Nathalia Queiroz

Nada no óbvio me interessa.

Frágil algoz

Para além do real, virtual e ideal. Uma análise das questões levantadas no filme Her, do Spike Jonze, sobre para onde vão as relações humanas e como o homem vira refém dos universos que constrói para compensar suas fragilidades.


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Num domingo de uma ou duas semanas atrás, eu segurava uma Canon emprestada por onde capturei takes para meu primeiro trabalho como videomaker – área que tenho estudado em paralelo à fotografia, meu mais novo xodó. No display da câmera eu segui a busca por sorrisos espontâneos, abraços e conversas amistosas no meio de toda aquela gente bonita misturada em um descolado espaço de arte em Boa Viagem, Recife. A festa estava linda, a música era ótima e, quando eu não precisava manter meu corpo estável para evitar vídeos epiléticos, eu caminhava balançando cabeça e ombros guiados pelo setlist animadíssimo e de bom gosto incontestável. Fomos, eu e minha câmera, fugindo de qualquer obviedade e recortando o que fosse estilo e personalidade. Não raro, no meu display eu me deparava com pessoas dentro de seus próprios displays, imersas em um universo alheio aquela festa maravilhosa que estava prontinha ali, esperando para ser vivida, acontecida, sentida. Opa, mas porque aquelas micro telas pareciam mais atrativas que toda informação, possibilidade de diversão e gente interessante pra trocar uma ideia? Porque essa galera preferia se manter sozinha, murada em um universo virtual, em lugar de caminhar a esmo, balançando ritmicamente cabeça e ombrinhos, aberta a olhares cruzados e qualquer oportunidade de prosa real, dessas que envolve abraço, aperto de mão, trejeitos, delatar de intenções que o corpo emana? A quantidade de pessoas mergulhadas em seus smartphones, me privando de seus sorriso espontâneos, era bem representativa.

Nesse mesmo fim de semana, sexta-feira, eu tinha visto o novo filme do Spike Jonze: Her. Ele conta sobre um homem comum, desses que leva uma vida comum, um pouco solitária talvez, num tempo futuro de relações humanas cada vez menos espontâneas, que se apaixona pelo sistema operacional do seu computador – este munido de uma inteligência artificial, fruto de códigos de programação em lugar de sinapses, capaz de expressar emoções e trocar conteúdos com seu usuário de forma bem aproximada do que viria a ser o sensível humano. Nesse universo criado por Jonze, a vida real está completamente misturada à vida virtual. O filme transcorre num recorte de pessoas classe média, habitantes produtivos das cidades, que possuem um equipamento semelhante àquelas cigarreiras de metal, sendo que em lugar de rolinhos de nicotina, ao abrir a caixinha elas se deparam com um não menos viciante display que as transporta para outras realidades, seja o que for a ideia que se tem de real, irreal, virtual, e onde, com compulsividade e dependência, elas recorrem a todo momento, ou mesmo nem chegam a sair delas para precisar voltar.

No filme há cenas de pessoas caminhando pelas ruas, subindo e descendo escadas do metrô, em elevadores, pelas esquinas, todas dentro de suas cigarreiras displays conectadas a um fone de ouvido, através do qual conversam em voz alta, mesmo não havendo ninguém visivelmente à escuta, como se vivessem em uma população esquizofrênica, todos imersos em seus próprios ambientes virtuais. Vendo essas cenas do filme, lembrei quando eu vivia em São Paulo, há 1 ano atrás. Caminhando pela avenida Paulista, sobe desce vias de acesso aos metrôs, dentro dos próprios vagões ou nos corredores de espera, lembrei também do movimentadíssimo pico de almoço na avenida Floriano Peixoto, no bairro do Itaim, ou mesmo em lugares que propõem interatividade como bares, shows e baladas, em todos esses ambientes se faz presente o tal de brilhinho de displays de incontáveis smartphones pilotados por pessoas paradas ou em movimento, em grupo ou solitárias, todas, de instante em instante, mergulhando em seu conteúdo virtual como quem, por segundos, se ausenta do mundo em seus próprios pensamentos. Recortes incríveis de uma vida que não está sendo assim tão vivida enquanto montada para ser postada. Lembrei das pessoas em movimento, caminhando ruas cima abaixo, muitas delas com fones de ouvido por onde conversam com outras pessoas que fisicamente estão em outros lugares enquanto suas figuras solitárias transitam pelas ruas jogando palavras para ninguém. O cenário que descrevi não me parece nem um pouco distante do futuro projetado por Jonze. Tampouco impossível de acontecer.

