dona efêmera e dona perpétua

Um olhar sobre coisas que passam e que ficam.

Rosita Rose

No centro da noite, no meio de um sonho, num bate-papo. E não me bastam as palavras!

Não é uma crítica à frieza médica. Mas é sobre atitudes humanas

Numa consulta médica nem sempre é só o paciente que precisa de ajuda.


IMG-20150425-WA0008.jpg "A decisão mais corajosa que você toma cada dia é de estar de bom humor." Foto retirada da internet

Um pouco de estresse, correria entre faculdade e estágio e a jovem de 24 anos acabou adoecendo. Febre, intensa fadiga, desânimo... Era um momento de muita dedicação e pressa. Ela, então, decide fazer uma consulta médica e sai numa daquelas manhãs calorentas de segunda-feira, ainda com febre e muito cansada. Inicia atendimento na recepção da clínica, que segue com o cartão do plano de saúde e a espera (sentada numa cadeira bem desconfortável) para ser atendida.

Um tempinho depois, a médica a chama em alto e bom som. Ela entra, diz “bom dia” e é recebida com um “bom dia” num tom grosseiro, meio impaciente.

- Tudo bem, menina? O que te trouxe aqui? – Diz a médica, com sua caneta e papel nas mãos.

- Tenho tido febre há mais ou menos uma semana, mas ainda tenho diarréia. – Diz a paciente.

- Perdeu peso?

- Sim, perdi.

- Tem que se alimentar! – exclama a médica, já gritando.

- Vou medir a tua pressão arterial – continua a médica clínica (que é também mastologista e ginecologista).

- Pressão baixa! Tá vendo?! Vou te passar uns exames e uns medicamentos. E quero que você retorne ainda este mês, ceeerto?! – Repetiu.

IMG-20151201-WA0002.jpg Foto retirada da internet

A jovem agradeceu e desejou um bom dia de trabalho para a médica. Mas enquanto caminhava, começou a pensar porque foi tão mal tratada por alguém que ela nunca viu, nunca fez mal. “Que mulher grossa... dura!” - Continuou pensando enquanto esperava o ônibus).

Em casa, enquanto marcava os exames por telefone, continuava lembrar do comportamento da médica; e como uma frase sussurrando aos ouvidos, ela pensava: aquela mulher não está bem. Eu poderia não voltar lá, mas... voltarei!

É chegado o dia da revisão médica e, ao ser chamada, a paciente entrou devagar, com sua bolsa no ombro direito. Nas mãos, um envelope branco e um incenso:

- Bom dia! Tudo bem? – Diz sorridente à médica.

E a médica, com seu ar sério:

- Bom dia. Tudo bem. E você? Fez os exames? Deixe-me ver.

- Fiz sim. Mas, antes de mostrá-los, quero te dar isto.

A médica a olhou surpresa e junto com um sorriso abriu o pacote do incenso.

- Hum! Incenso de sândalo! Eu adoro! Obrigada. – Disse ela, ainda sorrindo.

Em seguida é aberto o envelope. Ela lê em voz baixa e para de sorrir.

Um delicado silêncio é iniciado... A paciente quase se arrepende de ter incluído o bilhete. E pensa: “vixe! Poderia ter dado só o incenso. Talvez ela me odeie por isso.” A médica se levanta e, chorando, pede um abraço e diz: me desculpe. Eu realmente fui grosseira com você na primeira consulta. Não deveria ter sido. Estou muito estressada, com problemas familiares, que envolvem minha neta, que amo tanto. Muito obrigada por isso.

IMG-20170109-WA0084.jpg Cactus. Chapada Diamantina - Bahia. Foto: A. Giallanza "Pelo fato de os cactos armazenarem água (elemento que simboliza sentimentos e emoções) dentro do caule, o mesmo favorece aqueles que se defendem muito das próprias emoções." (descrição retirada da Internet)

A garota a abraça, aceita o pedido de desculpas e a médica finaliza a consulta dizendo que está ali para ajudá-la, que pode contar com ela. As duas sorriem e o clima é leve na sala fria da clínica.

No bilhete:

Acredito que a senhora não é apenas aquela mulher grosseira que foi comigo na primeira consulta. Provavelmente existem motivos (que desconheço) para ter me tratado tão mal. Espero que tudo se resolva. Lembre-se que senhora é bem maior do que isso, maior do que os problemas. E com certeza possui qualidades maravilhosas para espalhar para os outros, e sabe fazer sentir-se como um perfumado incenso, exalando coisas boas.


Rosita Rose

No centro da noite, no meio de um sonho, num bate-papo. E não me bastam as palavras! .
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