doze

o nome de uma história comprida que não se explica em poucas palavras

mónica aresta

escrever simplesmente pelo prazer de juntar as palavras

detalhes

Há pouco, bateram à minha porta. Era uma senhora já de idade, rosto queimado pela idade e pelo trabalho da terra. "Passou por mim e não me saudou", disse. E eu fiquei a pensar, até agora, no significado que podem ter gestos que - para nós - poderão não ser mais do que sinais de boa educação.


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Passo por ela todos os dias, quando levo a minha filha à escola. É velha (agora usa-se "idosa", ou "sénior"), mas não quer assumir que o é. Diz que "velhos são os trapos", recusa-se a que a tratem como alguém que tem 83 anos. Sente-se nova, tem a força dos novos, por isso é nova.
Trabalha de sol a sol, e é nisso mesmo que a vejo todos os dias: enxada na mão, chapéu de palha e lenço a proteger a cabeça, vestida de negro e curvada sobre a terra que sempre conheceu e que ama como poucos a saberão amar.

- "Passou por mim e não me saudou", disse-me.

Primeiro não percebi, ainda absorta na tarefa que aquele bater à porta interrompera. Depois tentei explicar, dizer que estava com pressa, que já era tarde, e que por isso mesmo não tive, como costume, o gesto de levantar a mão em dois segundos que - para mim - se esquecem no virar da curva.
Não me quis ouvir. Não querendo ouvir as minhas explicações, quis antes que entendesse as dela.

- "E eu vim cá... porque quando passou eu não levantei a cabeça, mas foi porque com o sol não a vi, e depois fiquei a cismar que se calhar tinha ficado zangada por causa disso. Mas olhe que não vi mesmo."

Disse-lhe que não, que estava mesmo com pressa, que não me zangara ou ficara aborrecida.

- "Pronto, então" - disse-me por fim, com um sorriso que lhe trouxe (ainda) mais rugas ao rosto - "É que todos os dias a vejo, a si e à sua menina... e quando me diz bom dia eu fico assim com uma coisa que nem sei. Olhe, fico mais leve, a enxada nem pesa".


Fechei a porta, voltei ao meu mundo, e fiquei a pensar.

Todos os dias temos gestos que, para nós, são parte de uma rotina; outros ainda, sombras de uma educação que vem de trás, ou manifestações de uma forma de ser que desenvolvemos ao longo do tempo.
Gestos, apenas. Um bom dia, um obrigada, um dar lugar num autocarro.
Gestos que nos apaziguam, que nos deixam aquele lavar de consciência, aquela sensação de que se não melhorámos o mundo, pelo menos não o deixámos pior.
Civismo, dizem uns. Educação, dizem outros. "Uma coisa que nem sei", disse aquela senhora que se sente nova.
Gestos simples e desprendidos que, ainda que não o saibamos, podem fazer a diferença para um outro alguém.

E fiquei a pensar que, na verdade, a vida está nos detalhes. Nos pedacinhos de nada e de tudo, nas intenções que podem nem passar disso, nos gestos e nos olhares mais simples.
A vida pode estar num "bom dia".
Ainda que seja breve. Ainda que se desvaneça na curva.
Um "bom dia" que, sendo quase nada, significa quase tudo.



mónica aresta

escrever simplesmente pelo prazer de juntar as palavras.
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