em reforma

Disponibilizo lentes de aumento

Gabriel Santin

Pois a delícia de sentir o cheiro de tinta fresca é a delícia de ouvir o barulho de uma parede caindo.

Calçada do Jornalismo

A verdade do estrelato ou o estrelato da verdade?


Hollywood produziu muitas imagens identitárias ao longo de sua hegemonia na cinematografia mundial. A felicidade branca nos musicais, o romantismo pesado das mulheres, o homem rude do oeste estadunidense, o estrangeiro fresco europeu, o soldado vencedor (mesmo na derrota). Dentre elas, a imagem construída do jornalista é peculiar.

No longa metragem A Montanha dos Sete Abutres (Ace in the Hole, EUA, 1951) do diretor Billy Wilder, um jornalista sedento por reconhecimento profissional é capaz de ultrapassar os limites éticos rogados por qualquer manual de jornalismo. Charles Tatum, o veterano jornalista, tentando alcançar o ápice de sua carreira, se esbarra em uma pauta que pode alavancá-lo: um mineiro preso em uma caverna indígena nos arredores no Novo México. Tatum passa a fazer a cobertura exclusiva do resgate e acaba promovendo um espetáculo com a delicada situação. Toda a imprensa se volta para a caverna, mas o personagem que se sobressai é Tatum, tido como um herói. O desenrolar da trama não é de tal modo heroico: o prolongamento do resgate, promovido por Tatum a fim de angariar mais audiência para sua pirotecnia, acaba por sufocar o mineiro e levando-o a morte.

Tal imagem nefasta do jornalista em filmes de Hollywood é recorrente: The Front Page (1931); Citizen Kane (1940); All the President's Men (1976). Mas por que as lentes de Hollywood representam o profissional do jornalismo com tanta aspereza e negatividade?

O que é evidente na maioria dessas películas é a recorrência da busca pelo estrelato, custe o que custas; seja para alcançar o topo da carreira, conseguir favores políticos, enriquecer ou, resumidamente, ter poder. Talvez podemos enxergar nessas construções uma identidade comum do jornalista, o poderoso detentor da informação. Ele é aquele que sabe o que foi discutido na plenária da câmara, que assistiu o acidente de avião, a vista do Papa e do FHC e nos passa tudo por meio das escrituras (jornal, TV, rádio, internet).

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Tal poder de ser a voz do fato, o informante que está em todos os lugares simultaneamente, entrega ao jornalista o poder de ser o nosso olho e o nosso ouvido. Nesse sentido, o trabalho jornalístico é ordenar, através da linguagem, o caos. Premissa contrária ao trabalho artístico que, apesar de se valer de linguagens, não pretende ordenar. Ou seja, a arte bagunça a sala que o jornalismo acabou de arrumar.

Talvez a implicância dos cineastas hollywodianos com os jornalistas esteja ligada ao dirscurso explícito do jornalismo em trazer a unidade de um mundo plural. A contribuição dos cineastas, nesse sentido, seria a de trazer as relações entre unidades, o dinamismo de um mundo em transformações, as linhas que correm de um ponto ao outro, e não as de um ponto que vai da caneta do jornalistas ao papel da redação.


Gabriel Santin

Pois a delícia de sentir o cheiro de tinta fresca é a delícia de ouvir o barulho de uma parede caindo..
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