em reforma

Disponibilizo lentes de aumento

Gabriel Santin

Pois a delícia de sentir o cheiro de tinta fresca é a delícia de ouvir o barulho de uma parede caindo.

Comida, diversão e jeans

Porque calças jeans de R$300 nem sempre são compreendidas.


Está rodando no Facebook uma entrevista veiculada no Jornal da Cidade (TV Cidade) em São Luís, no Maranhão. Nela, uma senhora, beneficiada pelo Bolsa Família, expõe às câmeras sua singela preocupação com a possível suspensão do benefício: não poderá mais arcar com as calças jeans de sua filha. Para muito além da tentação da piada pronta e o preconceito gratuito, o pequeno enxerto da reportagem, assim como sua repercussão, diz muito sobre o Brasil.

No final da última semana, correu pelo país o boato de que o governo suspenderia o benefício dado às família carentes, o Bolsa Família. No último domingo (19), centenas de pessoas congestionaram os bancos e caixas eletrônicos para sacarem o dinheiro antes de verem suas contas zeradas. O medo e o desespero de quem depende do benefício foi evidenciado pelas filas e pelo tumulto vistos nas agências.

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Evidente que se tratava de um boato, uma informação inverídica. O governo logo se pronunciou desmentindo o rumor. A presidente Dilma declarou que tal ato seria 'terrorismo'. Em várias cidades, a Polícia Militar foi chamada para controlar o tumulto. Nessa terça-feira (21), a divisão de crimes cibernéticos da Polícia Federal foi acionada para tentar desvendar o mistério da origem do boato.

A imprensa fez sua parte e cobriu os fatos. Claro que as informações levantadas não permitiram uma compreensão nítida do que realmente estava se mostrando: a importância do benefício para uma parte significativa da população e seu impacto. Já os internautas-da-situação se apressaram em recortar as informações dispersas e fazer o que esperamos deles: digerir informações dadas e multiplicá-las.

A repercussão do vídeo acima foi imediata. Opositores ao governo petista destrincharam suas velhas queixas sobre o "assistencialismo estatal"; os não politizados ecoaram dezenas de trocadilhos infames como o #chatiado da descrição do vídeo; os mais atrasados promoveram velhas comparações entre a multidão nas filas da CEF e a inexistência de movimentação popular contra a corrupção.

Fato é que grande parte dos internautas não se conformam que alguém compre uma calça jeans de R$300 com o benefício (ou não). Há no entendimento comum que o tal Bolsa Família deve ser gasto com as 'necessidades básicas' da população carente. Só falta entender o que é uma necessidade básica. A ideia de que uma calça jeans seja uma necessidade básica de uma classe não muito abastada economicamente foi vista como uma afronta pelos internautas mais aristocratas. Ora, foi-se o tempo em que comida era um item primário de sobrevivência. Aquele que se insere na cultura do consumo, dos estímulos publicitários, do sistema de moda, não pode querer outra coisa senão um celular Android, uma calça da delegada ou o download do Daft Punk. Somente os ermitões podem reivindicar comida.

Nos espantamos com uma senhora pobre que compra uma calça jeans de R$300, mas não temos o mesmo espanto quando nos vemos economizando no supermercado para pagarmos as férias em Fortaleza. Não nos espantamos quando compramos uma pasta dental com cristais branqueadores que pouco farão efetivamente para a nossa saúde bucal.

Temos que entender, definitivamente, que não compramos para suprir necessidades. Compramos para nos comunicarmos. E quando dizemos que pobre não pode comprar calça jeans de R$300, estamos a dizer que ele não pode se comunicar conosco. Que não deve existir.


Gabriel Santin

Pois a delícia de sentir o cheiro de tinta fresca é a delícia de ouvir o barulho de uma parede caindo..
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