dois senhores

Jornalismo e Literatura, pois todo jornalista fere no peito o escritor

Cíntia Silva

Jornalista (com diploma), bisneta de revolucionário, apaixonada por: Jornalismo, Literatura, História e Coxinha (não exatamente nessa ordem)

EM MEMÓRIA DA SENHOR

Durante as décadas de 1950 e 1960 circulou no Brasil uma publicação que marcou a história do jornalismo. A revista SENHOR tratou dos mais variados assuntos de forma analítica e interpretativa. Esse texto é uma pequena homenagem a uma revista que marcou uma época no Brasil e que merece ser lembrada sempre que o assunto for jornalismo literário.


Mas como você ficou sabendo dessa revista?

Essa é a pergunta que escuto sempre que invoco o nome da Senhor. Desaparecida desde a década de 60 (30 décadas antes do meu nascimento),a publicação não é uma constante quando o assunto é revista, mas aos interessados em jornalismo literário, ela enche os ouvidos. Se pudéssemos comparar publicações, ela seria a revista piauí dos anos 60, uma das primeiras publicações brasileiras a se aventurar em um estilo narrativo mais literário.

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A trajetória da publicação começa na década de 1950, um período de mudança no cotidiano da sociedade, marcada pelo processo acelerado da automação e da produção padronizada. Os eletrodomésticos ganhavam os lares brasileiros e as donas de casa passaram a ter mais tempo livre. Nesse meio tempo, a televisão começou a ocupar lugar de destaque na sala de estar dos brasileiros, que puderam ver pela primeira vez a face oculta da lua, captada pela sonda Lunik II. Todo o aparato tecnológico faz com que os brasileiros começassem a ver o conceito de indústria cultural na prática. Os meios de comunicação de massa – TV, rádio, cinema, e mídia impressa – passam a fazer parte da sociedade de forma mais incisiva.

O ano era 1958. NahumSirotsky se encontrava desempregado após um desentendimento com o criador da Manchete. Ele e sua esposa, BeylaGenauer, participavam de uma festa familiar quando Beyla avista Abrahão Koogan, um dos controladores da famosa editora Delta-Larousse, que vendia coleções de livros a crédito. Ela se aproxima de Koogan e faz a seguinte pergunta: “O Nahum está disponível. Por que não o pegam para fazer algo para vocês?”. Então Koogan a responde com a seguinte frase: “Que ele vá aos nossos escritórios. Simão está pensando em revistas”. O Simão mencionado era Simão Waissman, um dos sócios da empresa. (SIROTSKY, 2012, p.35).

Pode-se se dizer que a história da revista SENHOR teve sua primeira cena naquela noite, um ano antes da publicação de sua primeira edição.

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A revista que representou durante quatro anos o jornalismo cultural, no Brasil, com muita realidade, uma pitada de ficção e jornalismo literário. A SENHOR contava com artigos, críticas, ensaios, reportagens, perfis, e textos ficcionais de autores brasileiros e estrangeiros, e crônicas. A trajetória da revista vai de março de 1959 a janeiro de 1964, totalizando 56 edições. Parece pouco, mas foi o suficiente para que a publicação se tornasse um marco na história da imprensa brasileira no campo do jornalismo cultural de revista. Realizada por um grupo de jornalistas, artistas plásticos e intelectuais, revelou-se como uma das mais importantes publicações da imprensa brasileira, algo que se assemelha ao padrão das revistas europeias e americanas que serviram de inspiração para o projeto gráfico.

A revista SENHOR foi elaborada para ser uma publicação de alto nível, compatível aos produtos da Editora Delta, empresa de Simão Waissman . “Ele queria publicar a mais interessante revista brasileira de todos os tempos. Quem comprasse uma coleção da Delta ganharia uma assinatura da revista” (SIROTSKY, p.35). As fontes para concepção da revista encomendada por Waissman partiram do jornalista NahumSirotsky, que montou um boneco baseado em publicações como a Life, New Yorker e a Esquire. “A ‘boneca’ ficou uma beleza, montada com recorte das mais belas publicações internacionais. Foi aprovada” (SIROTSKY, p. 40). A revista teria o preço mais alto que as mais caras revistas brasileiras, para que fosse vista como um símbolo de status. A base do projeto apoiava-se no público que era cliente da editora, definido pelas elites econômica e intelectual.

O alvo era o homem de alto poder aquisitivo na faixa de 30 a 50 anos, casado com uma mulher que se interessa por cultura. A revista era distribuída em todo o país e chegou a ter uma tiragem de 45 mil exemplares, significativa para a época.

