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Artes e afins

Roger Deff

jornalista, rapper, "fazedor" de artes e afins

Racionais: 25 anos contrariando as estatísticas

Duas décadas e meia do mais importante grupo do rap brasileiro.


racionais - MCs.jpg Racionais MCs, nome do quarteto que se consagrou entre as principais referências da contracultura brasileira nos últimos anos, comemora em 2014 duas décadas e meia de existência e, principalmente, resistência. Cada um dos cinco discos lançados pelo grupo paulistano (Holocausto Urbano, Escolha Seu Caminho, Raio X do Brasil, Sobrevivendo no Inferno e Nada Como um Dia Após o Outro Dia) é uma obra singular, relevante e extremamente sintonizada com a realidade das periferias brasileiras em cada época. Não me lembro bem quando ouvi Racionais pela primeira vez, mas sei que foi a música “Pânico na Zona Sul” (do primeiro disco lançado em 1990) tocada em um baile próximo à minha casa, mas não conseguia entender a letra uma vez que a acústica do local não favorecia. Em 1993, com a popularização do rap nas FMs, graças ao disco de estreia de Gabriel O Pensador, o Racionais também chega às rádios, primeiro com “Fim de Semana no Parque” e posteriormente com “Homem na Estrada”, ambas do álbum Raio X do Brasil. As músicas tornaram-se verdadeiros hinos entre os jovens e, não raro, tornaram-se trilha sonora nos carros dos garotos de classe média daquela época. Thaíde e DJ Hum e outros MCs da capital paulista haviam criado as bases do que seria o rap nacional anos antes, na coletânea Hip Hop Cultura de Rua, este foi o primeiro grito de independência do rap no Brasil, o segundo é, sem dúvida, o surgimento do grupo liderado por Mano Brown.

Pude ouvir Raio X do Brasil com calma naquele mesmo ano de 1993. Do lado de fora da casa de um vizinho, eu e mais dois amigos ficamos calados, concentrados em cada um dos versos daquele disco. Ainda vivíamos a época dos LPs, do analógico, e ouvir música ainda era um ritual muito mais coletivo do que individual. Ao final da audição a sensação era de que, pela primeira vez, escutávamos músicas que narravam algo muito próximo das nossas realidades. Éramos garotos, moradores de um pequeno aglomerado na zona noroeste de Belo Horizonte, e as histórias contadas ali retratavam muito do nosso cotidiano. Era um olhar bem mais próximo do que aquele apresentado pelo carioca Gabriel O Pensador, e sob um ponto de vista muito particular, menos jornalístico e sem a intenção de abarcar certas complexidades. O retrato era duro, direto, distante da estética bem humorada das bandas de pop rock que, até alguns anos antes, era predominante na programação das rádios.

Algo muito diferente acontecia com a música no início daquela década. Se por um lado, estilos como sertanejo e pagode eram hegemônicos no dial, a qualquer hora do dia, do outro lado, a indústria fonográfica apresentou uma renovação na música feita para o público jovem, com nomes como Chico Science e Nação Zumbi (Da Lama ao Caos – 1994), Planet Hemp (Usuário – 1995) e O Rappa (O Rappa – 1994). Racionais estava entre eles, mas não estavam inseridos na lógica da indústria, não tinham contrato com grandes selos, diferente dos demais nomes citados. Eram periféricos no discurso e na forma de trabalhar suas músicas. Já naqueles tempos eram conhecidas as histórias sobre as negativas do grupo em se apresentar em emissoras como a Globo ou de dar entrevistas para determinados veículos. Brown se tornara uma voz respeitada entre os jovens das periferias Brasil afora, o Racionais era a principal referência do rap no país, inspirando artistas em todas as localidades e “quebradas”. O termo “mano” ganhou sentido para além das ruas de São Paulo e tornou-se um jargão comum no meio do rap, parte do dialeto. O Racionais só retornaria quatro anos depois com o antológico e ainda mais subversivo “Sobrevivendo no Inferno” (1997), desta vez com o selo Cosa Nostra de propriedade dos integrantes do grupo. Sem grandes esquemas de divulgação e nenhuma música veiculada nas FMs, o álbum alcançou a impressionante marca de 500.000 cópias vendidas (número oficial), isso sem falar nas cópias piratas que, provavelmente, ultrapassaram um milhão de cópias. Sobrevivendo no Inferno descrevia de forma ainda mais crua a verdadeira guerra civil que era travada nas favelas de São Paulo (no restante do Brasil também) locais habitados por uma maioria de jovens negros que, consequentemente, estavam e ainda estão entre as principais baixas.

As letras quilométricas das 11 faixas do CD (a 12ª era um agradecimento aos amigos e às comunidades) estavam na ponta da língua de todos, “manos” ou “playboys”. O videoclipe da faixa “Diário de um Detento”, letra do presidiário Jocenir adaptada por Mano Brown, ganhou o prêmio de audiência da MTV em 1998, confirmando que o grupo era realmente apoiado por bem “mais que 50 mil manos”, como cantavam em um trecho da profética Capítulo 4, Versículo 3, segunda música do disco, com a qual o grupo subiu ao palco do VMB (Vídeo Music Brasil) reforçando ainda mais a importância do momento diante de uma plateia atônita ainda pouco acostumada à estética e a proposta do grupo. Assistimos ao vivo e, para nós, a consagração do Racionais em uma festa como aquela tinha gosto de conquista de campeonato mundial, sem mais.

O novo trabalho, o duplo “Nada como um dia após o outro dia”, só sairia em 2003, tornando-se um clássico imediato assim como os discos anteriores. O álbum traz uma visão menos dura e violenta, condizente com as mudanças na vida dos próprios integrantes mas sem deixar de cantar as mazelas, como em “Negro Drama” e “Eu sou 157”. Ao mesmo tempo há uma narrativa que ostenta as vitórias e espaços conquistados, talvez, coerente com um novo momento do país que, embora continuasse uma das piores distribuições de renda do mundo, trazia condições menos extremas para a população com menor poder aquisitivo. A essa altura o Racionais já era lendário, “os quatro pretos mais perigosos do Brasil” como eles se autodenominam e com razão. São formadores de opinião com credibilidade poucas vezes vista, influenciando inclusive questões de ordem política. Os 25 anos do Racionais MCs são dignos de celebração, por tudo que eles significam, dando voz e rosto a uma periferia que estava ainda mais invisível e, entre tantas conquistas, por colocarem o rap no mapa da música produzida no país. O impacto e a ruptura provocadas pelo racionais é inegável e vai reverberar por muitos anos ainda.


Roger Deff

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