doze

o nome de uma história comprida que não se explica em poucas palavras

mónica aresta

escrever simplesmente pelo prazer de juntar as palavras

despertar

Gosta de acordar cedo. De vaguear pela casa, em silêncio, enquanto os outros dormem, num sossego que até pode não ser paz...
mas que lhe deixa, na alma e no corpo, a sensação que ela e o mundo são um só.


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Acorda cedo, um pouco mais que os outros.
Sem empurrões, sem obrigações. Porque gosta e quer, porque sabe bem.

Recebe da casa os primeiros sons e cheiros, aqueles que se criam e guardam no escuro da noite, e que só o primeiro - aquele que decide que o quer ser - tem o direito a receber.
Um sussurro de pés descalços, sombra escondida nas sombras, cheiro misturado no cheiro.
Um "eu" invisível, ainda que por um instante.

O café cheira a grão e água, o pão a trigo e ao trabalho daqueles que acordaram (muito) antes de si: sabe a sono que foi pequeno, às mãos que o amassaram e ao fermento que o fez crescer.

A casa ainda dorme o sono que os outros dormem.

Está frio.
Aquece um pé no outro, dedos contra dedos;
fecha os olhos e respira o fumo feito de cheiro escuro que o café lhe oferece como um segredo.
Ela, o mundo, pouco ou nada mais.
Uma comunhão única embora diária.
Um momento só, parado num espaço e num tempo que lhe pertence.

Aos poucos, a casa acorda.

Arruma a chávena, alisa a roupa, prepara a mesa para os outros seres cujos pés - dali a pouco - correrão no mesmo chão que por momentos foi só seu.
Nos dois segundos que separam a mulher-só da esposa, da filha, da mãe, atira o olhar pela janela e recebe, como uma oferenda, aquele instante em que o mundo ainda lhe pertence.

O dia começa.
Mais uma vez.
E - apesar de gostar do cheiro do silêncio e do som da casa que ainda dorme - sorri.
E isso é bom.


mónica aresta

escrever simplesmente pelo prazer de juntar as palavras.
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