doze

o nome de uma história comprida que não se explica em poucas palavras

mónica aresta

escrever simplesmente pelo prazer de juntar as palavras

Numa noite igual às outras

Quando as luzes se apagam e a casa dorme, veste-se de silêncio e pisa, ausente de sombras, o caminho que a separa daquela que ainda é.


noite.jpg


Numa noite igual a tantas outras levanta-se baixinho,
afastando sem um ruído o sono que ainda não dormiu.
Percorre a casa em silêncio, de olhos fechados,
sorvendo de cada porta entreaberta
o respirar leve dos sonhos de quem já descansa.

Precisa de si. Precisa de ser.

Recolhe em gestos lentos um livro aberto e embrulha-se,
no tempo de um sopro,
na manta que cheira a quem ama.

Respira. Inspira.
Sonha. Sonha-se.

E por breves instantes, tão breves que quase não são,
passa a mão pelo rosto numa memória antiga que a leva ao tempo
em que o eu era tudo, e o nós uma ideia em que ainda não pensava.

Do quarto chegam os murmúrios que o silêncio torna maiores.
O momento passou.
Num tempo mudo de sons,
atravessa os metros que vão d'ela-eu a ela-nós e procura, com um pé,
o calor quente do corpo que dorme tranquilo.

Sorri.
E adormece em paz.


mónica aresta

escrever simplesmente pelo prazer de juntar as palavras.
Saiba como escrever na obvious.
version 2/s/recortes// @obvious, @obvioushp //mónica aresta