em reforma

Disponibilizo lentes de aumento

Gabriel Santin

Pois a delícia de sentir o cheiro de tinta fresca é a delícia de ouvir o barulho de uma parede caindo.

Desconfie do CONAR

Autorregulação do mercado publicitário: onde você se encaixa?


Nessa semana, o Conselho Nacional de Autorregulação Publicitária (CONAR) começou a veicular sua nova campanha para TV e mídia impressa. A campanha usa a “mania de criticar” para ironizar os excessos de reclamações insignificantes que a entidade recebe. A estratégia é reforçar a confiança que o público tem em relação ao conselho.

A ideia da campanha parte de comportamentos comuns, sobretudo, nas mídias sociais: a reclamação, ou a mania crítica. Em uma das propagandas televisivas, um palhaço que anima uma festa de aniversário infantil é surpreendido por um rapaz que o repreende por usar peruca azul como recurso visual para atrair as crianças e fazer apologia à violência devido ao seu codinome, Peteleco. No segundo vídeo, de maneira mais emblemática, um casal que se serve de uma feijoada completa interrompe o garçom por supostos abusos: o arroz e o feijão servidos separados representam a segregação e a couve é o único prato feminino da refeição, caso típico de sexismo.

Já nas mídias impressas, a referência às mídias sociais é mais evidente: há frames de vídeos publicitários com destaque aos comentários críticos que o tom irônico da campanha faz supor serem ridículos.

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Quando os vídeos da campanha foram para o Youtube, a repercussão foi reverberante: uma multiplicação exponencial de reclamações e críticas tão fundamentadas quanto teorias pós-modernas. As já clássicas ‘chupa esquerdistas’ e ‘mimimi feminista’ estavam presentes. ‘Corrupção’, ‘liberdade de expressão’, ‘Danilo Gentili’ e ‘fascismo’ foram as mais recorrentes. Infelizmente, a arena é sempre montada para dois oponentes.

Como o próprio nome indica, o CONAR é um órgão privado de autorregulação. Surgiu com o propósito de barrar a censura prévia da ditadura militar no final dos anos 70. Ou seja, a prática do mercado regular a si próprio pareceu a melhor resposta à época. O regime militar representava o Estado, que era opressor e intransigente. O CONAR era ‘do lado de lá’, da sociedade civil que lutava por direitos e liberdade. Havia dois oponentes na arena. No entanto, hoje, esse maniqueísmo perdeu a lógica.

Os membros diretores do CONAR são publicitários (que produzem propagandas), donos de agências (que vendem propagandas) e diretores de veículos de comunicação (que veiculam propagandas). Supostos ‘membros da sociedade civil’ nada mais são do que representantes de entidades afins. Todos escolhidos de maneira maçônica. Parece-me ingenuidade pensar que tais autoridades regulamentem a produção publicitária de maneira justa e idônea.

Segundo a campanha, somente o CONAR sabe o que é melhor para a sociedade (o slogan é: ‘Confie em quem entende’). Ora, Costa e Silva entendia que o AI-5 era melhor para a sociedade. E parte da sociedade confiava de fato. Quero dizer, quando discursos imperativos são deflagrados, naturalmente surge a imposição, a ausência da plena liberdade. O que a campanha do CONAR deflagrou foi a imposição de seu entendimento sobre outros. Quando disse que maniqueísmos do tipo repressão x liberdade, feminismo x machismo, comunista x neoliberal não fazem mais sentido, é que, atualmente, conselhos autorreguladores nada mais são do que instrumentos para proteger interesses privados, e não públicos. Estão todos do mesmo lado da arena: ditadores querendo calar a imprensa e um mercado querendo calar a opinião pública. É cálice dos dois lados da arena.


Gabriel Santin

Pois a delícia de sentir o cheiro de tinta fresca é a delícia de ouvir o barulho de uma parede caindo..
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