Victor Silveira

Estudante de psicologia, que aspira Filosofia e Artes Visuais. Gosta de palavras assim como de silêncios. Costuma ser o intangível do que mostra ao vê-lo.

Navegar é preciso em Heidegger e Fernando Pessoa

Reflitamos então, na literatura e na filosofia, na poesia e na vida, e questionemos-nos quanto ao viver e ao morrer. E nos embriaguemos de nossa próxima existência. Naveguemos e vivamos.

Imagem3.pngHeidegger - (1889 -1976) discípulo de Husserl e de sua Fenomenologia constrói seu pensamento filosófico também influenciado, assim como toda filosofia moderna por seu conterrâneo Nietzsche. Ao pensar uma noção heideggeriana de arbitrariedade da existência, como vontade, onde o homem livre e pertencendo a um universo, só da sentido a sua existência a partir da reflexão. É esta condição de pertencimento, de estar no mundo, que para o filósofo, se faz a única índole definidora do homem. 

A Literatura produz em seu discurso uma veia, uma artéria, que nos permite investigá-la a fim de estabelecer relação intertextuais com a filosofia.  Ela nos fornece imagens metafóricas, que desvelam por uma via lúdica os complexos conceitos e concepções, que os filósofos dissecam em seus tratados teóricos.

Trago a luz então, o ato poético de Fernando Pessoa:

Navegadores antigos tinham uma frase gloriosa:

"Navegar é preciso; viver não é preciso".

Quero para mim o espírito desta frase,

Transformada a forma para a casar como o que sou:

Viver não é necessário; o que é necessário é criar.

Não conto gozar a minha vida; nem em gozá-la penso.

Só quero torná-la grande,

Ainda que para isso tenha de ser o meu corpo

E a (minha alma) a lenha desse fogo.

Só quero torná-la de toda a humanidade;

Ainda que para isso tenha de a perder como minha.

Cada vez mais assim penso.

Cada vez mais ponho da essência anímica do meu sangue

O propósito impessoal de engrandecer a pátria e contribuir

Para a evolução da humanidade.

 

O poeta em sua narração testamenta um tratado que se converge em uma vida autêntica, que começa primeiramente na reflexão de imprecisão de existir. O Ser-no-mundo de Heidegger, o Dasein, aquilo que estoura, que eclode, podendo ser associada a uma metáfora do nascimento, do sujeito que se vê enquanto ser, ultrapassando a circunscrição cultural de apenas estar. O sujeito que se modifica de acordo com o que pretende. Partindo de um essencialização tanto no poeta como no filósofo, entre existência e temporalidade que resulta em uma ação: Navegar.

 

Os instrumentos de uso da navegação são para os navegadores precisos e norteiam sua localização de tempo e lugar, dando rumo ao seu percurso. O poeta começa com um atravessamento dessas possíveis certezas norteadoras no viver.  Ao enxergar sua definição imprecisa enquanto ação expedido pelo desejo, esse atributo essencialmente humano que marca todas as nossas produções com o desenho de nossa própria história.( Arrojo, Rosemary. Tradução, descontrução e psicanálise) 

 

O ser-aí, que aceitando sua finitude, a máxima limite da imprecisão, ser um ser para a morte, que trás ao homem um olhar crítico sobre sua existência. Entregando (o poeta) a própria vida para ser vivida “Só quero torná-la grande, ainda que para isso tenha de ser o meu corpo e a (minha alma) a lenha desse fogo.” De forma autentica ele assume o sentido que ele mesmo deu a sua existência. Diferente daquele vive a considerar a morte em terceira pessoa, dissimulando por uma constância do passado aquilo que mais cedo ou mais tarde virá no presente. E ao se dar conta de que vez assim, não tem mais tempo para Navegar.   

 

Reflitamos então, na poesia e na vida. Questionemos-nos quanto ao viver e ao morrer. E nos embriaguemos de nossa própria existência, considerando como disse Nietzsche, provocativamente que, “se um dia ou uma noite um demônio se esgueirasse em tua mais solitária solidão e te dissesse: Esta vida, assim como tu a vives agora e como a viveste, terás de vivê-la ainda uma vez e ainda inúmeras vezes; e não haverá nela nada de novo, cada dor e cada prazer e cada pensamento e suspiro e tudo o que há de indizivelmente pequeno e de grande em tua vida há de retornar, e tudo na mesma ordem e seqüência - e do mesmo modo esta aranha e este luar entre as árvores, e do mesmo modo este instante e eu próprio. A eterna ampulheta da existência será sempre virada outra vez - e tu com ela, poeirinha da poeira!"

 

E  que essa visão consumada, não nos faça apenas descobrir que jamais realmente vivemos. Mas que nos impulsione a navegar, assumindo todas as implicações desse ato. 

 


Victor Silveira

Estudante de psicologia, que aspira Filosofia e Artes Visuais. Gosta de palavras assim como de silêncios. Costuma ser o intangível do que mostra ao vê-lo. .
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