M. Domenes

Alguém que aprecia o lado B das artes

Nacho Cerdá, entre a Repulsa e a Poesia.

Nacho Cerdá é um diretor espanhol conhecido principalmente no circuito underground devido à peculiaridade que compõem suas obras. O diretor narra em suas películas à poesia caótica do Homem e a sua condição existencial. Isso fica bem explicito no seu afamado curta, Aftermath, produzido em 1994, obra máxima que narra o final da carne humana diante de uma mente pérfida, lasciva e doentia. Este curta, assim como o poético “Genesis” e o enigmático “The Awakening” fazem parte de “La Trilogia de La Muerte”, DVD lançado em 2007.


nacho_cerda001.jpg

Nacho Cerdá é um diretor espanhol conhecido principalmente no circuito underground devido à peculiaridade que compõem suas obras. O diretor narra em suas películas à poesia caótica do Homem e a sua condição existencial. Isso fica bem explicito no seu afamado curta, Aftermath, produzido em 1994, obra máxima que narra o final da carne humana diante de uma mente pérfida, lasciva e doentia. Este curta, assim como o poético “Genesis” e o enigmático “The Awakening” fazem parte de “La Trilogia de La Muerte”, DVD lançado em 2007.

nacho_cerda002.jpg

O ponto crucial das obras de Nacho Cerdá é despertar a sensibilidade humana de sua banalidade usual. Por essa razão, “Aftermath”, assim como seus demais curtas, é uma obra polêmica. Justamente por aflorar os nossos sentimentos de repulsa, antes adormecidos. Os quais jazem domesticados devido à banalização da violência exposta nos telejornais.

De certa forma, nós, a sociedade civilizada, estamos habituados com a violência, ela não nos parece tão vil sob uma perspectiva oposta. Ela nos parece uma realidade comum fora da segurança de nossos lares.

nacho_cerda003.jpg (cena do curta-metragem "Aftermath")

Porém no mesmo decline caminha nossos sentimentos. Estamos cada vez mais frígidos a expressá-los e cada vez mais impassíveis e insensíveis ao percebê-los no outro. Somos auto-suficientes em nosso egoísmo e rígidos em nossa hipocrisia moral. Por isso Nacho Cerdá causa asco em alguns (Aftermath) e reflexão em outros (Genesis), justamente devido à sinceridade explicita e amoral de suas cenas. Todas compostas por um vórtice de surrealismo poético, uma fotografia expressiva, ausência de diálogos, desolação e em alguns trabalhos a escarificação da realidade.

GENESIS - O LADO POÉTICO DE NACHO CERDÁ

Genesis narra à história de um artista plástico que perde a sua esposa em um terrível acidente de carro. Deste então carrega consigo essa amarga solidão em seu peito, remoendo essa fria ausência do querer.

Em um ímpeto de vazio e desapego, decide esculpir a sua Vênus de Milo como uma forma de externar a dor. Seus dias são possuídos por um trabalho exaustivo e quase interminável. Sua vida consiste apenas em esculpir as feições métricas de sua falecida e amada esposa.

nacho_cerda004.jpg

Eis que surge a narrativa fotográfica do curta, delineando cada ponto, cada curva e silhueta. Demonstrando a sensibilidade da alma do artista que, por um segundo, domina a essência divina transformando a matéria bruta em beleza visual. Dia após dia a estátua se torna mais polida, mais próxima a idealização do amante.

E por fim o trabalho chega aos seus momentos finais. Pequenos retoques são um mero afago aos sentimentos ou apenas uma recordação amarga daquilo que não se pode ter. Mas em suma, uma belíssima sintetização do bem-querer.

nacho_cerda005.jpg

Termino aqui o que é necessário saber, pois a beleza irá se revelar naturalmente. A película tem vida própria, tudo se revela através interpretações e simbolismo. O diretor demonstra uma sutileza poética ao narrar através de planos fechados, brincando com a oscilação entre sombra e luz, expressando tudo com a ausência de palavras. Por isso nenhuma sinopse expressará com exatidão aquilo que os sentidos podem captar através da contemplação. Apenas recomendo que assista mais de uma vez para observar os pequenos detalhes que passam despercebidos na primeira observação. Não é ao acaso que Genesis foi tão premiado.

Título Original: Genesis Direção: Nacho Cerdá Atores: Pep Tosar, Trae Houlihan Ano: 1998 Duração: 30 minutos


M. Domenes

Alguém que aprecia o lado B das artes.
Saiba como escrever na obvious.
version 2/s/Cinema// //M. Domenes