em reforma

Disponibilizo lentes de aumento

Gabriel Santin

Pois a delícia de sentir o cheiro de tinta fresca é a delícia de ouvir o barulho de uma parede caindo.

O Caixa Inoperante (ou A Vila Perpétua)

Não só de pão vive o Homem.


Gil acordou naquele dia ao som de uma incessante orquestra. O som dos fogos de artifício era o despertador ideal para acabar com aqueles pesadelos que o atormentavam há noites. A princípio, não entendeu a balbúrdia. Seria mais uma comemoração municipal? A alegria de um rapaz com o recente noivado? A loteria saíra enfim para o interior? Alguns segundos bastaram para a memória de Gil se clarear. O novo supermercado da cidade inaugurava naquele dia.

Já planejava visitar o novo empreendimento na manhã de inauguração, mas a faculdade exigiu um esforço matinal intransponível. A aula que se estendeu até o meio da tarde pareceu-lhe um aborrecimento inútil. Gil, definitivamente, não possuía o dom da paciência. Os fogos estavam sempre ruidosos no céu para lembra-lo que havia um motivo muito maior para se viver do que estudar teoria estrutural.

Com ímpeto, saiu da faculdade e, como esperado, parou em frente ao portão lateral para tentar se localizar. Mapas nunca foi o seu forte. Alguns segundos passados, retomou o trajeto, ainda calculando qual sentido da rua deveria tomar para chegar ao centro novo da cidade. Quando o desenho geográfico enfim caiu sobre sua cabeça, seus pés se converteram em engrenagens de fricção, não conseguindo mais distinguir entre o som pesado de seus passos e os dos fogos de artifício que ainda rasgavam o ar.

Quando cruzou a avenida central, divisa do novo supermercado, sua pulsação, até ali intensa pela caminhada frenética, pareceu não ter mais eficiência, já que em sua têmpora uma gélida sensação de euforia se colonizou. Com certeza os semáforos estavam a seu favor, esperando estagnados nas bolas vermelhas.

Quando visualizou ao longe uma grade cinza em uma fachada austera e, da mesma maneira, cinza, o tempo de chuva que reinava naquela tarde pareceu-lhe o próprio clima. Grandes pilares diagonais de ferro que sustentavam o teto da entrada enterravam-se, unidos no chão. Uma grande fachada de vidro sob uma trama de ferros se apresentava como um labirinto tentador a ser percorrido. Gil tentava definir aquele prédio. Por um momento pensou que ali não era um lugar de compras. Era um prédio. Em si.

Gil já devia saber que toda inauguração é precipitada. O forro plástico ainda ostentava a fiação elétrica, os vidros exibiam os pequenos papelões e seus dizeres de lote, as palmeiras ainda estavam tímidas e a grama ainda não conseguia camuflar a terra que a sustentava. A euforia de Gil ao entrar no grande labirinto de ferro é suspensa pela escuridão e opacidade do hall de entrada. Tapumes escondiam os ocos espaços que futuramente abrigariam bazares de roupas, pet-shops, cabeleireiros, lojas de informática, de brinquedos, de presentes. Gil nunca havia percebido como as vitrines iluminavam um corredor.

O acesso ao supermercado se faz, como a fachada sugere, por um emaranhado de escadas e corrimãos. Conforme Gil era conduzido ao alto pela escada rolante, uma luz tímida vinha das paredes laterais, feitas de vidro e unidas por braçadeiras metálicas. O dia começava a amanhecer conforme Gil se aproximava do pavimento superior.

O trabalho ansioso dos operadores de caixa denunciava uma inauguração suntuosa. Como em um horizonte litorâneo, a linha dos caixas era o turbilhão das ondas marítimas, enquanto acima dela, um remoto céu de lâmpadas fluorescentes e estruturas metálicas. Gil entra enfim naquela cena que se estendia aos seus pés.

O branco asséptico das prateleiras, do chão e de toda a estrutura física dão-lhe o alívio que nem sabia que precisava.

A longa extensão da padaria que desembocava em um ambiente para um aconchegante café, lhe entregou um conforto quente e aromático. As mesas de madeira clara expunham doces delicados, bolos maternos e pães gastronômicos. Uma imensa fila chamou a atenção de Gil que se aproximou de uma estante com grandes caixas acrílicas a altura das mãos. Ele percebe que os clientes seguravam bacias maciças de vidro. Ao chegar à estante, vê maravilhado que havia também espátulas para que pegassem pães nas tais caixas acrílicas, levando-os na bacia de vidro até o atendente que os ensacariam e os etiquetariam. A autonomia dos clientes o impressionou. Ao se distanciar da fila que aumentava gradativamente, Gil sente o aroma forte das carnes defumadas e queijos especiais que estavam dispostos em uma luxuosa e brilhante ilha de mármore. O oásis tecnológico era de uma vastidão de telas, celulares, tablets, impressoras, computadores que reproduziam imagens atordoantes de musicais, filmes e espetáculos que deixaram Gil com as pupilas do tamanho de um cisco. As etiquetas fixadas nas gôndolas não eram mais daquele amarelo-fruta. Ao invés disso, etiquetas eletrônicas que informavam e atualizavam os preços de maneira ágil e elegante. Os corredores destinados a artigos de cama, mesa e banho eram longos e contorcidos, e deram a impressão de que Gil estava levitando em curvas de montanha russa, em meio a cobertores de algodão, enfeites de lavanda e límpidas peças de porcelana.

Depois de percorrer todo o supermercado, extasiado com tantos estímulos, Gil se dirigiu, vagarosamente, pela saída e desceu pela escada rolante. No andar inferior, voltou a deslumbrar o emaranhado de ferros e vidros que agora, olhando de dentro, parecia o proteger.

Gil foi embora, cumprimentando os palhaços, pernas de pau e animadores contratados para recepcionar os clientes. Voltou ao cruzamento da avenida central e não se importou com o verde dos semáforos. Sabia que a partir dali, durante dias a fio, os pesadelos constantes cessariam. Dariam lugar às lembranças messiânicas e angelicais do novo supermercado. Talvez nos próximos dias, Gil entenderia enfim a referência aos soldados celestiais no nome do novo supermercado. Super ou Hiper eram prefixos que pareciam não mais servir àquele imponente prédio. Gil chegou em casa, sem ter comprado nada.

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Gabriel Santin

Pois a delícia de sentir o cheiro de tinta fresca é a delícia de ouvir o barulho de uma parede caindo..
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