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Amanda Maciel Antunes

Uma estrangeira em terra de estrangeiros. Contadora de histórias. Artista. Figurinista. E cheia de vida. De esperança. De um monte de bobagens também.

A Realidade Cíclica: Um estudo literário de Vidas Secas e Vinhas da Ira

Os dois romancistas revelam a verdade rude, vigorosa e familiar a todos nós.


“Estamos todos morrendo de miscelânea.” - Ralph Waldo Emerson

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Uma obra literária não é criada no vácuo.

A importância dos fatores socio-econômicos na determinação do tipo de literatura produzida em uma certo período não podem ser negados, apesar de algumas instituições bem como alguns críticos individuais insistem em ignorá-los. É claro que durante a avaliação de uma obra de arte, considerar a estética deve e pode ser primordial, mas nunca devem ser os únicos elementos a serem considerados. A questão pela qual a literatura realmente depende das suas configurações sociais é complexa. Portanto abrangida em obras literárias por muitos anos.

Como por exemplo, um dos romances mais famosos e uma obra de gênio do Brasil, Vidas Secas por Graciliano Ramos, possui temas comuns como: o conflito contra as forças superiores, tanto naturais e sociais, a fome, a vontade de sobreviver, a luta de classes, um tema comum no romance proletário. Esses mesmos temas são claramente enfatizados num outro romance, porém Americano, tão quão famoso, de John Steinbeck chamado Grapes of Wrath (As Vinhas da Ira).

CapaOs dois romances foram publicados no final da década de 30. Ambos foram transformados em obras de arte no Cinema: Vidas Secas por Nelson Pereira dos Santos, em 1963; As Vinhas da Ira por John Ford, em 1940. Embora os dois autores retratam a luta de classes e alertam contra a exploração dos ricos sobre os pobres, os dois chegam a concluir que a culpa pode estar no próprio sistema. Ambos retratam a família viajando, o naturalismo, as questões sociais, a narrativa cíclica e o romance comovente. Ambos contribuíram para uma ampliação do conhecimento dos homens além do alcançe da experiência do próprio leitor.

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Admitindo a dificuldade, ou mesmo impossibilidade, em determinar o grau de dependência da literatura sobre a sociedade não é o mesmo como negar a mesma. Obviamente, nem todos os romancistas da década de 1930 escreveram sobre protesto sociais, mas esta, sem dúvidas, era a dominante forma literária da época. O mais curioso é que politicamente e economicamente o Brasil estava cerca de cinquenta anos mais atrasado do que os Estados Unidos e, como conseqüência, o início do século XIX retrata os escritores brasileiros tentando criar uma "literatura nacional" que seria diferente da portuguesa. Eles se voltaram ao teatro, poesia, e exploração de alguns temas comuns: a exaltação do brasileiro, cenário natural, a utilização de materiais indígenas, o índio, o uso do passado histórico, o romance teria um papel importante no esforço patriótico em criar uma literatura nacional.

200px-JohnSteinbeck_TheGrapesOfWrath.jpg Steinbeck promoveu a idéia de que uma revolta proletária seria o época em que "As Vinhas da Ira" (Grapes of Wrath) seriam pisadas e a justiça realizada. Em outras palavras, aos olhos de Steinbeck a vinda de Deus traria justiça ao proletariado. Enquanto que em Vidas Secas a família revela o conhecimento do inferno através do filho curioso e de Vitória que diz: "Deve haver um lugar para nós no mundo de Deus".

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Para Graciliano Ramos, a esperança permanece intacta, com um revolucionarismo, embora embrionária, revelando num momento de claridez a força humana a qual pertencem, fundidas numa força indestrutível. Enquanto Steinbeck diz que as pessoas devem unir-se e com isso o começo do ‘Nós’ tomaria o lugar do “Eu”.

Por fim, os dois romancistas revelam a verdade rude, vigorosa e familiar a todos nós. Mas eles insistem, também na dura realidade que os rebeldes gostam de desafiar. Que a lei de Causa e Efeito, que o trabalho com garras e dentes, não podem ser evitados. Que o definitivo não é o bastante. Que a verdade entre nós ainda não foi encontrada. Que todos os sonhos que contam são inesperadamente práticos. Que a constante tensão humana entre destino e justiça é também a nossa realidade cíclica. Porém, estranhamente cheia de esperança.


Amanda Maciel Antunes

Uma estrangeira em terra de estrangeiros. Contadora de histórias. Artista. Figurinista. E cheia de vida. De esperança. De um monte de bobagens também..
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