dois senhores

Jornalismo e Literatura, pois todo jornalista fere no peito o escritor

Cíntia Silva

Jornalista (com diploma), bisneta de revolucionário, apaixonada por: Jornalismo, Literatura, História e Coxinha (não exatamente nessa ordem)

O passageiro da agonia e o Romance-Reportagem no Brasil

Se o New Journalism marcou época nos Estados Unidos, no Brasil o Romance-Reportagem surgiu como uma válvula de escape para jornalistas que haviam se cansado e buscavam uma forma diferente de fugir da censura e publicar histórias que não estavam impressas nos jornais diários.


Jornalismo e Literatura, esses dois seres tão opostos, um baseado nos fatos, o outro, não passa de ficção. Mas é uma pena se pensar assim, quando os dois podem trabalhar tão bem juntos. Um bom exemplo disso, é o Romance-Reportagem, que segundo o teórico da comunicação Rildo Cosson, é um gênero autônomo situado entre esses dois discursos.“Por um lado, não é jornalismo, uma vez que é romance; por outro, não é literatura, uma vez que é reportagem.”

Enquanto o New Journalism americano explodia as mentes nos Estados Unidos durante os anos 60, nos anos 70 o Brasil também dá o seu jeito de usar a literatura para revolucionar o clima das redações, só que ao contrário dos companheiros americanos, os brasileiros tinham mais um motivo político do que estético para fazê-lo.

O romance-reportagem brasileiro nasce da necessidade que os jornalistas que estavam na mira da censura causada pelo período ditatorial tinham de escrever a verdade, algo que não podiam fazer abertamente nas notícias dos jornais diários. Segundo Cosson:

Uma das primeiras explicações para a existência do romance-reportagem no Brasil foi a ação da censura. Considerado como uma produção cultural específica de sua época, o romance-reportagem seria o resultado ou o subproduto da censura e da repressão do regime ditatorial no campo jornalístico. [...] De acordo com a crítica, o clima de jornal da literatura dos anos 70 foi determinado pela ditadura militar. (2002, p.61)

O ‘Romance-reportagem’ foi o termo usado para nomear uma coleção da editora Civilização Brasileira, ainda em 1970, que pretendia lançar textos baseados em episódios reais que tivessem uma narrativa mais ficcional. Os livros da coleção fizeram sucesso e levaram o termo ao auge.

O romance-reportagem passa a ser usado para denominar tanto os textos que misturavam jornalismo e literatura, quanto uma das tendências que dominaram a ficção brasileira no período. Ao contrário do jornalismo, a literatura era menos vigiada pelos órgãos censores, visto que a literatura até então não era amplamente consumida pelas massas e sim pelas elites. Mas com a falta de liberdade nas redações, os jornalistas passam a desmascarar aquilo que era pintado nas páginas dos jornais nos livros, que passaram a ser consumidos pelo público carente de veracidade. “É por essa razão que a literatura da década de 1970 encontra-se presa a um desejo de veracidade, a um compromisso com a atualidade e com a referencialidade, elementos próprios do jornalismo”. (COSSON, 2002).

A obra Lúcio Flávio, o passageiro da agonia , de José Louzeiro, é um exemplo do alcance desse tipo de literatura, que em quatro meses conseguiu a marca de dez mil livros vendidos, uma marca impressionante para a época. Alguns anos depois (1977), o livro virou filme dirigido por Hector Babenco, e estrelado por Reginaldo Farias no papel principal. A narrativa retrata a história de Lúcio Flávio Lírio, notório assaltante de banco que atuava no Brasil durante regime militar. Em novembro de 2015 o filme entrou na lista feita pela Associação Brasileira de Críticos de Cinema (Abraccine) dos 100 melhores filmes brasileiros de todos os tempos.

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Mas a verdade é que os jornalistas que decidiram se aventurar nesse campo não o fizeram apenas para enganar a censura, mas pela falta de espaço para fazê-lo no jornalismo do dia a dia, já que a imprensa brasileira passava por uma transformação estrutural para seguir o modelo americano, que ditava uma série de regras na forma de se escrever e distribuir as notícias. Esse novo molde era totalmente contrário a relação entre jornalismo e literatura. “Os autores dos romances-reportagem da década de 1970 são todos jornalistas experimentados que encontravam dificuldades para se adaptar às novas exigências”. (COSSON, 2002).

Essa reportagem disfarçada de romance, ou vice-versa, foi a responsável por olhar não só para o outro, mas para seu contexto, suas nuances, e capturar no texto a pessoa, o momento, a realidade do momento. Num momento em que os fatos não eram noticiados do modo como deveriam, esse tipo de escrita acabou por juntar a força política com a força poética e cumprir o principal dever do jornalismo, informar.

REFERÊNCIA

Romance-Reportagem: O Gênero. Rildo Cosson


Cíntia Silva

Jornalista (com diploma), bisneta de revolucionário, apaixonada por: Jornalismo, Literatura, História e Coxinha (não exatamente nessa ordem).
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