doze

o nome de uma história comprida que não se explica em poucas palavras

mónica aresta

escrever simplesmente pelo prazer de juntar as palavras

(re)começar

Porque é da terra que nascem todas as coisas


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Eu costumava pensar que quando morresse
a minha alma se elevaria aos céus
e que seria uma espécie de pássaro feito de nuvem e de raios de sol.

E costumava pensar que, quando me tornasse pássaro e nuvem e sol,
o meu corpo viajaria para outro espaço e outro tempo,
e eu não seria mais quem era mas quem ainda poderia ser.

Eu costumava pensar que quando o tempo e o espaço não existissem
e eu pudesse ser tudo o que ainda não fora,
teria finalmente a oportunidade de (re)começar o caminho por outro eu iniciado
e poderia, finalmente, construir o que noutro eu eu desejara ter construído.

E pensava que quando recomeçasse e me sentisse envolto
na força de quem é de novo,
correria o mundo e o Mundo e deixaria em cada canto da terra que não é plana
a marca de quem sabe fazer diferente.
Eu costumava pensar que quando chegasse lá, saberia.

Mas parei de viver. E o meu corpo descansa numa simples caixa de madeira.
A minha alma não se elevou, não sou pássaro nem nuvem,
nem mais do que um dia fui.
Sou um corpo, só.
Num espaço e tempo que – diferente - é apenas o mesmo.
O caminho interrompeu-se, o que não fiz ficou por fazer.
Não recomecei, não correrei mundo nem Mundo,
e a única marca que deixo cabe num espaço com um e meio por dois metros.

Três metros quadrados.
Apenas isso.
Onde um dia depositarão flores.
Do qual um dia se esquecerão.

E quando todos se esquecerem, as ervas e os bichos tomarão conta desses três metros quadrados de espaço que ainda será o meu.
E as pedras cobrir-se-ão de esquecimento.
E o tempo passará.


E, quando tudo passar,
talvez aí...
eu poderei (re)começar de novo.


mónica aresta

escrever simplesmente pelo prazer de juntar as palavras.
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