doze

o nome de uma história comprida que não se explica em poucas palavras

mónica aresta

escrever simplesmente pelo prazer de juntar as palavras

Eu e o palco

Percebo perfeitamente o que dizem quando dizem que o palco transforma-nos, que no palco somos outra pessoa ou, ainda, que quando saio daquele chão de madeira e suor volto a ser eu. Porque também já experimentei isso.
Ainda que tenha sido (apenas) em peças de escola.


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Há qualquer coisa nos palcos que me atrai.
Não sei se é o cheiro a madeira, a cera, se é das luzes, do som oco dos passos, de ter uma plateia inteira (e de preferência vazia) à minha frente, mas o certo é que os palcos me atraem desde pequenina.
Experiência de palco tenho pouca, e mesmo assim essa pouca pouco é mais que umas quantas representações em festas de escola.
Mas, mesmo essas – num palco que não cheirava a madeira, a cera, e que não tinha uma plateia vazia – tornaram-se momentos de liberdade que são, ainda hoje, impossíveis de esquecer.


Quando se sobe a um palco ganha-se uma liberdade de acção, de discurso, de atitude e sentimento que na maior parte das vezes não é possível na vida real.
O palco, enquanto ambiente circunscrito a uns metros e contextualizado a um tempo definido, torna lógico o comportamento e a expressividade mais dissonante.
No palco poderia dizer “queria que todas as pessoas desaparecessem e me deixassem só, comigo e com eu mesma”, que ninguém viria perguntar se eu estava bem, a quem me referia em particular ou pedir desculpa por não terem reparado nos meus problemas.

Porque às vezes não os há.

Às vezes apetece, apenas, inventar diálogos e conversas que só existem na imaginação, que não são auto-retratos nem resultado de uma análise profunda e introspectiva.
Apetece fingir que se é outra pessoa apenas pelo prazer que tiramos disso, sem estar a tecer qualquer crítica ou a mostrar, representando, que não se está bem com aquilo que se é.


Imaginar.


Falta-nos imaginação.
Falta-nos, sobretudo, acreditar nessa capacidade que tínhamos em pequeninos e que o tempo e o crescimento se encarregou de desvalorizar.

Deve ser isso que me atrai no palco - no palco em si, não na ideia de palco.
Porque no palco posso declamar a balada da neve; posso ser bailarina, fazer uma pirueta e abraçar-me enquanto faço uma vénia, e não correr o risco de receber, no final, o sempre e eterno comentário “tu não és assim”.
Porque há o palco, e há a vida.

E isso faz toda a diferença :)


mónica aresta

escrever simplesmente pelo prazer de juntar as palavras.
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