Victor Silveira

Estudante de psicologia, que aspira Filosofia e Artes Visuais. Gosta de palavras assim como de silêncios. Costuma ser o intangível do que mostra ao vê-lo.

A impopularidade de Clarice Lispector

Talvez Dissesse: Façam eles o que querem de minhas palavras, pouco me importa se as enfiam em suas mochilas ou bolsos rasgados, se as mastigam ou engolem.

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Quanto mais popular tem se tornado Clarice Lispector, antagonicamente tem se feito impopular. É com esta postura critica que tenho visto a proliferação desmedida de pequenos fragmentos de sua obra, partes amputadas de suas crônicas e romances e contos, disseminados por redes sociais e afins. A autora tem recebido por seus pseudo-discípulos o titulo de “conselheira amorosa”. Existe até um aplicativo, desses de frases automáticas do faceboock com o nome “Conselhos de Clarice Lispector”. Não vejo essa crítica com uma ótica exclusivamente negativista, penso ser um meio de refletirmos até que ponto nos acomodamos com a superfície, nesta sociedade onde a tecnologia cada dia mais acessível a todos, com suas infinitas possibilidades de informação e cultura, que entretanto se apresenta em segmentos superficiais. Fico a imaginar qual seria a postura de Clarice se estivesse viva. Frente a tal fenômeno que pode ser considerado como social, o que diria? Talvez Dissesse: Façam eles o que querem de minhas palavras, pouco me importa se as enfiam em suas mochilas ou bolsos rasgados, se as mastigam ou engolem. E pensar nessa resposta fictícia da autora me fez refletir sobre o papel, que a mesma tem assumido na atual sociedade, que pode ser visto como de resignação, retrocesso, e dissimulação por parte de seus “leitores”.

A obra de arte é circuncidada por aquilo que se vê da própria obra, sempre e cada vez, como se fosse à primeira vez em que foi vista. Essa eterna ressignificação, de atravessamento da singularidade daquele que experimenta a arte, seja ela na literatura, fotografia, pintura, teatro, música, ou qual for a modalidade em foco, será sempre o retorno de demandas internas do espectador. Tal fato, nos faz anuir que, a significação literária se coloca por uma ética do desejo, de quem a produz e experimenta. O tão profundo e o tão raso. São escolhas, que se apresentam marcadas pelo pragmatismo do séc. XXI.

Clarice deixa uma obra que revolucionou a literatura brasileira, e que, ao eleger o Mal como um de seus temas recorrentes, expressa o caráter demoníaco da linguagem. Ela amplia a produção literária de vanguarda, que era até então marcado por um ortodoxismo modernista. E ao assumir o risco pessoal de sua escrita, a configura com um padrão fatalista, mas rompido com o trágico, que emerge com dois contrapontos: O tédio e a auto-agressividade. Mas por outro lado esse campo de luta da escritora é também vivenciado por um terno sentimento de compaixão com a condição existencial, sempre culpada de si mesmo.

“ O pudesse eu um dia escrever uma espécie de tratado sobre a culpa. Como descrevê-la? Aquela que é irremissível, a que não se pode corrigir? (...) A culpa em mim é algo tão vasto e tão enraizado que o melhor ainda é aprender a viver com ela” 

A autora inaugura no Brasil um estilismo literário único, sendo aclamada e atacada pela crítica, por sua impulsividade corrosiva como peculiaridade central de sua escrita, tendo como campo de abordagem a alma humana e suas paixões.

Desse modo como conclui Yudith, crítico literário da autora, “Torna-se inevitável pensarmos esse modelo de sedução e destruição como o protótipo da poética de Clarice, que envolve o leitor, qual marinheiro encantado pela sereia, para em seguida engolir suas convicções e afogá-lo nas águas de um escrita letal. A escrita Clariana é ela mesma testemunho de um salto sobre fragmentos de uma intensa explosão psíquica criativa.“

Segundo Lucio Cardo, amigo de Clarice, em seu Diário Completo, em uma das poucas alusões que faz a autora, diz: “é um longo, exaustivo e minucioso arrolamento de sensações.” Sua escrita é a consumação de incêndio, cujas chamas são a constância de suspiros íntimos e derradeiros. Talvez seja essa uma boa metáfora para se construir uma moldura de seu retrato.

Tendo sua obra inteiramente influência por um traço biografia que é tingido por pessoalidade/personalidade ímpar, que não só estrutura como ainda a diferenciava das demais. Esse engendramento de ficção e vida, é experimentado por ela em uma constante desconstrução literária cuja  fusão de papeis que trocam-se entre si sem regras, e se fundem a gerar cópias de si mesmo, sem se permitir uma distinção racional. Assim se dá sua transmigração textual.

Para Rosenbaum outro crítico, “A ficção que se arma nesse jogo de vozes desmonta as incertezas factuais, imprimindo ao texto um caráter inacabado, aberto, questionando a verdade única da experiência narrada.”

Já para, Sergio Millet, a relação de Clarice com as palavras se faz de não domínio, "não as domina mais, então; elas é que tomam conta dela." O que nos faz entender sua intensa postura de desdobramento subversivo. Que possibilita pensarmos um efeito de embriaguez artística na autora. 

Poderia continuar a pensar, e conectar informações que justificariam minha crítica do mal estar de uma popularidade leiga, que impossibilita o mergulho, o aprofundar, que na literatura assume um caráter incrível, de quem se dispõe por uma perspectiva crítica, ultrapassar um consumo pragmático literário.

E são tantas as histórias que um mesmo romance, conto, ou crônica pode contar de nós mesmo. Por isso reconheçamos os infinitos potenciais da arte literária e não nos conformemos com menos do que, o longo mergulho ao infinito.

Abaixo deixo um trecho de uma crônica de Clarice, A descoberta do mundo, onde a narrativa se desenrola nesse entrelaço de experiências reais e ficcionais da autora.

“(...) fui preparada para ser dada à luz de um modo tão bonito. Minha mãe já estava doente, e, por uma superstição bastante espalhada, acreditava-se que ter um filho curava uma mulher de uma doença. Então fui deliberadamente criada: com amor e esperança. Só que não curei minha mãe. E sinto até hoje essa carga de culpa: fizeram-me para uma missão determinada e eu falhei. Como se contassem comigo nas trincheiras de uma guerra e eu tivesse desertado. Sei que meus pais me perdoaram eu ter nascido em vão e tê-los traído na grande esperança. Mas eu, eu não me perdôo.”

A entrevista que segue abaixo me fez acorda para Clarice Lispector. Sua depressão exalada no olhar, a fadiga das palavras, e pelos minutos que se seguem ao seu discurso, em alguns momentos, sádico, me levou a desejar o mergulho em sua vida e obra. Que tem me embriagado e feito avançar, e trazido a convicção de um infinito de águas a minha frente. 


Victor Silveira

Estudante de psicologia, que aspira Filosofia e Artes Visuais. Gosta de palavras assim como de silêncios. Costuma ser o intangível do que mostra ao vê-lo. .
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