ale Presser:

Ale é a mente por trás de ARROZ, um trabalho lindo que eu só posso definir com duas palavras “amor e delicadeza”. Tem que ler.

ale presser.jpg

http://arroz.alepresser.com/

[Faixa Bônus: Eu sei que eram 5 quadrinistas, mas eu olhei aqui no meu caderninho e vi que tinha anotado Mãe Solo, então vou ter que colocar]

Thaiz Leão – Mãe Solo

Ela mostra com quadrinhos trágicos e divertidos como é ser mãe solo na nossa sociedade. Conheci pelo Facebook também e me apaixonei pela linguagem logo de cara. Dá pra passar a tarde toda vendo e entendendo melhor de forma rápida e simples como é ser mãe solo

mãe solo.jpg

https://www.facebook.com/mamaesolo

Links úteis

Página do Zine XXX: https://www.facebook.com/zinexisxisxis/

Mulheres nos quadrinhos: https://www.facebook.com/MulheresNosQuadrinhos/

Lady’s Comics: http://ladyscomics.com.br/

Social Comics: https://www.socialcomics.com.br/


Cíntia Silva

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