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Disponibilizo lentes de aumento

Gabriel Santin

Pois a delícia de sentir o cheiro de tinta fresca é a delícia de ouvir o barulho de uma parede caindo.

WhatsApp é só Leite Moça

Como seria um encontro entre Mark Zuckerberg e Eike Batista?


Nos dicionários, dar nome aos bois é fundamental. Encontramos acepções certeiras e convenientes ao que procuramos. No entanto, no dia-a-dia, não paramos para pensar o que podem significar as coisas que nos cercam. Seguimos o fluxo de significações que está por aí. Não pensamos na fabricação de nossos gadgets, como a internet chega até nós ou sobre os resultados que o buscador não mostrou. São questões perigosas, pois as respostas podem destruir significações complexas que nós, usuários, temos desse mundo digital.

Quero dizer, significamos tudo o que nos cerca, mesmo sem querer. Mas nem sempre somos os protagonistas desse processo. Algumas instituições assumem esse papel em nosso lugar: igreja, família, amigos e a Mônica Waldvogel. O caso exemplar para a construção de sentidos sobre a atual ordem tecnocrática é o mercado digital.

A evidência de que tecnologia e mercado andam juntos é erroneamente clara. Se considerarmos que o Vale do Silício (EUA) é povoado por empresas, e que as inovações são produtos a serem patenteados, equacionamos tranquilamente que os avanços humanos vêm com código de barras. Confundimos a incrível capacidade de navegação virtual com o serviço Google. É importante ressaltar: o Google promoveu uma mudança humana significativa, isso me parece incontestável. No entanto, temos que ter clareza nos nomes que demos às coisas. Google é a empresa de serviços que media o acesso à tecnologia. Sendo uma empresa (ou produto), é sujeita a variações, instabilidades financeiras e erros administrativos. Está sujeita também a especulações e monopólio.

Na semana passada, a compra do WhatsApp pelo Facebook deflagrou o rosto desse mercado. Por um lado, livros, palestras, tutoriais e cursos sobre como utilizar as ferramentas do FB para uma campanha publicitária de sucesso, fazendo crer que a mídia social é, em verdade, a própria rede. Do outro lado, uma negociação de 16 bilhões de dólares articulada como toda relação comercial, como qualquer empresa num mercado financeiro cobiçoso por crescimentos e lucros. Muitos podem dizer que toda a tecnologia surge como atributo comercial. Sim, sem dúvida. Mas a especificidade do mercado digital de hoje é que as empresas lidam com uma inovação ‘vestível’, processos que fazem crer serem orgânicos, e os são. Todavia, essa tecnologia só está disponível no sistema Android e iOS. Ou seja, a inovação humana que nos levou ao bate-papo instantâneo em qualquer lugar se tornou a mesma coisa que o bate-papo instantâneo em qualquer lugar. Tecnologia e produto são um só.

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O discurso de alinhar tecnologia e mercado é fomentado por revistas especializadas, blogueiros, escolas de treinamento, cursos universitários e, claro, pelas próprias empresas. Nenhuma campanha publicitária do FB é sobre computador, internet ou tecnologia. Longe disso, mostra a conexão humana, os laços que unem uma família ou um par de namorados. Como toda publicidade, a esfera da produção passa longe. O FB torna mágico o acesso ao seu produto, como é mágica a compra de uma lata de Leite Moça. No entanto, se a Nestlé declarar falência, o leite condensado continuará existindo. Isso também acontece com os produtos tecnológicos e serviços virtuais.

Entender a tecnologia como conceito humano me parece radicalmente diferente de concebê-la como acumulado mercadológico de produtos e serviços que se baseiam em tais conceitos.

Nessa altura da discussão, algumas questões são urgentes: se a Microsoft, Google, Facebook ou a Apple insistirem em monopólios tecnológicos, qual o futuro da tecnologia digital? Qual o real valor de ‘inovação’? Em um contexto em que empresa é confundida com tecnologia, Eike Batista certamente tem muito a ensinar a Mark Zuckerberg.


Gabriel Santin

Pois a delícia de sentir o cheiro de tinta fresca é a delícia de ouvir o barulho de uma parede caindo..
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