em reforma

Disponibilizo lentes de aumento

Gabriel Santin

Pois a delícia de sentir o cheiro de tinta fresca é a delícia de ouvir o barulho de uma parede caindo.

It's raining cinema

O cinema se torna arte no mesmo pé em que se torna um vantajoso mercado. Benjamin estava certo.


A arte cinematográfica, como toda arte, não nasceu como tal. No proto-cinema, em finais do século XIX, a exibição de películas mecanicamente ordenadas era uma diversão popular, um número circense. Mas o desejo de criar uma linguagem que pudesse traduzir ao máximo a realidade do mundo visível fez com que vários cientistas, técnicos e pesquisadores fossem pouco a pouco formulando o que se entende hoje por “sétima arte”. Claro que a fotografia, no mesmo século, já realizava esse desejo, porém, com o cinema, o tempo pôde ser capturado na sua dinâmica real, potencializando o seu impacto na sociedade da época.

Muito se argumenta que a indústria fez com que o cinema chegasse ao estado artístico pleno, ou que o Cahier du Cinéma corroborou para isso. Ambas as proposições estão corretas, mas o gênio criativo também teve fundamental importância para a constituição e solidificação da sétima arte. Talvez um dos sinais que indicam que uma linguagem humana passou para o estado de arte seja a autorreflexão dessa linguagem. A cinematografia é um bom exemplo disso.

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O cinema é palco de encadeadas mudanças: da pirotecnia para a narrativa, da câmera fixa para as gruas, do preto e branco para as cores, do silêncio para o som. Essa última em especial pode ser vista no longa-metragem Cantando na Chuva (1952). O musical dirigido por Gene Kelly e Stanley Donen é estrelado pelo próprio Kelly, Donald O’Connor e Debbie Reynolds. A narrativa do longa se constitui como um diário do cinema da época, no qual é exposta a conturbada introdução sonora nos filmes entre a primeira e a segunda metade do século XX.

A partir dos anos 50, houve uma explosão de produções cinematográficas, sobretudo em Hollywood, que transpuseram para a película os espetáculos teatrais da Broadway: Desfile de Páscoa (1948), Essa Loura Vale um Milhão (1960), My Fairy Lady (1964), O Caminho do Arco-Íris (1968). Começou-se então um intenso esforço de traduzir para o cinema os grandiosos espetáculos musicais. É com Hollywood que o espetáculo musical se torna uma identidade, substancialmente, de gênero.

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Assim, como grande parte dos musicais do período, Cantando na Chuva nasceu de um espetáculo de teatro musical. Os filmes musicais eram, até a década de 30, um teatro filmado. Mas com o sucessivo desenvolvimento tecnológico, os musicais desenvolveram, no cinema, linguagem própria, com enquadramentos dinâmicos, lentes mais precisas e montagem mais sofisticada.

Tendo em vista essa ligação com o teatro, a inevitável comparação com a dramaturgia também é abordada no musical. Para a personagem Kathy Selden (Debbie Reynolds), “só o teatro é digno”. Trata-se de uma personagem que no início do filme luta contra o gosto indecoroso do cinema e não cede aos enleios do astro Don Lockwood (Kelly), mas que, aos poucos, se rende aos encantos do cinema, e do galã. Seria ela o próprio teatro que se rende ao inebriante espetáculo cinemático?

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Cantando na Chuva traduz de maneira clara e coerente o espírito do cinema da época. Na primeira cena, a prémière de um filme mudo é representativa da euforia que o cinema começou a provocar em um público cada vez mais disposto ao espetáculo. Nela, Don narra sua biografia para o eufórico público. Fala de sua infância, seu início nos palcos, sua ascensão à fama. Porém, conforme sua descrição pessoal prossegue nos é mostrada a realidade dos fatos, que se revela o extremo oposto de seu discurso. Ou seja, só nós conhecemos a realidade primordial. O personagem que narra mente, mas nós sabemos da verdade. Na cena em questão, Don faz seu depoimento olhando para as câmeras da repórter que o entrevista, passando-nos a impressão de que estamos no filme (ou de que o filme está em nós), que a câmera da repórter é o nosso olho. O uso de tal técnica na referida cena é conveniente para o argumento de que a matéria-prima do cinema é, em verdade, uma convenção, uma produção mecânica do real. E isso é delatado por nós mesmos, que olhamos para os olhos de Don.

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O cinema falado fez com que produtores, diretores e atores se desesperassem. Como nas cenas em que Lina Lamont (Jean Hagen) se debate para se adaptar ao novo ambiente sonoro, a produção cinematográfica viu seus paradigmas se alterarem drasticamente. Lina é a personificação do anacronismo de parte do cinema da época, daqueles que defendiam que o som não se adequaria à sétima arte. Um exemplo de que o cinema partia para um caminho adverso é a tentativa sempre frustrada de Lina usar sua voz ruidosa nos filmes, ou seja, não há mais espaço no cinema falado para artistas que atuam exclusivamente por pantomima. O longa pode ser visto também como uma solução aos que não se adaptaram ao novo formato (Don opta pelo musical depois de se frustrar nas aulas de dicção). É o que Cantando na Chuva vem dizer.

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O caráter arbitrário da matéria-prima do cinema é evocado constantemente no musical. Na primeira cena, como já dito, Don produz sua biografia em frente às câmeras, fazendo com que a realidade seja uma questão de narração. O personagem, mais tarde, leva a protagonista Kathy a um lindo pôr-do-sol e se declara. No entanto, esse cenário é “apenas um palco vazio”, um estúdio de gravação desocupado, mas que com o foco de luz, ventilador, painel pintado de nuvens e gelo seco formam as luzes de um jardim, a brisa e o poente do fim de tarde e a bruma das montanhas, respectivamente. O cenário aqui é mais uma questão de composição do que representação, uma ordenação de elementos que faz com que o espaço sirva como uma lembrança do mundo real, mas que evidencia também a produção humana em detrimento da produção espontânea da natureza.

Cantando na Chuva é um espetáculo que une uma inquestionável qualidade estética a um representativo material didático do cinema ocidental. O primor da montagem, o rigor da coreografia, a inteligência na direção e o preciosismo das atuações fazem com que o filme, apesar de pouquíssimos prêmios ganhos, seja lembrado até hoje como uma referência na cinematografia mundial.

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Gabriel Santin

Pois a delícia de sentir o cheiro de tinta fresca é a delícia de ouvir o barulho de uma parede caindo..
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