doze

o nome de uma história comprida que não se explica em poucas palavras

mónica aresta

escrever simplesmente pelo prazer de juntar as palavras

do cheiro a ria e aos bolos de limão

Não consigo conceber o que seria a vida sem memória.
A memória, essa entidade, a nossa identidade e registo, aquilo que nos coloca no aqui e no agora tendo como referência um antes e um outro lugar. Aquela que nos transporta. Que nos eleva. Que aviva em nós memórias das coisas que foram e daquelas que poderiam ter sido.


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Às vezes basta um cheiro. Um som. Ou um sabor...

As memórias da minha infância têm um cheiro a ria e a bolos de limão. E a fogo a estalar na lareira, feita no chão da casa do meu avô.
Entre um "já vou" e um "espera um pouco", um cheio a sopas de café e pão, memórias da minha tia num escuro de madrugada, antes das saídas - minhas e dela - para o trabalho da distribuição do pão.
E sempre, a todo o instante, a memória que é presente do presente de todos os dias: o aroma da minha filha, feito de cheiro de coisa boa.


Há dias, já não me lembro bem do quando ou do onde, alguém informava que Gabriel Garcia Marquez não voltaria a escrever: perdeu a memória, segundo dizem. Não voltará, nem hoje nem nunca, a escrever as histórias que (decerto) fazem parte das histórias de muita gente.

Confesso – vergonhosamente e com grande vergonha – que nunca li um dos seus livros. Nunca conheci uma história sua. Nunca corri, com os olhos e num discurso mudo, as ideias e as fantasias que encantaram todos os que o leram.
Mas, naqueles segundos em que a notícia era escutada e se guardava naquele lugar do cérebro onde as memórias se refugiam e dançam, olhei para mim - para o meu presente e passado, e para o futuro que ainda não sei e que por isso ainda não guardo – e pensei que, tão triste quanto a própria morte,
é o desaparecimento deste pedaço que vive nas nossas lembranças.


[este é o meu post número doze, o mesmo nome do blog. permitam-me, por isso, que o use para trazer à memória - à minha e à de outros tantos - aqueles instantes do antes que, ainda hoje, fazem parte daquilo que sou ]


mónica aresta

escrever simplesmente pelo prazer de juntar as palavras.
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