efêmera

Porque no fim, somos todos instantes.

Ana Favorin

Escrevo numa espécie de prece, de devoção ao perene, ao eterno.

Quando vem a lucidez

A história de uma Maria, mulher.
Gasta nessa vida, severa e sofrida
que a gente tem que viver.


khggf.jpg Maria, jovem no tempo, gasta na vida. Marionete esfarrapada, retardada, integrante da aglomeração de maltrapilhas párticulas humanas desprezadas no lixo de uma sociedade insensível e incapaz.

- Roubou uma caixinha de chocolates no supermercado?

- Comi sim senhor… - Um sorriso desprovido de dentes.

- A senhora foi presa em flagrante. A fiança, é o equivalente à um salário mínimo.

Achou graça, exibindo gengivas afogueadas e reluzentes. O que era um salário mínimo? Nada entendeu, mas as palavras lhe soaram bonitas, elegantes, os trejeitos do delegado, agrádavel o seu modo de falar, gostoso como os bombons da caixinha do tal crime, que teve o sabor iterrompido por tapas. Na mente confusa, as bolinhas de chocolate eram bem melhores que as sopas de papelão fervido em água suja, frequentemente engolidas no anseio de enganar a fome, iludir o estômago ávido e disposto a devorar os demais orgãos do aparelho digestivo.

- Está detida, até porterior parecer da justiça.

O resplendor das gengivas foi sua muda defesa. Como era bom ouvir aquele homem falar! Ganhou uma cela e duas refeições diárias durante uma semana. Afinal, havia deglutido indevidamente os bonbons de considerável valor. No oitavo dia, conduziram-na à presença do doutor.

- Por decisão do meritíssimo a senhora responderá o processo em liberdade. - As gengivas brilharam. Como falava bonito aquele homem.

O farrapo abandonado, jovem no tempo, gasta na vida, perambulou pelas ruas da cidade. Defrontou-se com uma banca de jornais, chamou-lhe a atenção um rádio de pilhas ligado. O locutor anunciava o resumo das principais notícias: ”Mantimentos apodrecem nos armazéns do governo!”. Maria, hipnotizada pela voz, escancarou as gengivas e abriu os braços como se a fala fosse uma canção. O moço do rádio falava bonito feito o doutor da delegacia.

- Tio, me dá um dinheiro para comprar um chocolate? - Aventurou-se, inocentemente, interrompendo a conversa de dois senhores na calçada.

- Mas é o fim do mundo! Moça saudável, vagabundeando pelas ruas e ainda tem o despropósito de pedir dinheiro para comprar chocolates? - A resposta veio rápida e dura. O homem pregou os olhos na esfarrapa Maria e ainda continuou. - Você tem ideia, mocinha. de quantas pessoas morrem de fome diariamente por falta de comida? Comida, entende? Arroz, feijão! Sabe o preço da cesta básica por acaso? Bombom… Ora, ora, vá trabalhar!

As gengivas reluziram. Ele também falava bonito, como o doutor da delegacia e a voz no rádio que dava continuidade às manchetes: ”Aumenta o índice de desempregos.” E Maria vagueou ainda, com velocidade, por várias ruas e avenidas, antes de deparar-se com a vitrine açucarada de uma confeitaria. Era então uma criança de olhos brilhantes, um vegetal com saliva, estômago amassado, parasitas no intestino, cracas na pele, borras caprinas no cérebro.

- Vamos moça, dê o fora! - Veio o confeiteiro exasperado. - Quer ser presa, sua ladrazinha?

As gengivas brilharam de novo. ”Quer ser presa?” Ser presa era ir ouvir a voz de música do doutor, estar sob um teto, com duas refeições ao dia, livre das sopas de papelão por, pelo menos, uma semana. E então na mente oca e carcomida pela miséria, um raio de lucidez passou, instinto talvez. Sorriu de gengivas sinceras e entrou na confeitaria para apanhar o mais apetitoso dos bombons.


Ana Favorin

Escrevo numa espécie de prece, de devoção ao perene, ao eterno..
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