em reforma

Disponibilizo lentes de aumento

Gabriel Santin

Pois a delícia de sentir o cheiro de tinta fresca é a delícia de ouvir o barulho de uma parede caindo.

“Esse é o meu companheiro”

Dentre todas as censuras impostas aos homossexuais, o nome é a mais perturbadora. Não pela magnitude, mas pela simplicidade.


O ato de nominar é, em grande parte, executado de forma muito tranquila. Chamamos de xícara o recipiente de líquidos que levamos à boca. Não temos problema algum em colocar nome nas coisas. Nominalizamos até mesmo o que não sabemos. Chamamos de amor a confusão que sentimos por outrem; ou de Deus a força ou entidade que conduz a existência. É quase natural. Nome e coisa se fundem. No entanto, os nomes são invenções para que a comunicação seja possível. Se cada indivíduo tiver um nome para xícara, pedir uma xícara de açúcar ao vizinho seria uma tarefa épica.

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Em ‘Amor à Vida’, atual novela global das 9, os casais homossexuais são nominalizados como ‘companheiros’: Niko queria ter um filho com seu companheiro, Eron. Não é namorado, nem marido. É companheiro. Escolha óbvia para não atingir certa parcela da audiência que aceita assistir dois homens se abraçando intimamente, ou segurando as mãos, mas não aceita nominalizar isso. A palavra causa medo.

No entanto, diferentemente do que se pensa, essa escolha é integralmente coerente. A palavra companheiro deriva do latim “cum panis”, aquele com quem dividimos o pão. Dois homens ou duas mulheres que decidem viver juntos são, de fato, companheiros. Companheiro faz companhia, é cúmplice. Colabora com sua presença para a plenitude do outro. Confia com tanto ardor, com tamanha generosidade, que o convida para sentar à mesa e dividir o pão (quem está pensando nas sagradas escrituras é você).

Independentemente do prefixo, todo casal almeja dividir o pão. Desse modo, os casais homossexuais são os que mantêm o sentido romântico do casamento?


Gabriel Santin

Pois a delícia de sentir o cheiro de tinta fresca é a delícia de ouvir o barulho de uma parede caindo..
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