doze

o nome de uma história comprida que não se explica em poucas palavras

mónica aresta

escrever simplesmente pelo prazer de juntar as palavras

Saudades

A falta daquilo que se não viveu. Ou o desejo daquilo que nunca se experimentou e que, permanecendo por saber, vai ganhando espaço naquilo que se é.


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Tenho saudades do tempo em que as palavras me saíam como chuva em dias cinzentos. Do tempo em que olhava para fora e os olhos se perdiam no espaço, sem me preocupar com o tempo e o caminho que demorava para regressar.

Saudades desses dias, dos dias bons, em que o vermelho sabia a cerejas e o azul não era mais que a cor mais bonita do mundo. Do tempo em que ainda faltava tempo, em que o relógio era um adereço que eu não usava e os livros - mais do que trazerem as letras dos outros - se enchiam das minhas letras e das minhas próprias histórias.

Saudade infinita desses tempos. Quando pensava "e se?" e me divertia com a ideia de que, se me apetecesse, podia virar à direita ou à esquerda e seguir por uma estrada que não tinha escolhido. Saudade do imprevisto? Não. Saudade da possibilidade. Da possibilidade de poder ser, de poder experimentar, da sensação de poder descobrir o que já todos tinham descoberto mas que eu - na entrada daquilo que é possível - sabia que ainda me faltava conhecer.

Nada me prende. Nada me constrange. Nada me ata.

Falta-me apenas a força. E sobra-me a saudade.


mónica aresta

escrever simplesmente pelo prazer de juntar as palavras.
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