Dorothy has black shoes

Escritas remendadas, logo após o reino de Oz

Marisa

sonha em abrir uma livraria-chocolataria para que possa juntar os seus dois prazeres. E quer deixar impressões digitais de chocolate nos livros que mudaram a sua vida.

Chocolate, a quanto obrigas!


Há um vilarejo, a cerca de 100 quilómetros de Lisboa, polvilhado de açúcar medieval, chocolate romântico e doçura de lugar perdido no tempo. Com um charme ébrio, que faz com que a memória (praticamente infinita) da máquina fotográfica digital saiba a pouco. Óbidos faz chorar por mais.

1.jpg Apesar de encantadora, como só uma vilazinha dentro de muralhas sabe ser, Óbidos não é nenhum segredo bem-guardado por um punhado de sábios portugueses, que contam memórias em torno de uma lareira. Aliás, em certas alturas do ano, torna-se tão visitado que as ruas de pedra tornam-se estreitas demais, claustrofóbicas demais.

Mas aquelas ruas estreitas, causa de tantos encontrões e atropelos, são mesmo o principal motivo da minha paixão por Óbidos. Dentro das muralhas, abrigadas do vento e de um mundo exterior por vezes demasiado esquecido da própria história, as artérias da pequena vila são memória do Portugal dos reis. E depois, como é natural nestas vilas-museus, o histórico mistura-se com «para turista ver», em amálgamas tão adoráveis como impregnadas de um oportunismo a que fechamos olhos.

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Há três grandes eventos em Óbidos, por ano. Três ocasiões em que o Rei poderia sair à rua, se ainda vivêssemos em tempos de realeza. Mercado Medieval, Óbidos Vila Natal e Festival do Chocolate. Conheci a vila da minha perdição neste último. E, se fechar os olhos, ainda me lembro do cheiro a chocolate a cada passo. Óbidos é, definitivamente, um doce de Portugal.

A decoração apela aos contos-de-fadas. Telhados enfeitados com rebuçados e bombons, qual homenagem a Hansel e Gretel, esculturas de chocolate ao alcance dos dedos – mas que nunca chegarão a ser provadas por nenhum dos visitantes do evento. Mas, o que alimenta a gula e a criança em nós é a quantidade de doces que abundam, sem pedirem desculpa por desafiar de peito aberto a nossa vontade por uma dieta saudável.

Tentando enumerar, são demasiados pecados gastronómicos para ficar indiferente: pastéis de nata de chocolate, fondue de chocolate com frutos, queijo com chocolate, chocolate quente, pizza de chocolate, sangria de chocolate ou ginginha de Óbidos (o néctar dos deuses daquela terra) bebida em copo de chocolate. Só de pensar nas iguarias, a boca saliva sem controlo.

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Saio da porta das muralhas embriagada de chocolate, com a certeza de que tenho de voltar e apreciar, de novo, o vilarejo. Desta feita sem o odor a calorias, sem o atropelo dos turistas e o apelo dos vendedores. Desta feita sem as crianças de bocas besuntadas de castanho-viscoso. Desta feita, sem a máscara do turismo feito à medida para encantar. Sei que, mesmo nessa altura, deslavado de um dos eventos que mais visitantes traz às ameias de Óbidos, o pequeno vilarejo não me desiludirá. As árvores, cujos ramos parecem braços estendidos em orações aos céus, fazem-me a promessa de que Óbidos tem mais a mostrar do que é revelado numa caneca de chocolate a ferver.

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Fotos da autoria de João Pedro Lobato


Marisa

sonha em abrir uma livraria-chocolataria para que possa juntar os seus dois prazeres. E quer deixar impressões digitais de chocolate nos livros que mudaram a sua vida..
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