doze

o nome de uma história comprida que não se explica em poucas palavras

mónica aresta

escrever simplesmente pelo prazer de juntar as palavras

Cinco cartas a Pessoa (I)

"Sou como alguém que procura ao acaso, não sabendo onde foi oculto o objecto que lhe não disseram o que é. Jogamos às escondidas com ninguém. Há, algures, um subterfúgio transcendente, uma divindade fluida e só ouvida"
(Fernando Pessoa / Livro do Desassossego de Bernardo Soares)


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É final de dia e estou cansada, Fernando.

Refugio-me por instantes num daqueles que foste tu: não o Alberto, o Ricardo, ou mesmo o meu adorado Álvaro, mas naquele em que (pelas voltas e desfamas da escrita) só tão tarde te encontrei - Bernardo, nascido da segunda letra de um alfabeto de vinte e seis, fazendo-se em frases e sonhos um novo "eu/tu" que me conquistou em duas páginas.

Porque não te chamaste apenas Pessoa? Porque não fizeste as coisas mais simples? Porque te dividiste em cinco ou mais (quem sabe quantos de ti se escondem nas sombras de letras ainda não encontradas), evitando - nessa partilha feita antes da morte - a revelação inteira daquilo que eras?
Assustava-te a ideia? Sim, porque assinar com o próprio nome - sinto-o, eu que ainda

"Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada
"

- é revelar ao mundo a essência da própria nudez.

Mas espera... estou cansada. E, por isso, confundo. Porque tu, Fernando, ainda que trajado de outros - porque de outros o nome tomaste - fizeste-te nu escrevendo (em ti e nas tuas folhas) as diferentes pessoas que és.

Deixa-me descansar, então. Preciso desse descanso.
De tudo, do mundo, de mim.

Compreendo-te, por fim.
Nos nomes que tomaste - e que conheço e amo sem os ter estudado, num afecto que vem da alma e não segue método ou modelo de análise - compreendo o desejo de descanso, de pausa, de liberdade. De intervalo de ti e da vida que apenas se pensa mas que não se controla nem se decide, mas que se desenha em cada linha que nós mesmos (e os outros e o Outro) esboçamos nas folhas que compõem o grande livro em que vivemos.

Escrever-te-ei, então, mais tarde. A ti... não aos outros que foste tu.
Porque é no teu nome que sonho e é com as tuas palavras que jogo quando a vida, ou o cansaço (aquele que tu, em Álvaro, descreveste tão bem), ou mesmo as curvas da estrada que ainda não tracei, me fazem parar para pensar, sentir, e conhecer

- por ti, contigo e em ti -

as pessoas que ainda não sou.

.

("Cinco cartas a Pessoa" - textos escritos a partir de passagens do "Livro do Desassossego", de Bernardo Soares. Passagens ao acaso que despertam emoções que, se não escritas, se desfazem no mesmo instante em que são sentidas)


mónica aresta

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