solaris: o planeta vivo de stanislaw lem

Stanislaw Lem não foi só um dos grandes nomes da ficção científica, foi também o filósofo que fundiu a esperança no futuro com a amargura da experiência humana nos romances que escreveu. Publicada em 1961, "Solaris" é uma das suas obras máximas, escrita e pensada para servir de travão à euforia que as conquistas espaciais da época suscitavam.


Solaris Planeta.jpg O planeta Solaris na versão cinematográfica de David Soderbergh (2002)

Existem segundas hipóteses? É possível emendar no presente o que o passado quis selar como definitivo, reescrevendo-o de forma diferente? E não será este desejo, o de voltar atrás para refazer, uma assombração que nos persegue, mesmo que disfarçadamente? Estas poderiam ser as grandes questões levantadas em Solaris, um dos grandes romances de ficção científica da literatura do século XX, publicado pelo escritor polaco Stanislaw Lem em 1961, o ano em que o cosmonauta Yuri Gagarin se tornou no primeiro homem a ir ao espaço. Se nos colocássemos no lugar do protagonista da história, o psicólogo Kris Kelvin, talvez fizesse sentido estas interrogações, mas a verdade é que Solaris ambiciona ir mais longe no que respeita a expor as nossas fragilidades enquanto humanos.

Enquanto Gagarin (filho de humildes camponeses soviéticos) perfazia uma órbita ao nosso planeta e nos avisava, via rádio, que “a Terra é azul”, o sentimento de que o impossível estava ao alcance da mão humana tornava-se mais forte do que nunca. Acontece que Lem estava bem ciente das nossas limitações: “O Homem lançou-se à procura de outros mundos e outras civilizações, sem antes ter explorado o seu próprio labirinto de caminhos sombrios e câmaras secretas e sem descobrir o que há para lá de portas que ele mesmo selou”, escreve no livro. É precisamente a partir deste ponto de partida que toda a trama se desenrola, direccionando o leitor para a ideia central em torno da qual gira a obra: a comunicação entre humanos nunca é completa e revela-se imperfeita e inadequada, pelo que não é de estranhar que não sejamos capazes (jamais?) de compreender e estabelecer qualquer tipo de ligação com outras espécies, mesmo as que existem fora da Terra.

Stanislaw Lem.jpg Stanislaw Lem (1921-2006)

Apesar de se ter doutorado em medicina, Lem nunca chegou a exercer a profissão, tendo trabalhado como mecânico durante a Segunda Guerra Mundial, escondendo a sua ascendência judaica do invasor nazi graças a documentos forjados (a blitzkrieg de Hitler tinha conquistado a Polónia em 1939). Nesse período conturbado da história mundial, e sem que ninguém notasse, o jovem mecânico lá ia conseguindo sabotar veículos alemães, sem levantar suspeitas. Finda a guerra, entre 1946 e 1949 envolveu-se em diversas pesquisas na área da psicologia, e aquilo que testemunhou exerceu sobre ele uma tão grande influência que o fez vivenciar uma fase de transição. Como resultado, decide tornar-se escritor profissional, usando a ficção científica como pano de fundo para explanar as suas visões filosóficas.

A esperança no futuro esbarra na amargura do passado

Solaris torna-se no seu primeiro grande sucesso, uma mistura única de esperança no futuro – das maravilhas que nos espreitam lá ao longe, escondidas no enorme espaço escuro – com a amargura da experiência humana. Tudo começa quando um grupo de cientistas, a bordo de uma estação espacial, examina o enorme e enigmático oceano do planeta Solaris. Durante muitos anos, as investigações feitas à sua superfície mostraram-se inconclusivas, limitando-se a registar o que parecem ser ondas, só que estas comportam-se de forma estranha e bizarra, de um modo nunca antes visto, quase como se tivessem vida própria. Na verdade, ninguém conseguia compreender o que estava a acontecer, embora no fim do livro se tenha descoberto que eram o equivalente a contracções musculares.

“O Oceano vivo estava activo. Não, é certo, segundo os padrões humanos – não construía cidades ou pontes, nem manufacturava máquinas voadoras. Não tentava encurtar as distâncias, nem se interessava pela conquista do espaço (o padrão máximo, pensavam alguns, da superioridade humana). Mas vivia num eterno processo de transformação.” Perante esta nova realidade, e incapaz de a compreender, por ser tão diferente de tudo aquilo que viu ou experienciou na Terra, o ser humano claudicava. Era este o seu limite.

Capa do livro.jpg

Kris Kelvin, a personagem principal, é um psicólogo que chega à estação espacial pouco depois de os cientistas terem submetido o oceano de Solaris a uma elevada dose de raios X, numa ousada experiência destinada a revelar mais pistas sobre o enigma que tinham em mãos. Ao “sentir-se” estudada pelos humanos, o planeta responde na mesma moeda, perscrutando os pensamentos de todos os que estavam a bordo da estação. Ao fazê-lo, os segredos reprimidos, tal como os sentimentos de dor e culpa de cada tripulante ganham forma, vida e aparência humana, gerando o horror e o pânico psicológico no seio da tripulação. Kelvin, mais tarde, será vítima da mesma experiência, ao ver a sua falecida esposa, Harey, materializar-se diante si: anos antes, ela suicidara-se, o que criou um forte sentimento de culpa junto de Kelvin.