Fico me perguntando porque os ambientes virtuais, que simulam uma realidade ideal por vezes, validam discursos nunca postos em prática por vezes, maquiam corpo e intelecto por vezes, porque esse mundo que se distancia do real, para além da sua virtualidade, nos rouba tanto tempo e atenção? E quando e se essa virtualidade passa a ser incorporada ao conceito de real?

A base das redes sociais virtuais são de criação e compartilhamento de conteúdo e validação ou condenação desse conteúdo pelos membros da rede. A imagem que criamos de nós mesmos é a extensão de tudo que gostaríamos de ser, para além de um registro do que efetivamente somos. Na rede, todo conteúdo que se coloca e a combinação entre eles constrói um discurso de imagem a ser interpretado pelos usuários dessa rede. Até mesmo os conteúdos mais despretensiosos montarão um discurso. Para os mais engajados com a manutenção da sua imagem, mantê-la atualizada e de acordo com o conceito de “legal” dentro do seu grupo social gera ansiedade e faz com que o usuário esteja sempre produzindo ou coletando conteúdos “legais” em busca de validação “curtidas” e isso vira um ciclo vicioso. Esse conteúdo pretende retratar um fato real, mas que normalmente está revestido de uma maquiagem (um filtro de instagram, por exemplo) que acentue seu apelo atrativo e garanta mais validações na rede – “curtidas”. Essas curtidas validam a representatividade do fato, agregando a ele valor. Então um fato real passa a ser “legal” a partir do momento que seu registro se enquadra nos parâmetros de “legal” ditados por determinado grupo social virtualmente. Esse conteúdo gerado no meio virtual passa a validar o acontecimento real. Aí que a coisa toda, entre real e virtual, se mistura gravemente e faz com que as pessoas, do mundo real, em tempo real, busquem validações no mundo virtual para o seu mundo real, ai que confusão! Mas é isso mesmo, todo mundo confuso e com um olho na vida e outro no tal display brilhante. E a internet, que deveria ser uma mera plataforma para intercâmbio de conteúdos, passa a ditar comportamentos escravizar pessoas ansiosas por curtidas que ratifiquem seu jeito real de ser.

