doze

o nome de uma história comprida que não se explica em poucas palavras

mónica aresta

escrever simplesmente pelo prazer de juntar as palavras

meu pé de laranja nêspera

Ou como as crianças, na sua forma de amar e de sentir, nos ensinam - a cada dia, em cada momento - que há coisas que estão além daquilo que os nossos olhos são capazes de ver.


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"- Mãe, mãe! Anda ver a minha amiga árvore!"

Quando a Mariana nasceu, plantámos uma oliveira no jardim.
Uma árvore pequena: um tronco fino, meia dúzia e mais três folhas. Imagem daquela pequena vida que nascera.
Símbolo da paz que ela - a filha - nos trouxe, legado para um futuro que esperamos e desejamos belo.
Rodeada de árvores plantadas antes do nosso tempo, cercada por outras que - por nós plantadas - trouxeram histórias por outros vividas e fazem parte da história que agora é a nossa, cresce ao seu ritmo, acompanhando nesse crescer lento e firme a vida daquela cuja vida celebra.

[sinto que se cada planta e cada árvore deste jardim falasse - ou se as soubéssemos ouvir - teria uma história única para contar. nas raízes que se entranham na terra e que dela tiram o sustento, guardam a memória de quem esteve e já partiu. numa vida que é mais longa que a nossa vida, as árvores permanecem.
chorarão - as árvores - ao perceber que ficaram sós?]

O meu jardim - onde a oliveira e outras árvores crescem ao ritmo dos anos - é o reflexo do amor daqueles que o trataram. Dos que alisaram a terra, dos que se curvaram para plantar cada pé que hoje cresce, dos que podaram, dos que amaram. Sinal vivo e verde de vidas que fazem parte da nossa.

Há dois anos, um dos que amava as árvores e as tratava como se fossem parte de si partiu, deixando-nos e deixando-as assim, num repente, sem aviso.
Num momento estava. No outro, não.
E as árvores que amava e que o amavam - certezas do coração - choraram e não deram fruto. Fecharam-se em si, despidas, tristes da dor que não podiam gritar.


Quando a Mariana nasceu, plantámos uma oliveira no jardim.
Mas essa árvore - e é aqui que as coisas se misturam e o coração se acelera - não é aquela a quem chama amiga.
A sua - a sua - é a nespereira que o avô plantou. A árvore que nunca (nem antes nem depois) deu fruto. A árvore que - antes e depois - esteve quase a ser cortada.

Nas voltas que a vida e as almas dão, aquela árvore - folhas feias, tronco tosco - ganhou estatuto de amiga. É perto dela que brinca, é a ela que conta segredos e distribui afagos. Dá-lhe abraços; conta-lhe coisas.

E, por uns instantes - que se repetem de cada vez que a vejo sentada debaixo da sua sombra - gosto de pensar que as árvores têm alma, feita da sua vida e da vida daqueles que viveram junto de si e as amaram como parte da própria vida.


Aquela árvore poderá nunca dar fruto. Poderá nunca dar flor.
Mas nunca - nunca - será cortada.


mónica aresta

escrever simplesmente pelo prazer de juntar as palavras.
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