dona efêmera e dona perpétua

Um olhar sobre coisas que passam e que ficam.

Rosita Rose

No centro da noite, no meio de um sonho, num bate-papo. E não me bastam as palavras!

Sobre pessoas que não encontramos todos os dias no ônibus

Ás vezes o passageiro, aquele que utiliza o transporte público, não passa. Algo fica depois de uma conversa rápida.


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Um dia movimentado. Um calor retado. Ainda mais que durante a noite tem aquele abafamento típico de uma cidade que transborda umidade, mas nem sempre humildade.

A hora de voltar para a casa é sempre a mais esperada, desejada durante as nove horas no trabalho. Mas existe sempre aquele ônibus cheio, aquele "buzu virado na porra", que a gente tem que pegar para voltar.

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Numa noite parecida com as tantas outras, esperei o ônibus no lugar de sempre. Ele, mais uma vez, veio cheio, mas tinha um lugarzinho livre na frente. Apressei os passos e entrei primeiro. O calor piorava lá dentro mas era lá que eu queria estar naquele momento. Alcancei o assento, sentei-me e disse "boa noite" para senhor ao lado. Ele me olhou com cara de surpresa boa e respondeu sorrindo. E seguiu falando: "você está certa. Dizer boa noite para a pessoa do lado é algo que eu nunca presenciei, mas é educado e gentil. Obrigado."

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A conversa não parou por aí. Eu nunca deixo ninguém falando sozinho e o senhor era tão simpático, comunicativo... Aparentava ter talvez uns 60 anos. Sua face magra combinava com os cabelos grisalhos e finos. — Verdade. — eu disse. E continuei: "costumo fazer isso, afinal, estou sentando ao lado de alguém que não me espera, que não me conhece, mas merece minha educação e respeito.

Ele me olhou ainda sorrindo e decidiu desabafar:

"bom encontrar gente assim. Sinto falta de conversar. Há alguns anos me divorciei e tive que sair de casa. Sinto saudade de minha filha, de minha ex-mulher. No bar, com os amigos, a gente ri, bebe umas cervejinhas, mas eles não estão ali para escutar os nossos silêncios, nem para entender o nosso vazio."

Seus olhos umedeceram. E os meus também. Para quebrar a tristeza naquele minuto, o perguntei se ele morava no mesmo bairro que eu e ele confirmou. Não me recordei de tê-lo visto nas ruas, nem nos bares lotados nas sextas.

Minutos depois, era hora dele descer do ônibus. Ele sorriu de novo e agradeceu pela conversa rápida. Então lembrei que não nos apresentamos e perguntei seu nome. — Antônio. E vc? — Disse ele, com o mesmo sorriso de quando sentei.

Respondi e pedi um abraço. Nos abraçamos e sorrimos. — Não vou esquecer deste dia! — Disse ele, sorrindo ainda mais. E desceu na penúltima parada antes do final de linha. Senti a triste ida de uma "amizade repentina". Frequentemente lembro do Sr. Antônio quando entro num ônibus. Mas as pessoas não se repetem.


Rosita Rose

No centro da noite, no meio de um sonho, num bate-papo. E não me bastam as palavras! .
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