em reforma

Disponibilizo lentes de aumento

Gabriel Santin

Pois a delícia de sentir o cheiro de tinta fresca é a delícia de ouvir o barulho de uma parede caindo.

O velho século XXI

E se descobríssemos que o que fazemos na web 2.0 nada mais é do que uma reprodução do que fazíamos há milhões de anos?


À época do “descobrimento”, o Brasil pré-europeu gozava de um sistema coerente de linguagem e representação, pautado basicamente na oralidade e ritualidade. Um sistema que se bastava para as necessidades daquele grupo. O encontro com outra civilização, outro sistema de linguagem e representação, implicou também uma consequente mudança de consciência no grupo, agora constituído não só de “nativos”, mas também de colonos.

A alfabetização dos índios e, mais incisivamente, sua catequização, são as primeiras modificações do sistema linguístico dos “nativos” (aqui exclui-se as modificações internas pré-colônia). Claro que há resistências, mas os efeitos em longo prazo dessa aculturação parecem nos mostrar ciclos tecnológicos interessantes e discutir o que hoje chamam de “nova onda tecnológica”.

Se sairmos do continente americano do século XVI e formos à Grécia do século VIII a.C veremos uma situação paralela. Naquela época a cultura alfabética, ainda incipiente, tomava corpo na ágora. A hegemonia ainda era (é?) da cultura oral. Basta rememorarmos o eterno dilema autoral de Sócrates, que não nos deixou sequer uma linha escrita, mas sim o que Platão ouviu dele. Mas aos poucos os poetas e, mais tarde, os filósofos começam a utilizar a escrita como método de transmitir mensagens e conservar a memória. Um exemplo dessa transição é a obra Ilíada. O que muitos estudiosos sustentam é que Ilíada nasceu, em verdade, de inúmeras histórias orais que corriam na Grécia antiga, e que a autoria de Homero se constituiu como uma organização, compilação dessas histórias em uma unidade. Nesse sentido, houve uma modificação tecnológica em Ilíada: da plataforma oral para a plataforma escrita. No entanto, é importante ressaltar que essa modificação se mostrou somente para os que dominavam o sistema alfabético, ou seja, para uma pequena parte dos gregos.

Semelhante situação ocorreu no Brasil pós-colonização, salvo as peculiaridades monárquicas. Em 1808, junto com a corte portuguesa, desembarca no Brasil as primeiras prensas tipográficas móveis. Claro que o novo ambiente tipográfico se deu exclusivamente pela vinda da corte e não pelo anseio de desenvolver a colônia. Assim, livros, cartazes, revistas, comunicados, ofícios eram produzidos e codificados somente para os portugueses ou para os brasileiros vinculados à corte. Tomando por base a maioria da população brasileira desse período, o alfabeto estampado nos papéis era somente uma sucessão de linhas pintadas sem significação nenhuma, ou com uma significação simbólica não acessível a ela. Assim, enquanto uma pequena parte da população tinha a produção impressa como meio de comunicação “oficial”, a grande maioria dos brasileiros balizava seu sistema linguístico em bases orais. Nenhuma motivação, por parte dos colonizadores, foi feita para inserir os colonizados na nova tecnologia. Mesmo com a saída da corte em 1821, produções escritas ainda circulavam nas ruas das grandes cidades brasileiras, mesmo que consumidas por uma pequena elite alfabetizada. Assim, a introdução da cultura alfabética no Brasil não significou a alfabetização dos brasileiros.

A oralidade representa a sedimentação cultural do Brasil, uma identidade comunicacional própria. Isso pode ser visto, por exemplo, na importância que a canção tem nas produções nativas.

Muito se critica o leitor brasileiro: povo que não lê, que não é visto no ponto de ônibus ou na fila do banco com um livro de bolso nas mãos. No entanto, tal entendimento desconsidera a hegemônica cultura oral constituída no Brasil. Brasileiro tem fortes e antigas bases orais, por isso é sempre lembrado como subdesenvolvido. No entanto, tal oralidade parece estar ressurgindo.

Chegando à contemporaneidade, a web 2.0, fruto de inúmeras transformações tecnológicas, principalmente da informática, tem como sistema comunicacional hegemônico a linguagem não-verbal. A visualidade parece tomar conta dos processos de informação. O exemplo mais claro parece ser o Museu da Língua Portuguesa em São Paulo. Como a transição tecnológica de Ilíada, as obras ali expostas partem da linguagem alfabética para a linguagem visual, em uma comunhão que parece desfazer a dicotomia texto-imagem, mas que somente transfere para uma plataforma imagética a caligrafia.

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Ilíada homogeneizou as histórias orais em uma história escrita; a imprensa publicou os fatos civis criando a opinião pública; a fotografia fragmentou o tempo em uma unidade de realidade; e a internet, especificamente a web 2.0, parece condensar todas as transformações anteriores em uma só, já que ela é fruto de sucessivas modificações tecnológicas anteriores. Autoria compartilhada, violação da privacidade, controle público, fronteiras globais parecem termos modernos, mas que encontram, como exposto aqui, referências históricas paralelas. Como consciência histórica é um termo que parece mero adorno para os militantes cibernéticos, é importante lembrar que estamos alterando, como os índios, nosso sistema de representação pela exposição às novas redes de informação e socialização. Dessa forma, o mito do novo, tão ostentado no século XXI, não é tão novo.

Riobaldo termina suas memórias em Grande Sertão: Veredas apenas com “Travessia”. Da mesma forma, as alterações nas plataformas de comunicação são ativas, não são estanques, nem excludentes. Ao que parece, oralidade, alfabeto, rito, cinema e Bluetooth coexistem e continuarão a coexistir dinamicamente.


Gabriel Santin

Pois a delícia de sentir o cheiro de tinta fresca é a delícia de ouvir o barulho de uma parede caindo..
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