efêmera

Porque no fim, somos todos instantes.

Ana Favorin

Escrevo numa espécie de prece, de devoção ao perene, ao eterno.

Biografia do tamanho de um homem

Biografia, completa e fiel, de João Ninguém.


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Nasceu em uma cidadezinha de um paisinho, que na verdade era imenso. Cresceu com cinco irmãos, a mãe e um pai do qual era o retrato cuspido e escarrado. Foi um sujeito raquítico e franzino, digo uma dessas coisas raquíticas e franzinas de carne e osso que são cuspidas dos trens e metrôs todos os dias. Um fiapo de gente, feito a Maria daquela história que contei outro dia. Diziam que era metido consigo, um tanto casmurro, mas não era verdade. Nunca havia feito mergulho para dentro de si, nunca havia se pensado ao avesso, mal sabia que habitava em seu interior um furor humano. Saia às 5:00 da manhã para encarar o céu cinza da metrópole caótica. Na estação olhava em volta como quem busca no rosto dos outros as mesmas linhas cansadas e bolsas arroxeadas que pendiam sob os olhos. Não era difícil. A ocupação não importa. O patrão, um bom sujeito, exigia dele apenas o suficiente. O melhor nunca lhe fora exigido, talvez para não esgotá-lo. Talvez. Saia às 18:00 e ia para casa, para a esposa, talvez Maria, que esperava. Na estação não olhava nada. As vistas embaçadas e o corpo exausto. Em casa, dormia. Todos dias. Até não mais. Morreu em uma cidadona de um paisinho, que na verdade era imenso.


Ana Favorin

Escrevo numa espécie de prece, de devoção ao perene, ao eterno..
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