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Artes e afins

Roger Deff

jornalista, rapper, "fazedor" de artes e afins

Juventude negra no Brasil: privações e desafios

Mês da Consciência Negra suscita reflexões e debates sobre a violência e a falta de perspetiva dos jovens afrodescendentes no Brasil


juventude-negra.jpg 20 de novembro é dia Nacional da Consciência Negra, com toda a reflexão que a data traz a respeito da desigualdade social e econômica, e números alarmantes de óbitos entre a população negra e pobre. De acordo com os dados do Mapa da Violência 2013, elaborado pelo Centro Brasileiro de Estudos Latino-Americanos, a cada três assassinatos cometidos no Brasil dois são de negros entre 15 e 24 anos, com um número estimado em 1344 mortos ao mês, número de baixas comparável ao de guerras. Há nisso tudo fatores como pobreza, baixa escolaridade e, em consequência, maior vulnerabilidade social. Há quem diga que tudo se restringe à questão econômica, mas outra pesquisa intitulada “Participação, Democracia e Racismo?” realizada pelo IPEA (Instituto de Pesquisa Aplicada) e divulgada em outubro de 2013, aponta que, mesmo em grupos com situação de acesso ao ensino e características sociais semelhantes, o jovem negro ainda tem 3,7 vezes maior possibilidade de morrer assassinado que os outros não negros. Outras pesquisas trarão informações semelhantes sobre o grau de exposição à violência dos negros no Brasil, em boa parte promovida pelo próprio estado, uma vez que, de acordo com os dados levantados pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública, a polícia brasileira é uma das que mais mata no mundo. O estudo compara os óbitos gerados no Brasil pela ação policial às mortes ocasionadas por policiais norte-americanos e a conclusão é que a polícia brasileira causou 11.197 óbitos em cinco anos, enquanto a polícia estadunidense foi responsável por 11.090 mortes num período de 30 anos. A violência à qual os afrodescendentes estão submetidos não é apenas física e pontual, ela nasce e se mantém muito presente no campo simbólico.

Apesar da Lei 10.639, aprovada em 2003, que torna obrigatória a inclusão do ensino da cultura afro-brasileira no currículo escolar, a matéria continua distante da grande maioria das salas de aula. Em resumo: tudo o que estes jovens aprendem sobre si mesmos nas escolas é que são descendentes de escravos (não de seres humanos que tiveram sua liberdade usurpada) e que estão livres graças a um suposto ato de bondade da Princesa Isabel. E se encerra aí. Ao ignorar determinados aspectos da participação do negro em nossa sociedade, a escola reproduz e reafirma o lugar do negro enquanto figura secundária e sem grande importância no contexto social, sempre lembrado pela contribuição braçal e “essencial” para a construção do país , além da associação a elementos folclóricos e "exóticos" da cultura brasileira. O efeito desta “invisibilidade institucionalizada” é reforçar os males causados pela ausência de referência e expectativas em relação ao próprio futuro. Não por acaso, o índice de evasão escolar entre as camadas mais pobres (cujo perfil racial é bem definido) é alto. Não que o ensino público, da forma como é hoje, dê condições de competir em pé de igualdade nos vestibulares e demais processos seletivos “justos” que tratam desiguais como iguais, mas a saída prematura do ambiente escolar alimenta ainda mais o ciclo vicioso do subemprego, fazendo com que os jovens repitam o mesmo lugar e espaço social ocupados por seus pais.

Me lembrei do texto do médico pediatra João Paulo Porto, sobre um paciente de 8 anos, que disse querer ser caminhoneiro quando crescesse. Nenhum problema, mas ao ser perguntado se gostaria de seguir outra profissão ele respondeu que pensou em ser médico mas, como é negro, decidiu ser caminhoneiro. Para ele a opção sequer existia, já que o seu lugar e limites pareciam tão demarcados. O relato é sintético e diz muito sobre o que significa ser negro no Brasil, as barreiras internas e externas que precisam ser vencidas e, além das mortes violentas registradas pelas pesquisas, aponta outros fatores que explicam as razões de eu praticamente não encontrar outros negros nos mesmos espaços que ocupo hoje. Fui uma das poucas exceções dos números mencionados: negro e criado numa das regiões periféricas de Belo Horizonte superei a barreira estatística dos 24 anos e tive a sorte de me envolver com uma cultura que despertou o meu desejo de conhecimento e, mais ainda, me fez enxergar além das possibilidades e limitações colocadas. Iniciei e concluí o curso de comunicação social, e quanto mais entrava naquele universo menos via outros como eu. É preciso avançar nessas discussões, debater sobre a invisibilidade social e o próprio genocídio de uma parcela que hoje responde por 52% da população no Brasil e continua tendo acesso a tão pouco, ocupando os principais números dos índices mais negativos, como pobreza, analfabetismo e baixa expectativa de vida.


Roger Deff

jornalista, rapper, "fazedor" de artes e afins.
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