dona efêmera e dona perpétua

Um olhar sobre coisas que passam e que ficam.

Rosita Rose

No centro da noite, no meio de um sonho, num bate-papo. E não me bastam as palavras!

A DÚVIDA DE CÉZANNE

Breve comentário sobre o ensaio estético de Maurice Merleau-Ponty (1908-1961), que trata da percepção nas obras do pintor Paul Cézanne (1839-1906). Em "A dúvida de Cézanne", Ponty debruça-se sobre a pintura de Paul Cézanne e, a partir dela, apresenta reflexões sobre a questão da visão e do visível, ou seja, da aparência e do ser. E, por meio de seus esquemas conceituais, apresenta um discurso contributivo para o aprofundamento reflexivo sobre a arte, e, sobretudo, para uma melhor compreensão da Fenomenologia da percepção.


Cézanne desenvolveu um gênero novo de representação de objetos no espaço. Ele foi um reiventor da natureza-morta, dando uma profundidade espacial através de meios composicionais. Ao renunciar a perspectiva linear na representação dos objetos, ele pode revelá-los nas dimensões impostas pela composição.

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Inicialmente, Merleau-Ponty comenta sobre a insatisfação crescente de Cézanne com suas pinturas, suas inúmeras tentativas de representação do real através de sua arte. Na visão merleau-pontyana, a liberdade solitária de Cézanne seria resultado de sua fuga do mundo humano, onde a sua dedicação a um mundo visível representaria essa fuga. Entretanto, o filósofo não defende a idéia de que o sentido da obra de Cézanne deve ser determinado pela sua própria vida.

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Quando o autor descreve sinteticamente os primeiros quadros de Cézanne até o ano de 1870, e posteriormente aponta à transição da concepção do artista acerca da pintura, no sentido de ultrapassar a idéia de uma representação de cenas imaginadas ou sonhadas, para o conceito de que a pintura seria “o estudo preciso das aparências” (MERLEAU-PONTY, 1980, p.115), ele nos atenta para a questão da representação dos objetos – foco característico marcante nas obras de Cézanne. Há aqui um desvelar de olhos, um fomento ao entendimento referente à visão e os sentidos, à relação sujeito e objeto. Por isso ele cita a intenção presente no Impressionismo, a tentativa de repor na pintura a forma pela qual os objetos atingem a visão e alcança os sentidos.

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Mas em Cézanne, o uso das cores não carrega o mesmo fim que os impressionistas buscavam. O pintor explorava uma gama de cores (um total de dezoito cores) para construir os seus quadros. Uma construção que seguia rigorosas leis formais e cromáticas, e trazia uma expressão de solidez e materialidade. Para destacar as cores quentes – vermelho, laranja e amarelo, Cézanne empregava o azul. O desenho é resultado da cor. Estas e outras questões técnicas, tão bem desenvolvidas na linguagem merleau-pontyana, não aparecem como simples apresentações das técnicas de Cézanne, mas propõem uma colaboração à compreensão da leitura do real, escrita em suas obras.

Ao “desobedecer” a realidade através de suas representações pictóricas e dos meios composicionais utilizados, Cézanne procurava um efeito em suas obras. Seu anseio é transpor nas suas telas a percepção no momento em que ela se realiza. Por isso a necessidade de pintar a matéria no instante em que ela toma forma, se configura em sua espontaneidade.

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A liberdade criadora de Cézanne é revelada por intermédio do sentido que o artista dava aos seus personagens, às figuras de seus quadros, ao próprio mundo que ele via. E foi esse o sentido liberado pelo artista: o como ele via, percebia as coisas, os objetos, enfim, a realidade ao seu redor. “É ainda no mundo, numa tela, com cores, que lhe será preciso realizar sua liberdade.” (Ibidem, p.126). E é esse um dos temas abordados nos últimos momentos do texto. A reflexão sobre a liberdade criadora compreende o ápice filosófico da obra, pois acrescenta um discurso que se esboça numa mescla que inclui dados sobre a vida de Leonardo Da Vinci, e considerações acerca da Psicanálise.

Em síntese, em A dúvida de Cézanne, está expressa a busca incansável desse artista em pintar as características do visível, sua busca incessante em expressar o que ao mesmo instante que é percebido, escapa aos nossos sentidos: o fugidio. A relação efêmera entre a visão e o visível, num processo interminável, que provoca a investigação à sua própria obra.


Rosita Rose

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