efêmera

Porque no fim, somos todos instantes.

Ana Favorin

Escrevo numa espécie de prece, de devoção ao perene, ao eterno.

Das segundas, dos porres e outras coisas

Quando a nossa humaneza se espreguiça.


andarilhos obvious.jpgA gente resolve beber numa segunda feira que é pra aguentar o peso da semana, suportar a ideia de estudar pra trabalhar, trabalhar pra morrer. Pra não perceber que, no fundo, no fundo, a maioria de nós já está morta, mortinha no caos de concreto. Mas os mortos, cedo ou tarde se levantam. Já é tarde, quando é que a gente se levanta?

E aí vai beber numa segunda feira pra juntar nossa dor com outras dores similares, que não necessariamente se compreendem, mas se abraçam e isso importa. E nos importamos. É a morte do cachorro tão carinhoso e esperto que pesa, é amor e lágrima que ainda não saíram do peito, é só o vazio de olhar em volta e não se reconhecer, é a conjuntura, o estado de greve, a fome que espia de perto o nosso prato. Aí a gente resolve beber numa segunda feira, não pra se afastar do mundo, mas pra tentar qualquer forma de encaixe ilusório. Ninguém pode levantar o dedo e colocá-lo na ponta do nosso nariz.

Seu Luiz Carlos de Souza senta com a gente, fala de lar e família, fala de paz e do Rock'n Rio de 1985, do Fred Mercury, das latinhas que vendeu no festival, Love of my life you hurt me… Quem é capaz de não chorar com essa música? Mesmo distantes, a canção é um abraço. Mais uma do Raul, outra do Tim Maia. Eu vim do lixo, ele disse, vou voltar pro lixo. Seu Luiz é um riso cambaleante na noite, e nós, idem.


Ana Favorin

Escrevo numa espécie de prece, de devoção ao perene, ao eterno..
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