Editorialmente, SENHOR publicava uma mescla de assuntos sobre cultura, temas da atualidade da época envolvendo política e serviços para o homem. Embora apresente uma grande variedade temática, sua maior contribuição estava no campo do jornalismo cultural com a predominância do material que foi publicado. SENHOR apresentou densidade editorial centrada nas características do jornalismo cultural de forma analítica, tentando fugir da cobertura rasa, pautada pela agenda da indústria cultural.

A última edição da SENHOR chega nas bancas em janeiro de 1964. O número de fevereiro chegou a ser escrito, mas não foi publicado por falta de dinheiro para impressão. A alta no preço do papel e a falta de um grupo empresarial que financiasse a revista acabaram sendo fatores que influenciaram em seu fechamento. Segundo Basso, “as dívidas de impressão foram se acumulando e culminaram com um período de profunda crise econômica e política do país só agravando a situação de sustentabilidade da revista” (2008. p. 87)

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Livros que reconstituem a história da Senhor. Para 'O melhor da Senhor', os organizadores procuraram selecionar artigos, entrevistas e fotos que representem um pouco da história da publicação. Editora: IMESP.

Em março de 1964, os militares tomaram o poder e, SENHOR não estava mais lá para contar: [...] nos anos imediatamente seguintes os senhores de colarinho branco que compunham o seu público viram-se engolfados pelo processo de juvenilização galopante que tomou o planeta, com o iê-iê-iê, os hippies, os cabelos sobre a gola e, depois, sobre os ombros. De certa maneira, Senhor acabou ao mesmo tempo que seu próprio mundo. (CASTRO, 2012. p. 30).

Edeson Coelho, o último proprietário da SENHOR ao lado de Jardim, afirma que a revista não morreu por falta de interesse dos leitores, falta de pessoas competentes o bastante para fazê-la ou falta de ânimo dos anunciantes. A verdadeira causa da morte da SENHOR foi a “falta de espírito empresarial de seus diretores [...] o resto é folclore” (2012. p. 81). Ele ainda afirma que SENHOR não morreu:

Senhor não morreu. Eu acho que desapareceu. Ou desencarnou? Sei lá. Cada dia morria um pouquinho. O negócio foi mais ou menos como aquele marido, na bela Chicago dos anos 1920, que, um dia, disse tranquilamente à mulher: ‘Mulher, vou tomar um café na esquina’. E sumiu. (2012. p. 81).

Reynaldo Jardim também tinha uma explicação do que aconteceu:

A SENHOR não morreu de morte natural. Foi assassinada. [...] Como não tínhamos nenhuma estrutura empresarial, trabalhamos muito para mantê-la. Tudo foi acertado com a Turismo Rio e, a Turismo Rio estourou. Estouramos juntos. [...] A gente não tinha como pagar a gráfica e a revista não saiu mais. Aí uma funcionária entrou na justiça e a Justiça veio lá penhorar a redação a arresto de bens. Aí chegou lá um caminhão para levar móveis, arquivos, pranchetas. (JARDIM apud BASSO, 2008. p.88).

Alguns anos depois de seu fim, SENHOR voltou a aparecer, mas com outra cara. Istoé Senhor, lançada nos anos 70, marca o ingresso das Organizações Globo no mercado editorial brasileiro das revistas semanais de interesse geral. Mas este SR. da Istoé não tinha mais traços da antiga SENHOR.

Respondendo a primeira questão desse texto, que é a pergunta que sempre me fazem quando eu falo na revista SENHOR, a resposta mais bonita é: Conheci a revista quando me apaixonei pelo jornalismo literário.

REFERÊNCIAS:

Se você se interessou pelo jornalismo literário, segue uma boa referência:

CASTRO, Gustavo de. A palavra compartida. In: CASTRO, Gustavo de; GALENO, Alex (Org.). Jornalismo e literatura: a sedução da palavra. São Paulo: Escritura Editora, 2002.

Se você se interessou pela SENHOR, vai mais uma:

SIROTSKY, Nahum. Antimemórias da Senhor. In: Uma senhora revista / Organização Ruy Castro; Concepção e coordenação Maria Amélia Mello - São Paulo: Imprensa Oficial do Estado de São Paulo. 2012.


Cíntia Silva

Jornalista (com diploma), bisneta de revolucionário, apaixonada por: Jornalismo, Literatura, História e Coxinha (não exatamente nessa ordem).
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