em reforma

Disponibilizo lentes de aumento

Gabriel Santin

Pois a delícia de sentir o cheiro de tinta fresca é a delícia de ouvir o barulho de uma parede caindo.

Emma Bovary c’est moi

Em época de convergências, Maria Bethânia é high tech.


Se o passar do século XXI se apresenta como um action painting no qual todas as linguagens, livremente flutuantes, convergem a específicas e temporárias funções, não é de se estranhar que os ruídos também se estilhacem e pigmentem a tela.

Maria Bethânia pode nos dar uma aula sobre isso.

Adepta a citações, declamações e leituras de poemas e narrativas literárias em seus shows, a cantora baiana se apropria de obras de Clarice Lispector, Lya Luft, Vinícius de Moraes e Fernando Pessoa para cotejar música e literatura. É inquestionável a beleza e o refinamento artístico desses momentos. No entanto, algumas digestões de Bethânia não caem muito bem a alguns ouvintes, principalmente aos incautos seguidores dos autores por ela lidos. Seja pela permuta de plataformas, já que um poema é escrito para ser lido, não falado, seja pela necessidade própria do espetáculo, a cantora acaba por criar uma segunda obra, por vezes muito distante da primeira. Longe de ser uma catástrofe artística ou, como muitos sustentam, o fim da autoria da obra de arte, essa prática é cada vez mais recorrente em todas as formas artísticas.

O autor mais popular das redes sociais também era adepto à convergência: Caio Fernando Abreu explicou, em entrevista, que a epígrafe de Oscar Wilde que utilizou em seu conto Uma Praiazinha de Areia Bem Clara, Ali, na Beira da Sanga era, em verdade, retirada do filme Querelle, e não do poema Balada do Cárcere de Reading. Ou seja, é Oscar Wilde digerido da digestão.

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Assim, o que Maria Bethânia promove é uma ressignificação. Evidentemente, existem ressignificações perigosas. Há algum tempo, ela declamou Poema do Menino Jesus de Alberto Caeiro. Como se trata de um poema relativamente longo, a cantora editou o poema: cortou os versos em que o autor ironiza a Igreja e contesta a santíssima trindade. O resultado é um poema agradável até aos ouvidos católicos. Na página do vídeo no YouTube, chovem usuários revoltados com a ação criminosa de Bethânia. Mas como invalidar tal ressignificação em uma época que a bricolagem se tornou estilo? Até mesmo o presente texto que o leitor encara agora é o resultado de inúmeras bricolagens e convergências: quando falei da declamação de Poema do Menino Jesus, falava de um número retirado de um show e colocado na internet; a entrevista de Caio Fernando Abreu acerca da epígrafe de Oscar Wilde foi retirada de uma reportagem e relatada em uma dissertação acadêmica.

Maria Bethânia declamando Monólogo de Orfeu de Vinícius de Moraes é autoria de Maria Bethânia, e não de Vinícius de Moraes. Se ela transformou o poema em novela do Manoel Carlos, a obra do poetinha ainda está lá, com toda sua latência e ambiguidade (e pronta para ser reescrita).

Se vivemos hoje uma época em que a literatura impressa de outrora foi editada para as ferramentas atuais, é bem capaz que a linguagem vinda dessas mesmas ferramentas se torne outra coisa no futuro, já que o tempo, de uns milênios pra cá, anda se revelando retroativo.


Gabriel Santin

Pois a delícia de sentir o cheiro de tinta fresca é a delícia de ouvir o barulho de uma parede caindo..
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