doze

o nome de uma história comprida que não se explica em poucas palavras

mónica aresta

escrever simplesmente pelo prazer de juntar as palavras

O homem que desaprendeu a falar

O alfabeto tinha vinte e seis letras, o teclado mais de cem.
Entre o primeiro e o segundo, escolheu o último. E a sua vida virou texto.


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Esta é a história do homem que um dia se fechou em casa.
"A vida não está para passeios", dizia entre dois posts.

Sentado à secretária, escrevia.
As palavras saiam-lhe dos dedos como outrora lhe escorriam dos lábios: a mesma verve, a mesma vida, a mesma ironia. Agora letras, antes sons.
Fez amigos - mais de quinhentos.
Seguido por mais de mil pessoas, nunca se mostrou a nenhuma.
Deixou de abraçar. Passou a interagir.

Os sorrisos? Smiles. As gargalhadas, LOLs.

"Brilhante", diziam. "Sensível", afirmavam.
As suas frases tornaram-se célebres. Os seus poemas, citados por muitos.
Foi nomeado por quem nunca o viu, ganhou prémios que nunca saiu para receber.
Todos lhe conheciam o estilo, ninguém lhe sabia a voz.
Escreveu cartas - muitas.
Os seus poemas despertaram sorrisos. Os seus textos, lágrimas.
Os seus livros - dizem - luz.

Um dia morreu. Sentado à secretária, parou de escrever.


No seu funeral, ninguém.
Mas, na rede azul, a notícia da sua morte foi partilhada por todos.


mónica aresta

escrever simplesmente pelo prazer de juntar as palavras.
Saiba como escrever na obvious.
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