efêmera

Porque no fim, somos todos instantes.

Ana Favorin

Escrevo numa espécie de prece, de devoção ao perene, ao eterno.

Todo dia era dia de Maria

Uma história sobre a dor aguda de perder bolinhas de gude.


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Enquanto eu vinha pra casa, dentro do ônibus mesmo, me nascia um conto. Lá de dentro da névoa que são meus pensamentos, vinha uma menina. Miúda e cínica.

Essa menina, a que vinha vindo lá de dentro da névoa que são meus pensamentos, era Maria. Maria da minha rua, e era ao pé do seu portão que eu ia parar todos os dias depois do almoço. Falávamos de tudo, e não sabíamos de quase nada. Crianças ignorando a vastidão do mundo, importando-se somente com a confeitaria do seu Raimundo. Que rimava e só.

O sentido das coisas era secundário, mas os sentidos, os nossos cinco, chegavam primeiro que a palavra, que as coisas todas. Não me lembro qual era a idade dela, mas sei que era um tantinho mais velha, porque enquanto eu não passava de um guri magrelo chutando o asfalto, as curvas de Maria despontavam tímidas, insinuando uma breve mulher.

Penso que Maria me tinha afeto, ou coisa assim. Por que sempre que podia, ela sorria para mim. Maria era assim, um versinho singelo e infantil, de rimas pobres até, mas era Maria, o depositário de toda a minha fé.

Em minha pequena infância, ela preenchia meus espaços, e dentro de seus raros e constrangidos abraços eu era quase feliz. Talvez imaginem que criança e bobo como era, esse meu amor nem era sabido por ela. Pois garanto que Maria sabia, sabia e correspondia.

O que trago nestas linhas aconteceu num dos muitos instantes que eu, menino e franzino, passava cozido ao portão de Maria. O Sol brilhava, ou quase chovia, que importa? O fato que eu estava ali, diante dela, um santuário. Minha Santa Maria. Tão minha e real que me faria matar qualquer missa. Me lembro que na minha meninice interior tudo o que eu poderia desejar eram as bolinhas de gude que moravam nos olhos daquela menina. Vidrentas e clarinhas. Desejava-as como quem deseja o voo de um pássaro, uma estrela que surge no céu às cinco da manhã.

Maria era também, a estrela que surgia às cinco da manhã, lá do comecinho da rua, com o cesto de roupas que carregava pra ajudar a mãe. “Tarde Dona Glória.” Acho que dizia quando passava por elas, mas como tinha os olhos e o peito pregados na menina, penso que é bem possível que as palavras não me tenham saído.

O que importa é que eu estava ao pé do portão. E foi ao pé do portão que eu conheci a coragem. Ela chegou bem perto para me contar o segredo, qual era… eu nunca soube. Mas tomado de qualquer coisa que queimava por dentro, fechei os olhos bem apertados e colei minha boca à dela. Um segundo só, uma vida de segundo que não acabava mais. Mas acabou. Maria rasgou meu segundo em mil pedacinhos e correu. Correu toda a vida até a Avenida Central, de onde vinha todo dia com o cesto de roupas. Cheguei a ouvir a canção que cantava com a mãe…

“De tanto levar Flechada do teu olhar Meu peito até Parece sabe o quê? Táuba de tiro ao Álvaro, não tem mais onde furar. Não tem mais!…”

A música doía no meu peito menino e nem sabia porque, mas agora o que doía era o silêncio e a canção imaginada. O som real foi o da batida. Quero narrar rápido. Tão rápido quanto foi a dor aguda que me assolou. Vinha um caminhão do tamanho do mundo, e Maria que fugia de mim. O encontro que era meu, foi do asfalto rude. Duro demais para a pele delicada de Maria.

Tudo escureceu no meu mundo infantil, e pude conceber o real sentido da palavra dor. Dor é quando quebram teu altar e pisam na tua religião, entende? Dor é quando você não sabe mais em quem depositar amor.

Depois, na sala branca e quase infinita, Maria estava imóvel, em um vestido de chita. Nas flores aquele velho quê de lúgubre e singelo, de triste e de mistério. Não tive medo, isso era engraçado. Por que até dos vaga-lumes na minha janela eu tinha medo, qualquer luzinha no escuro tinha jeito de assombração. Mas não havia de ter medo da Minha Maria. Cheguei bem perto. Minhas bolinhas de gude foram embora, estavam infinitamente perdidas, como aquelas que deixei escorregar para o bueiro em horas de descuido.

Perdi Maria e ganhei um conto para dali 20 anos, O que não significa nada. Fui neste conto o mais breve que pude, porque de verdade, de verdade mesmo, eu ainda queria minhas bolinhas de gude.


Ana Favorin

Escrevo numa espécie de prece, de devoção ao perene, ao eterno..
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