Dia desses eu estava pensando sobre o capital, moeda enquanto conceito, valor e objeto. O dinheiro surgiu no mundo com a necessidade do homem de ter uma medida neutra de estipular valor e mediar trocas. Por exemplo: um cavalo vale quantos sacos de arroz? Se houver alguma grandeza neutra que estabeleça um valor pro cavalo e um valor pro saco de arroz, por exemplo, essa troca pode se dar com mais eficiência e se expandir para demais produtos. Então a moeda, a priori, deveria ser isso: uma grandeza de valor facilitadora no intermédio de trocas. Como objeto representante dessa moeda um determinado grupo social dominante denominou os metais preciosos: ouro, prata, bronze… Mas, o que faz desses metais algo precioso? A validação do homem que atribui, a esse metal, tal valor, e aceitação desse conceito por demais membros do grupo. Os critérios para propor esse valor podem ser os mais vastos a ponto de não interessarem nessa discussão, o que importa é a validação desse conceito e seguimos daí. Então se alguém diz que 1 moeda de ouro vale um cavalo e o dono do cavalo concorda, a troca pode se estabelecer. O cavalo tem utilidades como meio de transporte humano e de cargas além de, por sua utilidade, possuir um valor a ele agregado. A moeda tem a única utilidade de possuir valor agregado a ela, o que a possibilita virar outras coisas. Como se ela fosse o Curinga, dos jogos de cartas. Então recapitulando: uma pessoa dominante, dentro de um grupo dominante criou um conteúdo informativo de atribuição de valor a determinado bem que foi validado, aceito, curtido por demais membros desse grupo social e, por sequência, imposto aos grupos sociais dominados. Com o tempo, o valor agregado ao objeto passou a ser mais importante que o próprio objeto que foi sendo substituído por metais menos preciosos, depois papel, depois cartões com tarjas magnéticas que dizem conter determinado valor dentro deles, até o dia que o conceito em si se bastará como intermédio, desde que algum meio, documento, algo o comprove. Sendo assim o dinheiro nada mais é que um conceito de valor. E esse conceito, para além de estabelecer valores, não serve para nada e nem é, no sentido palpável e de objeto, real. Mas existe a partir do momento que um grande grupo social acredita nele e o valida. Então, por que muitas pessoas trabalham para acumular esse conceito em suas contas bancárias e, muitas vezes, não o transformam em bens e demais objetos que, além do seu valor agregado, possuam outras funcionalidades enquanto objeto real, palpável? E pior ainda, por que algumas pessoas estão dispostas a pagar valores muito acima do que determinado objeto vale enquanto utilidade, só por, a esse objeto, ter sido agregado valor – através da publicidade, por exemplo? E pior ainda ainda, por que o conceito de quantidade, acúmulo, por algum tempo de forma drástica como no período histórico mercantilista, mas que em certa medida se mantém até hoje, se tornou algo mais importante que o de utilidade visto que esse valor deveria só auxiliar trocas? Por que, no imaginário coletivo, as imagens de um barril de ouro no fim do arco-íris, um colchão de dinheiro, o cofre do Tio Patinhas tem muito mais valor que todos os produtos que esse dinheiro pode comprar juntos? Porque esse dinheiro representa o poder sobre todas essas coisas e, no mundo humano, ter o poder muitas vezes é mais importante que ter a coisa e isso se dá porque a característica mais essencialmente humana é a sua fragilidade e, em função dela que ele constrói todas as coisas inclusive os conceitos de poder e dominação. Ter poder é responsável por guerras, politicagens, explorações dentre outras arbitrariedades. A ideia se torna mais importante que o objeto. O discurso mais importante que o palpável. O conceito mais importante que o real a ponto dele validar esse real. Opa, chegamos no mesmo ponto do parágrafo anterior.

No mundo humano, vira e mexe os valores se invertem. E algo que deveria estar a serviço do ser humano vira seu algoz. Outro exemplo: o homem, por sua essência, como dito anteriormente, é um ser frágil e sua estrutura física comprova isso. Não temos garras, nem caninos afiados, nem pelos que nos protejam do frio ou couraça que nos proteja do sol. O ser humano, enquanto natureza, é um ser vulnerável. O principal recurso do bicho homem é a tal consciência, percepção de espaço e relações, o que se denomina “inteligência” e que nos diferencia dos demais animais. Fazendo uso dela, o homem foi criando recursos que o protegessem dos riscos da natureza. Assim os homens começaram a andar em bando, onde um protege o outro, depois montar tribos, depois essas tribos vão virando aldeias e o homem vai destruindo o que é natureza predadora e a substituindo por um ambiente que aparente segurança. Vai aprendendo a produzir coisas que antes extraía da natureza, como através da agricultura e da criação de animais em cativeiro. Esses grupos vão ficando maiores e precisando de líderes que estabeleçam ordens para que as atividades funcionem bem, esses líderes impõem regras, essas regras são seguidas em prol da manutenção da ordem nas aldeias que vão virando vilas, que vão virando cidades, que vão virando grandes cidades, até chegarem, nesse longo percurso, às megalópoles de estrutura complexa que fogem do poder do homem e ganham força por si, podendo, inclusive, ser agressivas ao próprio homem, seu criador. E o homem passa a produzir para a cidade, ter hábitos e estilos de vida que justifiquem a cidade, residir em ambientes que a cidade estabelece, de acordo com regras de poder aquisitivo, dentre outras propostas pela cidade. As cidades começam a assumir um crescimento próprio, fruto do trabalho do homem que já não sabe mais porque trabalha, e a se expandir sobre a natureza que, por mais ameaçadora que seja para o homem, ele precisa dela para sobreviver. Nas cidades, as noções de trabalho e capital começam a ser intermediadas de varias relações de poder e de valor que justificam existência de atos inescrupulosos de roubos e violência. E um lugar que, no inicio de tudo, deveria propor segurança ao homem, o obriga elevar muros de residências dentre outros recursos para que ele se proteja do próprio homem.