Embora não fosse esta a intenção do planeta (da entidade consciente que o constituía), cada um dos tripulantes teve a oportunidade de enfrentar, directamente, os seus medos e recalcamentos. Uma segunda hipótese, de lidar com o passado, é oferecida, mas a resposta de cada um deles resumiu-se ao medo, a uma sensação de desordem interior e ao desejo de fuga. Quando Harey surge perante Kelvin, a única maneira que este encontra para lidar com a situação consiste em ludibriá-la e aprisiona-la no interior de uma cápsula espacial, ejectando-a depois para o espaço. Eis a sua primeira reacção: mantê-la longe de si e esquecê-la, mesmo que isso significasse atirá-la para os confins do desconhecido. “Chegámos aqui como somos na realidade, e quando se volta a página e essa realidade nos é revelada, aquela parte da nossa realidade que preferíamos deixar no silêncio, então já não gostamos mais dela”. Todavia, Harey volta a materializar-se na estação e Kelvin não tem outra solução senão encarar o passado e resolver a situação de impasse.

Procuramos espelhos de nós mesmos

A fragilidade da comunicação surge em toda a sua nudez. De um lado uma entidade consciente e inteligente, possuidora de um “sentir” e que se expressa em signos incompreensíveis para o ser humano, por via de fenómenos físicos na superfície do planeta ou através de manifestações que mimicam os pensamentos mais recônditos dos cientistas. Do outro lado, o imbróglio das relações humanas, em que cada uma das personagens nem sequer é capaz de comunicar, sem complexos, com o que tem escondido no seu interior. A possibilidade de entendimento entre as duas partes – humanos e não-humanos – parece então vaticinada a um total fiasco. “Não havia processo de escapar às impressões nascidas da experiência do Homem na Terra; as possibilidades de contacto sofreram um recuo”, reconhecem os tripulantes.

Solaris_filme_1972.jpg A primeira adaptação para o cinema foi feita pelo cineasta russo Andrei Tarkovsky, em 1972

Se assim é, de que serve aventurar-nos pelo espaço? O que esperamos nós encontrar? Lem, através das personagens que criou, responde: “Partimos para o Cosmo preparados para tudo: solidão, dificuldades, esgotamento, morte. A modéstia impede-nos de o confessarmos, mas há alturas em que temos óptima opinião a nosso próprio respeito. E, contudo, se o examinarmos de mais de perto, o nosso entusiasmo não passa de impostura. Nós não queremos conquistar o Cosmo, queremos simplesmente estender os limites da terra até às fronteiras do Cosmo”.

Ou seja, apenas procuramos espelhos de nós mesmos. O próprio acto de compreender, de comunicar com o exterior e o desconhecido, com aquilo que é radicalmente diferente, já está condenado ao fracasso desde o início, pois “os humanos têm a necessidade de procurar analogias, em tudo com que se deparam, com aquilo que conhecem”.

Tal como frisou o crítico de ficção científica Darko Suvin, em As parábolas sem conclusões de Stanislaw Lem e Solaris, “o Homem sempre projecta os seus próprios modelos mentais sobre o universo estranho: em Solaris, esse universo materializa uma dessas projecções”. Quanto ao eterno sonho de uma segunda hipótese, ele também é algo de materializável no romance de Lem, “quer tenhamos tido um papel de destruidor quer o de destruído”, acrescenta Suvin.

Solaris_2002_1.jpg Em 2002, foi a vez de o norte-americano David Soderbergh adaptar a história ao grande ecrã

E no fim de tudo, o que resta? Perante a incapacidade de contactar com o que é (e sempre será) estranho, que destino temos afinal de percorrer? Mesmo que fiquemos sempre ancorados à Terra, às experiências que aí adquirimos e nos moldam, há sempre algo que muda a partir do momento em que nos aventuramos sobre o desconhecido, na tentativa (mesmo que vã) de o sondar ou compreender. Kris Kelvin, a personagem que dá voz à filosofia de Lem, sabe bem que o regresso nunca é igual ao momento de partida:

“Casa. Que significava essa palavra para mim? A Terra? Lembrei as grandes e ruidosas cidades por onde iria vaguear e onde me iria perder e pensei nelas como pensara no Oceano na segunda ou terceira noite, quando me quisera atirar para as suas sombrias ondas. Vou misturar-me por entre os homens. Ficarei calado e atento, um companheiro que sabe apreciar. Farei muitos conhecimentos, amigos, mulheres – talvez até arranje uma esposa. Durante uns tempos terei de fazer um esforço consciente para sorrir, acenar com a cabeça, ficar parado e executar os milhares de pequenos gestos que constituem a vida sobre a Terra, e mais tarde esses gestos voltarão a ser menos reflexos. Encontrarei novos interesses e ocupações e não me entregarei a eles por completo, tal como também nunca mais me entregarei por completo a nada nem a ninguém. Talvez à noite olhe para a escura nebulosa que tapa a luz dos sóis gémeos e recorde tudo, até o que agora estou a pensar. Com um sorriso condescendente e levemente infeliz, relembrarei as minhas loucuras e as minhas esperanças. E esse Kelvin do futuro não terá menos valor que o Kelvin do passado, o qual, em nome de um ambicioso empreendimento chamado Contacto, estava preparado para tudo. E nenhum homem terá o direito de me julgar”.


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