doze

o nome de uma história comprida que não se explica em poucas palavras

mónica aresta

escrever simplesmente pelo prazer de juntar as palavras

[daquele desejo de querer ser]

Há dias estranhos, em que desejo (por instantes) que o meu corpo e o meu pensamento se dissociem e, por obra e graça de alguém ou algo que não entendo, recebam e se entreguem a outro outro que passe a ser eu


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Nesses dias, penso no que seria esta pessoa que hoje sou se, num ou outro momento, frente a uma ou outra decisão, tivesse optado por um caminho diferente daquele que decidi percorrer.
Se tivesse ido morar para outra terra.
Se tivesse feito outros amigos.
Se tivesse encontrado outra metade que não aquela que hoje me completa.

É nestas alturas que me imagino outra. Que me deixo levar e penso em quem seria se, no lugar de ter nascido onde nasci, o meu corpo e a minha alma se tivessem e encontrado num outro espaço deste imenso mundo.

Seria eu doce (dizem), se o meu grito de nascimento fosse só mais um no meio dos gritos dos que fogem da guerra?
Seria eu esta criatura inquieta que deseja ser mais, se tivesse crescido entre redes e peixes, ou terra e arado, se a linha do meu horizonte fosse a do mar revolto ou da terra que tem de ser amanhada?
Tivesse o meu primeiro livro sido outro que não Eça, tivesse eu ouvido música que não a por outros escolhida, tivesse eu tido palco e pano e uma plateia cheia de gente... tivesse eu lido menos livros, imaginado menos mundos, beijado outros rostos... até onde teria ido?
Seria eu ainda eu, ou um outro de todos estes eus com que sonho em dias estranhos?

Defeito de quem pensa demais. Virtude de quem chora de menos.

Chove. Na janela, a gota que descia lenta ganha força com as gotas que encontra e às quais se junta pelo caminho.
Sigo a gota que já não é a mesma.
E penso nisto tudo, inspiro fundo...
e saio para comprar castanhas.



mónica aresta

escrever simplesmente pelo prazer de juntar as palavras.
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