Um dia o homem montou a cidade para que, no tempo futuro, a cidade moldasse o homem. Um dia o homem inventou o conceito de valor para que, no futuro, o conceito de valor corrompesse o homem. Um dia o homem inventou a plataforma virtual para que, no futuro, ela escravizasse o mundo real do homem. O homem é seu próprio algoz ao virar escravo de suas criações.

Essa dinâmica humana vale para milhares de construções humanas, sobre as quais eu poderia decorrer infinitas linhas, tanto nos âmbitos coletivos quanto nos individuais. Um homem deprimido, por exemplo, ele inventa uma situação ideal onde, somente nela, ele encontrará felicidade e se martiriza por julgá-la inalcançável. Mas essa situação ideal é uma invenção humana, ela não existe pois o ideal jamais será real. O uso de roupas, por exemplo, que durante um tempo foi para proteger o corpo frágil do homem, foi virando utensílio de vaidade, depois utensílio moral, depois utensílio de valor, e por aí vai. As questões morais, por exemplo, de corpo, família, trabalho, tudo, até traição e fidelidade quando o homem, na justificativa do amor, quer ter o poder sobre alguém para além das vontades efetivas desse alguém, tudo invenção humana para justificar suas fragilidades que das quais, por fragilidade, ele vira escravo. Agora, munidos de todo esse substrato demasiadamente humano, voltemos às relações do homem com o mundo virtual, e ao filme Her, do Spike Jonze.

O homem inventou a plataforma virtual, inflou ela com personas que nada mais são que alteregos virtuais de personagens reais, com supervidas ideais e “legais” para serem validadas por seu grupo social virtual que é alimentado por um grupo social real. Por insegurança, fragilidade demasiadamente humana, o homem busca validação nesse mundo ideal, que ele mesmo inventou, para o mundo real, que ele efetivamente habita e que, de certa forma, ele também inventou. Assim como o homem fugiu dos riscos da natureza e construiu as cidades, ele segue fugindo, agora dos riscos das relações humanas para relações pseodohumanas. Assim como ele atribuiu valor a um conceito, ele atribui humanidade a um conjunto de códigos que simula uma humanidade para amenizar riscos. Uma psicótica busca por proteção e compensação de sua fragilidade que acaba transformando a vida em uma prisão.

Relações virtuais são muito mais seguras que relações reais porque o mundo virtual pressupõe um mundo ideal inventado pelo homem e alimentado como tal. E o que tem de mais seguras, tem de menos interessantes porque o interessante das coisas está relacionado justamente com o seu inesperado, com o imprevisto, o acaso. A felicidade está no surpreendente e isso é instintivo e inexplicável. É como se apaixonar. Mas para lidar com esse imprevisto o homem é frágil e relações de segurança sempre lhe parecerão convenientes e, na mesma medida, deprimentes. Nesse mundo contemporâneo seguro e solitário, cheio de relações virtuais e poucos abraços, a carência humana, vulverabilíssima, claramente o permitiria envolver-se com um protótipo ideal de humano que foi projetado para servi-lo e munido com alguma medida de sensível a ponto de sensibilizá-lo. Principalmente em um contexto de mundo onde o real e o virtual já está tão misturado.

Jonze foi bem inteligente no filme ao desenvolver um mundo para as consciências virtuais, com suas próprias leis e anseios. Como se o homem, brincando de Deus, tivesse criado um outro mundo autônomo. Uma consciência virtual onipresente que desenvolve outro tipo de relação afetiva podendo, por exemplo, estar apaixonada por 641 usuários e isso ser absolutamente normal na sua consciência de mundo, apesar absurdo para os padrões humanos de amor romântico.

Lembrar das pessoas na festinha descolada, todas dentro dos seus displays, em busca de validações virtuais que amenizem sua fragilidade real e lhe propicie relações extremamente seguras, apesar de não tão interessantes, e comparar tudo isso com o filme, dentro de toda essa conjuntura de construções humanas aqui descrita é uma coisa que realmente me deixa encucada para não dizer, preocupada.

Bicho homem, saia do seu muro de proteção, do seu montinho de dinheiro, dos seus displays o quanto antes. Isso é tudo uma armadilha que você mesmo criou num passado caduco, mas tão caduco, que essa memória se perdeu e você está aí, prestes a cair. Se eu estiver falando algum absurdo, me digam por favor.


Nathalia Queiroz

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